Infelizmente, nenhum país está imune ao racismo asqueroso que assola o futebol europeu e cada vez mais gera vítimas. Porém, se existem casos de discriminação que provocam ainda mais indignação pela forma como são tratados por muita gente ao redor (a exemplo do que aconteceu com Moussa Marega neste domingo), há outros episódios que se tornam emblemáticos pelo repúdio geral ao racismo. Foi o que ocorreu na última sexta-sexta, pela terceira divisão do Campeonato Alemão, onde Preussen Münster e Würzburger Kickers se uniram para expulsar um racista do estádio e encaminhá-lo à polícia local.

Os insultos racistas aconteceram durante os minutos finais do empate por 0 a 0, realizado no Preussen-stadion, em Münster. Descendente de ganeses nascido na Alemanha, Leroy Kwadwo se tornou a vítima da discriminação e escancarou sua indignação dentro de campo. O agressor, além de imitar sons de macaco, gritou ao jogador para “voltar ao seu buraco”. Diante da revolta, o defensor do Würzburger Kickers era apoiado por companheiros e adversários, incluindo as comissões técnicas. Neste momento, a árbitra Katrin Rafalski emitiu um aviso nos alto-falantes do estádio, bem como paralisou a partida. E, mais importante, a própria torcida não deixou barato nas arquibancadas.

Os torcedores do Preussen Münster indicaram à segurança do estádio quem era o racista. Kwadwo também apontou ao seu agressor. Imediatamente encaminhado à polícia, o homem acabou preso em flagrante – em crime que, após julgamento, pode render uma pena atrás das grades ou multa. Durante a retirada do racista, as duas torcidas se uniram para gritar “Fora, nazistas”, deixando bem clara qual a opinião da maioria dos 5,5 mil presentes em relação à intolerância. Antes de retomar o jogo, a árbitra conversou com Kwadwo. O defensor, então, seguiu sob aplausos para cobrar um lateral.

Horas depois da partida, Kwadwo publicou uma carta, repercutida por ambos os clubes: “Infelizmente, ocorreu um desafortunado incidente durante nosso jogo fora de casa contra o Preussen Münster. Fui insultado racialmente por um único espectador. Isso me deixa triste. Tenho uma cor de pele diferente, mas nasci aqui, neste país maravilhoso que me deu muito e ofereceu uma oportunidade para a minha família. Sou um de vocês, vivo aqui e exerço minha profissão no Würzburger Kickers. Algo como o que ocorreu ontem me deixa triste e com raiva, porque todos precisam saber: o racismo não pertence ao nosso mundo. Todos temos a oportunidade de lidar com isso e impedir que aconteça”.

O defensor agradeceu pela reação do estádio: “Gostaria de agradecer expressamente a todas as pessoas no estádio, às autoridades e aos jogadores, do Preussen Münster e especialmente meus companheiros do Kickers, que estiveram ao meu lado imediatamente. A reação deles é exemplar. Vocês não podem imaginar o que isso significa a mim e a todos os jogadores negros. Todos nós devemos continuar lutando contra o racismo, como vocês fizeram, e arrancar o mal pela raiz. Obrigado por cada mensagem. Espero que isso finalmente acabe”.

Em nota oficial, o Preussen Münster reiterou o apoio a Kwadwo e o posicionamento de sua torcida: “Por mais repulsivos que fossem os sons de macaco feitos contra o jogador, a reação dos outros torcedores foi impressionante, não só para identificar o agressor, como também para declarar de forma inconfundível o posicionamento antirracista dos torcedores do Münster”. Seguindo seu regulamento interno atual, o clube baniu o racista de seus jogos durante os próximos três anos, em qualquer estádio do país. Além disso, também cobrará do indivíduo a multa imposta pela federação alemã.

Já o presidente do Münster, Christoph Strässer, enfatizou: “Não é algo que pertence ao futebol e ao nosso estádio. Não queremos e não precisamos dessas pessoas aqui. Claramente nos distanciamos desse tipo de discriminação e pedimos desculpas imediatamente após o jogo. Acima de tudo, a dignidade das pessoas é intocável, e isso se aplica a qualquer um neste país”. Durante os últimos anos, o Preussen Münster encabeçou projetos na comunidade local (sobretudo em escolas) contra a xenofobia e em prol da inclusão.

A postura de todos também foi elogiada por Michael Schiele, treinador do Würzburger Kickers: “O apoio dos torcedores do Preussen Münster foi sensacional. As autoridades também reagiram muito bem e lidaram com o incidente imediatamente. Foi um sinal forte de como lidar com esse tipo de conduta racista, que é absolutamente intolerável”. O capitão Kickers, Sebastian Schuppan, complementou o posicionamento: “Ainda estou chocado com o incidente. Sons de macaco vieram de novo das arquibancadas. Mas, diferentemente de tantas outras situações prévias, o estádio respondeu muito bem. A polícia prendeu o indivíduo e espero que ele nunca mais pise em um estádio”.

Vale frisar que nem sempre se age com tamanha veemência contra o racismo na Alemanha. Há duas semanas, um ato racista aconteceu no jogo entre Schalke 04 e Hertha Berlim, pela Copa da Alemanha. Jordan Torunarigha foi a vítima dos insultos em Gelsenkirchen, visivelmente abalado e consolado pelos companheiros do Hertha. O árbitro, no entanto, não percebeu o ocorrido – estava em outra parte do campo, durante o atendimento médico de um jogador. Por isso, o aviso não foi emitido nos alto-falantes e nem o duelo foi paralisado.

Durante a prorrogação, após uma disputa de bola na lateral do campo, Torunarigha arremessou uma caixa de bebidas na área técnica do Schalke e foi expulso com o segundo amarelo. Os jogadores do Hertha ainda tentaram conversar com o árbitro Harm Osmers, explicando a revolta, sem solução. Multado em €50 mil pela federação, o Schalke publicou uma nota repudiando o racismo e iniciou os trabalhos para identificar os responsáveis pela discriminação. Neste sentido, a terceirona deu um exemplo melhor, naquilo que poderia ser uma reação mais comum das arquibancadas pela Europa.