Desde a primeira metade de março, Dante vive uma situação parecida à de quase todo jogador profissional no mundo. Os treinos em grupo ficaram no passado, os jogos não têm previsão para retornar, e o experiente zagueiro do Nice, da França, vai tentando se adaptar à nova rotina que lhe foi imposta. Em um texto publicado no Players’ Tribune nesta quinta-feira (23), o brasileiro compartilhou como tem sido sua experiência, resumida em algumas palavras: “Agora, meu trabalho é cozinhar, fazer café e ajudar (sua mulher) Jocelina a limpar a casa”.

Como bem sabemos, os atletas têm seguido instruções diárias de seus clubes para realizar atividades em casa para manter a forma física para caso a temporada de futebol seja enfim retomada. Fora isso, os jogadores têm tido muito tempo livre para passar com sua família. Dante está aproveitando o período neste sentido, apesar da estranheza de nossos tempos.

O zagueiro afirmou que sua vida “virou de cabeça para baixo”. Pai de duas meninas e um menino, disse nunca ter sido mais presente do que agora. Se antes suas responsabilidades envolviam enfrentar atacantes de uma das principais ligas do mundo e lutar por cada bola em campo, agora as missões são mais parecidas com a do cidadão médio e envolvem muita tarefa doméstica.

Assim como outros jogadores brasileiros, como Neymar e Thiago Silva, Dante optou por retornar ao Brasil para ficar próximo do restante da família durante o período de isolamento social. Assim ele explica: “Quando o vírus atingiu a França e eles suspenderam a Ligue 1, eu entendi que seria quase uma guerra. E quando a ‘guerra’ começa, você quer estar perto de sua família e parentes. Você quer voltar para a sua pátria. Simples assim. Então, Jocelina e eu voamos com nossos três filhos para Salvador, a cidade onde nasci”.

Se por um lado sua vida tem sido a mais comum em toda sua carreira como atleta, por outro, os seus horários não poderiam ser mais alternativos.

“Nossa agenda é um pouco louca. Estamos mantendo o horário europeu para que as crianças possam fazer suas aulas online com seus colegas na França. Também queremos que eles se adaptem rapidamente à hora local quando voltarmos a Nice. Como as aulas começam às 4h10 da manhã, acordamos super cedo para nos preparar. As crianças estão preparadas? Eles entendem tudo? Eles precisam de ajuda? Às 11h, as aulas terminam e é hora do almoço. Nós cozinhamos, comemos e lavamos a louça. Então, as crianças brincam, enquanto eu faço o programa de treinamento que o clube me enviou, ou continuo meus estudos para me tornar treinador. Depois, às 18h, é hora de dormir. E por aí vai.”

“Cara, é estranho ir para a cama às 18h. Às vezes, minha cabeça está lutando para entender o que está acontecendo. Mas estou gostando. É tão bom ver meus filhos aprenderem coisas e progredirem. O ponto alto da minha semana costumava ser um jogo importante no fim de semana. Agora está sendo ajudar nos trabalhos de casa”, completou.

Por enquanto, futebol ainda não passa pela cabeça de Dante. Com dez partidas restantes na liga francesa, o zagueiro está mais preocupado com o impacto da pandemia nas pessoas ao redor do mundo. “É assustador. Todos os dias vemos pessoas perdendo seus entes queridos. Estamos vendo famílias de luto que nem sequer têm a dignidade de enterrar as pessoas que perderam. Isso é de partir coração”, lamenta.

Dante então faz projeções para o mundo pós-pandemia. Ele tem um olhar otimista e acredita que este duro período deixará lições valiosas para a sociedade: “Quando tudo isso acabar, o mundo será um lugar diferente. Espero que também sejamos diferentes”.

Vale a pena conferir no Players’ Tribune o relato completo do jogador, que parece vir refletindo bastante sobre a vida que nós, humanos, vínhamos levando até então, em nossa experiência pré-pandemia.