Há duas semanas, a coluna fez uma breve explanação sobre as expectativas existentes para Pro Evolution Soccer (PES) 2010. Como se concluiu, um jogo bastante interessante está em vista, com o aprimoramento do nível de dificuldade, maior número de licenciamentos e novas mecânicas em desenvolvimento, visando deixar os jogadores mais próximos às suas características. E a preocupação-chave aqui comentada é a de que o jogo perca, nessa busca incessante em se aproximar da realidade sua maior e mais louvável característica: a diversão. E FIFA, como está? Bem, obrigado, e cheio de expectativas, sendo a esmagadora maioria voltada para o modo on-line, a grande cartada da EA Sports.

Na jogabilidade em si, as mudanças não fogem muito do que todo mundo espera: melhor atenção dos atletas em campo ao posicionamento e ao jogo sem bola, goleiros mais espertos — um dos raros defeitos na famigerada “aproximação da realidade” de FIFA, historicamente, na série — e o aprimoramento na inteligência artificial — alvo de uma interessante evolução na franquia, que a deixou mais desafiadora que a do rival PES e a tornou o principal predicado do game da EA Sports no que diz respeito à diversão — especialmente do sistema defensivo. A diferença é que, dessa vez, assim como ocorreu com PES 2010, tais mudanças foram à la carte, baseadas no acompanhamento de mais de 275 milhões de partidas on-line realizadas por seus jogadores e em comentários feitos pelos próprios fãs em fóruns. A voz do povo é a voz de Deus, pelo menos no futebol virtual.

O modo Dirigente — que, embora divertido, não substitui a boa e velha dupla Championship Manager-Football Manager — prevê uma maior realidade nas transferências de jogadores e na reação dos atletas em campo, que estarão com pensamentos mais rápidos e adequados às características e pontos positivos e negativos do time pelo qual estão jogando, além das que eles próprios possuem. As negociações serão mais frequentes e acirradas, e como agora os jogadores estarão mais “exigentes”, muitas vezes, o desespero pela abertura da janela de transferências, caso se esteja comandando um “pequeno”, será semelhante ao dos brasileiros. “Ué, vocês não querem realidade? Então toma!”. Ponto positivo para FIFA.

No que diz respeito à mecânica do jogo propriamente dita, as promessas se baseiam na mobilidade dos atletas virtuais, no que almeja valorizar a velocidade e a força física dos jogadores, costumeiramente mais “equilibrados”. A expectativa é a de que o cara que é mais rápido, habilidoso e forte tenha mais “facilidade”, por assim dizer, para se desvencilhar das marcações avançando a bola à frente do que em versões anteriores. Apesar disso, novidade não é uma das palavras de ordem no novo game da franquia, visto que a própria empresa anunciou previamente que não traria grandiosidades para a versão 2010 da série. Graficamente, por exemplo, nada diferente do que já é conhecido foi anunciado, enquanto PES apostará também na “beleza visual” que pretende aprimorar, como citado na coluna passada.

Preferência pela rede

Mas é, como dito, no modo on-line que estão reservadas as grandes expectativas. Uma das alterações anunciadas é a alteração na pontuação distribuída para quem vence sempre o mesmo adversário via internet — o famoso “bônus”. Ou seja, se você costumava chama seu amigo fraco para ele ser saco-de-pancadas e você ganhar pontos extras, desista, pois a contagem será, a cada partida, menor. Essa medida tem um alvo claro: o modo “FIFA Interactive World Cup”, onde o gamer pode, via grande rede, lutar para ocupar as melhores posições do ranking em seu país e, posteriormente, disputar os já famosos mundiais “in loco”, que já foram inclusive alvo de reportagens em programas especializados.

Outro dos destaques previstos para os jogos on-line é a possibilidade de se atuar, nos modos 10 contra 10, ao lado e contra outros jogadores de características, níveis e localidades próximas às suas. Isso pretende dificultar, por exemplo, que um cara de atributos mais fortes tenha que jogar, à contra gosto, com outros bem mais fracos, e que estes possam disputar contra outros novatos. Os resultados mais diretos dessa medida serão sentidos no modo de jogo “Clubs”, no qual os usuários formam times em até 50 amigos e disputam partidas 10 contra 10 com outras equipes ao redor do mundo. Além disso, visam também tornar tais jogos mais equilibrados e com menos “lag”.

Haverá também concessão de pontos caso, mesmo perdendo a partida, o jogador vá bem — o que não significa que se deva jogar sozinho apenas para se dar bem; futebol é jogo de equipe! Mas a preocupação principal é com os famosos cheaters. A própria equipe de produção confessou que a excelente recepção do modo 10 contra 10 fez com que a questão das trapaças fosse negligenciada. Isso explica, por exemplo, uma das alterações do modo on-line, que é o impedimento da utilização de times personalizados pelos jogadores, para evitar maiores complicações com trapaceiros. Será criado, ainda, um grupo específico de profissionais da EA Sports voltados para combater os cheaters espertalhões.

E quem não pode jogar on-line? Para esses, ainda restarão os modos de jogo tradicionais. E é aí que reside a “falha” de FIFA 10. Falha entre aspas mesmo, afinal, deve-se pensar no público principal, e este, invariavelmente, é o que possui os consoles da nova geração e os conecta na internet para jogar. No entanto, aquele que, por alguma razão, não o pode, fica restrito aos torneios de sempre e às exibições. O que, pode-se adicionar, é mais um motivo pelo qual o grande público brasileiro, por exemplo, prefere Pro Evo a FIFA. Em sua maioria, os jogadores de futebol virtual por aqui ainda não são adeptos dessa ferramenta, por jogarem — pelo menos, mais especificamente, games do desporto bretão — mais por diversão do que por competição. E quando se fala diversão, fala-se em PES, como já se defendeu aqui.

De qualquer forma, é inegável que o aprimoramento na montagem de verdadeiros times virtuais aguça a curiosidade de quem nunca ou pouco pode ver esse tipo de partida. E, vamos e venhamos, poder ser o atacante do seu time, jogar com mais 19 pessoas em rede, disputar torneios defendendo um clube, como se fosse realmente um jogador de um elenco, é uma aproximação fenomenal da realidade, e que evidencia a nova tendência no que diz respeito à simulação nos games: acima do aspecto visual do real, está a sensação. É por isso que Football Manager fez tanto sucesso e se tornou a segunda franquia mais vendida da história dos games lançados para PC, atrás apenas de The Sims. Hoje, FM até apresenta gráficos e bonequinhos, mas a sensação de se comandar quase tudo numa equipe era o essencial.

Aliás, FM 2010 será o tema da próxima coluna, onde se abordarão novidades e expectativas. Sobre FIFA 10, apenas para concluir, o game teve seu lançamento adiado para 20 de outubro. Com certa razão de ser, visto que estava marcado para ser lançado juntamente do rival PES — ainda que lançar um jogo depois possa ser uma faca de dois gumes. Para finalizar: o game da EA Sports será lançado para PC, Xbox 360, PlayStation 3, Nintendo Wii, PlayStation 2, Nintendo DS, PSP e celulares, e se conseguir fazer seu meio on-line atingir o grau de perfeição que espera e que tanto trabalhou para ter sucesso, certamente o final do próximo mês prevê a chegada de um dos games mais futuristas e incríveis que o mundo dos jogos eletrônicos já terá visto. E o mundo do futebol também.