O presidente Gianni Infantino está determinado a expandir a Copa do Mundo de 2022 de 32 para 48 times. Isso anteciparia a expansão já programada para 2026, quando o torneio será sediado nos Estados Unidos, México e Canadá. Só que há um problema sério nisso: o aumento do número de seleções implica, segundo o próprio Infantino, em ter ao menos mais um país sediando o evento. A questão é problemática porque o Catar sofre um bloqueio econômico, político e de fronteiras de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein, seus vizinhos na região.

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A proposta ambiciosa e politicamente muito favorável a Infantino poderia fazer, assim, com que alguns jogos fossem realizados no Kuwait e em Omã. O presidente da Fifa é ainda mais ambicioso e acredita que essa expansão da Copa 2022 pode ajudar a paz no Oriente Médio. Só que não é isso que analistas consultados pela agência de notícias francesa AFP acreditam. Mais do que isso, especialistas dizem que a proposta da Fifa pode aprofundar os problemas e fazer com que Kuwait e Omã sentirem as mesmas sansões sofridas pelo Catar pelo bloco comandado pela Arábia Saudita e que tem ainda Emirados Árabes e Bahrein.

“Há um risco muito real que expandir a Copa do Mundo para incluir Kuwait e Omã tornaria esses dois países vulneráveis ao mesmo tipo de pressão regional que o Catar enfrenta desde 2017”, afirmou Kristian Coates Ulrichsen, pesquisador da Universidade de Rice, que fica em Houston, no Texas. “Particularmente porque Kuwait e Omã também seguiram suas próprias abordagens para assuntos regionais”.

Há um outro aspecto. A Arábia Saudita, que se aproximou da Fifa e se tornou politicamente mais forte, pode querer capitalizar em cima da ideia da expansão e ela mesma receber jogos, assim como os Emirados Árabes – este último recebeu a Copa da Ásia, em janeiro de 2019. O Catar, na outra ponta dessa disputa, não vai querer deixar isso acontecer. “A ideia de uma Copa do Mundo regional que inclua Kuwait e Omã, mas não Arábia Saudita ou Emirados Árabes provavelmente causaria insatisfação em Riad e Abu Dhabi”, afirma ainda Ulrichsen.

Bloqueio ao Catar

O bloqueio ao Catar começou em junho de 2017 em um movimento comandado pela Arábia Saudita em uma disputa política que é um dos piores conflitos diplomáticos no Golfo em anos. A Arábia Saudita e seus aliados, como o Egito, acusam o Catar de promover terrorismo e ser próximo do maior inimigo dos sauditas, o Irã. O Catar nega as alegações e acusa os rivais de quererem derrubar o regime político do país.

São 21 meses de bloqueio ao Catar e não há qualquer sinal que isso vá mudar em breve. A Arábia Saudita e seus aliados fazem um bloqueio econômico, político e até de viagem ao Catar, proibindo que, por exemplo, aviões do país passem por seus espaços aéreos. Se considerarmos que é no Catar que fica uma das grandes empresas aéreas atuais, a Qatar Airways, isso é um problema bastante considerável. Há uma questão séria de fornecimento de diversos produtos por terra, já que esses países, vizinhos ao Catar, bloquearam a passagem e a entrada de produtos no país que sediará a Copa de 2022.

Dois países permanecem neutros nessa disputa política. Kuwait e Omã, mas ambos são ameaçados pela Arábia Saudita e seus aliados. Segundo Andreas Krieg, da King’s College London, trabalhou como consultor do governo do Catar e disse que tanto Kuwait quanto Omã “têm problemas com os Arábia Saudita e os Emirados Árabes”.

Já há tensões entre Kuwait e Arábia Saudita sobre o gerenciamento conjunto de poços de petróleo. Omã, por sua vez, enfrenta alegações que permitiu carregamentos de armas do Irã pelo seu território para rebeldes Huthi que lutam contra uma coalisão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen.

O Kuwait tem atuado como negociador no conflito durante a Crise. Omã foi o grande beneficiário do bloqueio, porque suas transações com o Catar subiu 240% desde 2016, de acordo com o governo do Catar. “A disputa do Golfo como existe seria exacerbada ao ter uma Copa do Mundo por três países”, disse ainda Krieg.

Segundo Krieg, a proposta de compartilhar a Copa do Mundo do Catar com Kuwait e Omã irá reforçar o sentimento que o Golfo está dividido em dois blocos de três países, com Arábia Saudita, Emirados Árabes e Bahrein do outro lado. “Do ponto de vista político, isso [a expansão] não faz qualquer sentido”, declarou ainda o ex-consultor.

Se o Catar for forçado a dividir a Copa do Mundo, algo que o governo de Doha é contra e vai lutar para impedir, é improvável que o Catar divida com Arábia Saudita e Emirados Árabes. “Eu não vejo como Arábia Saudita e Emirados Árabes podem conseguir algo com isso”, diz Krieg.

Expansão pode piorar situação no Oriente Médio

Apesar da contrariedade do Catar, a Fifa tem levado à frente a ideia de dividir a Copa, o que ganhou muitos apoiadores entre as federações de futebol do mundo. A Uefa e a Conmebol foram contrárias, mas outras confederações e suas federações nacionais parecem plenamente a favor. Tanto que a Fifa conseguiu a aprovação no Conselho da entidade para colocar em votação no próximo Congresso da Fifa, em junho, em Paris. Um dos argumentos é um estudo de viabilidade conduzido pela Fifa e apresentado aos 37 membros do Conselho da entidade, que se reuniu no último dia 15 de março, em Miami.

“Nós chegamos a conclusão, sim é viável aumentar de 32 para 48 times a Copa do Mundo, se certas condições forem alcançadas”, afirmou Infantino, feliz e empolgado com a ideia. Em Doha, claro, os dirigentes não pensam o mesmo. Infantino, porém, tem aproveitado que há sim um grande apoio a essa expansão.

A decisão final será em Paris, em junho, e até lá haverá um jogo político sendo disputado. Há ainda atores importantes que não estão convencidos. A Uefa é uma delas. A entidade que dirige o futebol europeu disse que a expansão irá criar muitos problemas e, além disso, “não é realista”.

James Dorsey, pesquisador da Rajaratnam School of International Studies de Cingapura, autor também do livro “O turbulento mundo do futebol no Oriente Médio”, é outro a considerar que a expansão da Copa 2022 pode servir para piorar a situação no Oriente Médio, e não ajudar. “Eu acho que a chance é zero”, afirmou o pesquisador sobre a chance da expansão da Copa ajudar no processo de pacificação entre Catar e os vizinhos. “A crise no Golfo não será resolvida jogando futebol”.

A expansão da Copa do Mundo faria com que houvessem 16 partidas a mais do que o previsto em um torneio de 28 dias. Há preocupações também se os estádios no Kuwait e em Omã atendem aos padrões exigidos para um torneio desse porte. Com tantos problemas, parece improvável que a expansão seja algo positivo para o Oriente Médio e sirva como uma forma de negociação para melhora da situação.

Se o Catar for obrigado a dividir a Copa com outros países, é possível que fique em uma situação de ainda mais fragilidade em um conflito que tem a Arábia Saudita como grande ganhadora, especialmente no aspecto político. A Fifa, no fim, está agindo em favor dos sauditas nessa questão. O Catar pode ser jogado em uma situação de ter que negociar com vizinhos que ativamente o bloqueiam. Em vez de ajudar a resolver o conflito, a Fifa pode jogar gasolina em uma fogueira.