Neste momento, mesmo sem qualquer previsão sobre a retomada de sua disputa, a Premier League tende a encerrar sua temporada quando for possível. A mesma confiança não é compartilhada por outras divisões inferiores ao redor da Inglaterra, sobretudo aquelas mais dependentes das bilheterias. E nesta quinta-feira, a Football Association resolveu passar uma grande borracha sobre o futebol amador e semi-profissional do país. Da sétima divisão para baixo, toda a temporada de 2019/20 está cancelada. Os jogos disputados ao longo dos últimos meses não valeram para nada. Acessos e descensos não serão computados.

A canetada da FA não vale para as três principais organizações das ligas inglesas: a Premier League, a Football League (que cuida do segundo ao quarto nível) e a National League (responsável pela quinta e pela sexta divisão, a única destas entidades sob os poderes da federação). Abaixo disso, todos os clubes acabam submetidos à ordem da FA. Os clubes terão que esquecer seu desempenho em 2019/20 e começarão do zero quando as autoridades sanitárias permitirem o retorno às atividades no Reino Unido – preferencialmente em agosto.

“Estas são circunstâncias desafiadoras para o futebol inglês e todas as decisões tomadas são pelos melhores interesses do esporte. Nossa maior preocupação sempre será com a segurança e o bem-estar de clubes, jogadores, funcionários, dirigentes, voluntários e torcedores durante este período sem precedentes. Os passos de hoje levam em consideração o impacto financeiro durante esse momento, pensando no método mais justo de como os resultados esportivos da temporada serão decididos, com a integridade das ligas em mente”, justificou a FA.

A Football Association também confirmou o encerramento das divisões femininas a partir da terceirona. A entidade promete buscar soluções à Women’s Super League e à Championship, as duas principais competições femininas. Além disso, a FA precisará responder pela National League masculina, que deverá ter uma posição um pouco mais alinhada com as divisões acima, diante das consequências diretas do acesso e do descenso à Football League. Aguarda-se a resposta ainda à Copa da Inglaterra, paralisada nas quartas de final, e às copas nacionais que envolvem os clubes menores.

“Pensamos que seria errado premiar um acesso ou punir um rebaixamento com tantos jogos restantes. As competições estão encerradas e aguardamos a próxima temporada. Tentamos encontrar uma solução que seja justa à grande maioria das equipes”, opinou Nick Robinson, presidente de uma das entidades que compõem a sétima divisão, em entrevista à BBC.

Mesmo com três meses para o final da temporada, alguns clubes tiveram os seus acessos anulados. Na décima divisão, o Jersey Bulls havia garantido a promoção depois de emendar 27 vitórias em 27 partidas em sua liga regional. A equipe já acumulava 20 pontos de vantagem na liderança. O mesmo aconteceu com o Vauxhall Motors, também da décima divisão, que tinha uma gordura de 16 pontos no topo da tabela de sua liga regional. Já na sétima divisão, a confirmação da ascensão do South Shields era questão de tempo, com 13 pontos de diferença ao segundo colocado. Todos eles precisarão passar mais um ano em seu nível, sem qualquer indicativo de que repetirão o desempenho mais uma vez.

A revolta em alguns clubes é natural. Geoff Thompson, presidente do South Shields, externou sua insatisfação nas redes sociais e prometeu recorrer: “O South Shields escreverá à Football Association nos termos mais fortes possíveis e buscará uma apelação ou tomará uma ação legal. Seja qual for o resultado após esta medida terrível, o clube continuará como antes. Entretanto, não há como negar que isso tenha um enorme impacto financeiro. Investimos pesado nesta temporada e perder o acesso também afetará algumas de nossas possíveis receitas aos próximos meses. Minha mensagem aos torcedores e patrocinadores é pedir desculpas pela enorme decepção. Todos nós ficamos muito impactados”.

Líder na sétima divisão, o Truro City foi mais um a se sentir lesado. Em entrevista à BBC, o técnico Paul Wotton apontou que a falta de dinheiro pesa contra os amadores e semiprofissionais: “O ponto de partida é que o Liverpool poderia levar a FA ao tribunal, mas nós não temos dinheiro para isso. Eu realmente acredito que há um pensamento de que ‘nenhum dos pequenos vai brigar por isso’. Entendo que há coisas mais importantes no momento e pessoas estão sofrendo. Mas, sem parecer egoísta, estamos devastados pela decisão”.

No momento, a postura dos clubes é isolada. Resta saber se eles poderão se unir para uma ação em conjunto, que realmente pressione a Football Association por sua posição. Mais da metade da temporada já havia sido disputada. Uma adaptação no calendário poderia ser estudada, mas a federação não se abre neste sentido, sobretudo por conta das questões contratuais dos atletas. A discussão não deve se encerrar aqui.