Foi mais um grito de independência do que qualquer outra coisa. A Primeira Liga sabe que a sua edição de estreia, entre janeiro e março do ano que vem, ainda não será muito rentável. Nem teria como ser em apenas cinco datas. Mas os clubes fizeram questão de fincá-la no calendário para escancarar suas diferenças com a CBF e as federações estaduais ao mesmo tempo em que querem provar que podem organizar um bom campeonato.

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O Clube dos 13 foi fundado em 1987 quando a CBF avisou que não teria dinheiro para fazer o Campeonato Brasileiro. A Primeira Liga surge em outro momento de fragilidade da entidade nacional, mas, desta vez, ela é política. O ex-presidente José Maria Marin está em prisão domiciliar na Quinta Avenida, em Nova York, acusado de corrupção. Marco Polo Del Nero, seu sucessor pela chapa “Continuidade Administrativa”, não arrisca deixar o país e já faltou a várias reuniões da Conmebol e da Fifa.

Outros vácuos foram desperdiçados, como a saída de Ricardo Teixeira, em 2012, também acusado de corrupção, embora sem a presença hollywoodiana do FBI. Naquela ocasião, faltou vontade dos cluebs, o que parece sobrar neste momento. “Não tem cabimento os clubes de futebol serem mandados por alguém”, afirma o executivo chefe da Primeira Liga e ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, em entrevista exclusiva à Trivela. “Se você contar em qualquer lugar do mundo que a federação carioca tem mais voz que Flamengo e Fluminense, vão gargalhar”.

A dupla carioca passou o primeiro semestre inteiro trocando sopapos com a entidade comandada por Rubens Lopes. Foi convidada às reuniões da Liga Sul-Minas, que foi disputada no começo do século e conversava para retornar ano que vem. Assim, se juntaram metade dos 12 maiores clubes do país, com a companhia qualificada de Coritiba, Atlético Paranaense, Figueirense, Avaí, Criciúma e América Mineiro. Três federações também estão com eles (gaúcha, mineira e catarinense) e a paranaense está em negociações.

O caminho para a Primeira Liga tornar-se realmente nacional e substituir o Campeonato Brasileiro ainda é muito longo. Os clubes paulistas não estão envolvidos, assim como Vasco e Botafogo. As ações precisam ser coordenadas com as federações para proteger os pequenos. As divisões inferiores têm que ser integradas. Nem os direitos de transmissão ainda foram negociados. Mas toda maratona começa com o primeiro passo.

De modo geral, em que pé está a organização da Primeira Liga?

Ela está pronta. A competição está definida e datada. Com toda a parte técnica já resolvida, como arbitragem, tabela, jogos, datas, dias. Já sentamos com as televisões, com algumas. Faltam outras, que já marcaram reuniões. E agora estamos vendo a parte comercial.

Com mais um campeonato encaixado no primeiro semestre, o calendário já lotado do futebol brasileiro não tende a piorar?

Ele não vai piorar. A única coincidência de data é por causa da briga do Flamengo e do Fluminense com a federação carioca. Os campeonatos estaduais encolhem a partir de 2017 e tomamos conta de mais datas. Por uma decisão dos clubes, colocou-se uma liga pequena. Mas fizeram questão de fincá-la para marcar a independência do futebol brasileiro. As datas dos estaduais serão reduzidas.

No meio do mês passado, houve o racha com a CBF. O que aconteceu naquela reunião?

Aconteceu que estava indo tudo muito bem. Em momento nenhum, pedimos nada à CBF. Quando fomos com os clubes à CBF, fomos comunicar que a liga estava sendo feita. A CBF que sugeriu que a usássemos como parte técnica. Não vi problema nisso. Quando fomos levar a tabela para a CBF, a Federação Carioca enviou um ofício, e houve uma reviravolta. Não sei por quê. Era apenas uma federação. Temos três conosco.

Quais são as federações que estão com você?

Oficialmente, a gaúcha, a mineira e a catarinense. Estamos conversando com a paranaense.

A CBF não estava mesmo muito permissiva nessa história toda de criar uma liga que, teoricamente, pode concorrer com o campeonato dela?

