A manipulação de resultados é uma questão que tem levantado grandes preocupações das autoridades do futebol europeu. Recentemente, a Uefa prometeu ações mais duras para coibir o problema, comum principalmente em ligas do leste europeu. Não à toa, Fenerbahçe, Besiktas e Metalist foram excluídos das competições continentais nesta temporada justamente por envolvimentos com casos de combinação. No entanto, a Football Association, que costuma agir como ‘guardiã da boa conduta’ no esporte, parece lavar as mãos para um escândalo local.

A denúncia aconteceu na Conference South, uma das divisões da sexta divisão inglesa. Três clubes foram colocados sob suspeita, depois que quantias altas de dinheiro foram movimentadas em sites de apostas, vindas principalmente da Ásia. Partidas que não costumam ter mais de 500 torcedores, movimentando centenas de milhões de libras em outro continente. O suficiente para que uma atitude consistente fosse tomada. Porém, a FA não tem dado muita atenção para o caso.

Em reportagem publicada para a BBC, cartolas dos três clubes envolvidos afirmaram que não foram procurados pela federação.  A postura foi criticada até mesmo por Graham Bean, ex-membro da FA, indicando que a entidade abandonou seu dever de ir atrás da história e classificando sua atitude como vergonhosa.

“Acredito que a FA tende a enfiar sua cabeça na areia quando sugerem manipulação de resultados e também a dar uma percepção de que eles não pensam que isso existe. Quando eu estava na FA, uma vez tive a ideia de criar uma linha direta anônima na qual poderiam ser denunciadas situações erradas. Fui ridicularizado por isso”.

A revolta é comum entre os dirigentes envolvidos

A situação causou indignação até mesmo no próprio presidente do Billericay Town, Steve Kent, cujo clube está envolvido no escândalo: “Estou falando com as autoridades nesse país para investigar a possibilidade de manipulação em nosso futebol. Como eles podem olhar para o caso envolvendo meu clube quando ninguém da polícia, da FA ou da liga fez qualquer contato?”.

Para piorar, em setembro, um grupo de jogadores britânicos foi indiciado na Austrália por envolvimento com viciação de jogos. Três deles atuavam no Hornchurch, outro clube suspeito na Inglaterra. “Na luz desses eventos, é uma hora propícia para a investigação. Não estou dizendo que são casos abundantes ou comuns. Mas, diante das informações que temos, a questão merece uma investigação. Quando vi os nomes envolvidos, fiquei chocado por estar familiarizado com eles”, analisou Kent.

Já Collin McBride, presidente do Hornchurch, se mostrou revoltado com a atitude ‘amadora’ da federação: “É surpreendente que a FA não tenha entrado em contato conosco. Você poderia pensar que eles tivessem dado uma ligação de cortesia. Estamos nos sentindo no limbo. Não podemos desenhar uma linha e seguir em frente. Fico desapontado, merecíamos uma resposta. Eu realmente espero que meus jogadores sejam inocentes, fiquei profundamente chocado com essa história porque são bons rapazes”.

Segundo a BBC, no entanto, a falta de contato com os clubes envolvidos não quer dizer que a FA está deixando o caso de lado. A entidade inglesa falou com autoridades australianas sobre o escândalo recente. Já um porta-voz da federação afirmou que “estão tratando o assunto com extrema seriedade, mas que não podem confirmar os detalhes das investigações”.

De certa forma, a inatividade da Football Association gera questionamentos sobre outros pontos. Afinal, as apostas são legalizadas e a cultura dos jogos de azar é massiva no Reino Unido. As companhias do setor, inclusive, costumam investir bastante em clubes profissionais do país – não é tão difícil ver empresas do ramo investindo em clubes. Tal postura da federação cria a suspeita de que, ao se esconder, ela teme prejudicar os altos ganhos que o setor traz a sua estrutura. Algo que torna as investigações ainda mais urgentes.