Hakan Sükür vive exilado nos Estados Unidos desde que proferiu supostos insultos contra o presidente turco Recep Tayyip Erdogan no Twitter, em 2015, sendo processado e tendo que fugir da Turquia em seguida. Ícone do futebol de seu país, o ex-atacante, um dos destaques da Copa do Mundo de 2002, hoje vive uma vida muito diferente da que esperaria depois de se tornar um ícone do futebol em sua terra-natal. Em Washington, se tornou motorista de Uber.

É isso que Sükür revelou em entrevista ao jornal alemão Welt am Sonntag. O trabalho como motorista de aplicativo não é o único exercido pelo turco, que também vende livros na capital norte-americana. Anteriormente, chegou a ter uma cafeteria em seu novo país, mas decidiu fechá-la depois de uma visita ameaçadora.

“Tive uma cafeteria aqui por um tempo. Uns caras estranhos vieram até minha cafeteria e tocaram música Dombra (descrita pelo partido AKP, de Erdogan, como a ‘verdadeira música turca’)”, revelou.

Depois de se aposentar do futebol em 2008, Sükür entrou para a política em seu país, sendo eleito membro do parlamento em 2011 pelo partido AKP, de Erdogan. Entretanto, depois de ser visado por uma investigação contra corrupção, deixou o cargo e o partido em 2013. Em 2015, pelas supostas ofensas ao presidente turco no Twitter, teve que fugir do país.

“O Erdogan tirou tudo de mim. Meu direito à liberdade, o direito de me explicar, de me expressar, de trabalhar. Não tenho mais nada”, queixou-se.

Sükur conta que, na Turquia, a loja de sua mulher passou a ser alvo de pedras arremessadas. Seus filhos teriam sido frequentemente assediados na rua, e o ex-jogador “recebia ameaças a cada declaração que fazia”.

Quando foi para os Estados Unidos, afirma Sükur, todos seus bens foram confiscados, e seu pai teria sido preso. “Todas as pessoas que são ligadas a mim passam por dificuldades financeiras”, relatou ao Welt.

Em outubro de 2019, Sükür, autor do gol mais rápido da história da Copa do Mundo (10,8 segundos, contra a Coreia do Sul, em 2002), destaque daquela campanha de 3º lugar da Turquia e dono de 51 gols em 112 jogos pela seleção turca, reiterou sua oposição a Erdogan em meio à polêmica da saudação militar de jogadores atuais da equipe.

Em resposta a uma conta de torcedores da Internazionale no Twitter que criticava os atletas e lembrava da posição de perseguido político do ex-jogador, escreveu: “Luto pela justiça, pela democracia, pela liberdade e pela dignidade humana. Não me interessa o que posso perder se a humanidade ganhar”.

Em 2016, Sükür teve a descrição “membro de grupo terrorista armado” adicionada à sua ficha, acusado de ter se aliado a Fethullah Gülen, a quem o governo turco acusa de tentar liderar um golpe de estado naquele ano.

“Golpe? Qual teria sido o meu papel? Ninguém consegue explicar”, rebateu Sükür na entrevista. “Sempre fiz as coisas dentro da legalidade. Não sou um traidor ou um terrorista. Sou um inimigo do governo, mas não do estado ou da nação. Eu amo meu país.”