Não é uma questão de permissividade, é uma questão de lei. Não tem permissividade, é até ridículo falar disso. É legal. Ela não pode complicar uma liga. Nada se sobrepõe a uma lei federal. Não foram feitas ligas até hoje por motivos simples: porque os clubes não se uniram para fazer. Isso que tem que ser entendido. A liga está no artigo 22 da nova lei, do Profut. Nós recebemos o apoio do governo federal, do Ministério dos Esportes e da OAB. Porque eles são legalistas. O que faltava eram os clubes resolverem fazer a liga.

A semente da Primeira Liga foi o racha de Flamengo e Fluminense com a federação carioca, mas também ajudou a fragilidade atual da CBF?

Ela nasceu da antiga liga Sul-Minas, e aproveitando o racha da federação carioca, eles foram chamados para a reunião. Quando eu fui chamado para trabalhar, ela já estava formada. Eu não fundei a liga. E obviamente. Tudo é feito de acordo com os momentos. A fragilidade ajudou, a quantidade de dinheiro dispensado para o Campeonato Paulista também. Tudo isso contribuiu para a liga. São vários fatores que fazem 15 clubes se abraçarem. Se o futebol estivesse a mil maravilhas, todos pagando suas contas em dia, os times ricos, seria outra situação.

Em 2011, também houve um momento de fragilidade, um vácuo de poder. Por que ela não foi criada naquela e foi desta vez?

Não sei. Em 2011, eu estava no Atlético. Não tinha ninguém preso, não tinha FBI. Saiu um presidente, entrou outro. Não houve nada demais.

Você citou a Liga do Nordeste quando falou da chancela da CBF, que foi criada há alguns anos e organiza um campeonato de muito sucesso. Vocês tiraram algum exemplo dela?

A CBF é casuísmo puro. Ela faz o que interessa. Sem desmerecer a Liga do Nordeste, estamos falando de 10 dos maiores clubes do Brasil, 10 candidatos ao título brasileiro estão nessa liga, ou sete ou oito, não importa. Essa liga é uma potência. Não dá para comparar com a Liga do Nordeste.

Não falo em uma fusão, mas há a possibilidade das duas se unirem no futuro para um torneio ainda mais nacional?

Não sou eu que respondo isso. Isso é a assembleia que vai decidir. Hoje, queremos colocar nossa liga em funcionamento e provar que será rentável. Ano que vem, ainda não será muito rentável, são só cinco datas, mas, em 2017, será muito.

Conversando com o Alex, outro dia, um dos líderes do Bom Senso, ele falou que a criação de uma liga forte, ao contrário do que pensa o senso comum, poderia fortalecer os estaduais por dar aos pequenos mais chances jogar torneios nacionais e torneios mais interessantes. Você concorda com ele?

Ela fortalece os torneios dos clubes pequenos no primeiro semestre para depois os grandes entrarem com um ou dois jogos. O que temos que fazer é que cada estado tem que cuidar dos clubes menores. Isso é uma responsabilidade da liga. Não podemos esvaziar os estaduais e matar os times menores. Isso é um estudo que terá que ser feito com muito carinho. Queremos sentar com o Bom Senso na hora certa.

O que achou da saída de Marcelo Campos Pinto da Globo?

O Marcelo foi um cara que prestou grandes serviços à Globo. Ele pode não ter prestado ao futebol. No lado em que ele jogou, jogou bem. Considero o Marcelo uma das cabeças mais brilhantes do futebol. Acho que hoje a TV fechada tomou uma grandeza tão grande que ela não pode ser carregada a reboque da TV aberta. Não acredito em fofoca. Acredito em uma mudança absoluta. Posso estar enganado, mas, de tudo que eu conheço disso, a mudança é absolutamente técnica. Até porque o Marcelo já tem muitos anos. Chegou a hora. O perfil já está mudando.

Na implosão do Clube dos 13 em 2011, você foi o último a acertar com a Globo. A liga está aberta a vender os direitos de transmissão para outras emissoras?

Está. Para qualquer uma. Vai vender para quem pagar melhor.

Vocês estão negociando individualmente ou coletivamente?

Ninguém pode negociar individualmente. Eu que faço a negociação. Está no estatuto da liga. Senão, voltamos àquele samba do crioulo doido.

Qual você diria que é o principal objetivo da liga?

Arrecadação. Dinheiro. Em um futuro muito próximo, a liga dará muito dinheiro para os clubes. O único objetivo é organizar e vender bem o futebol. Podem falar “desmanchem a liga e você vai levar tanto”.  Pode ser qualquer um, CBF, federação. Não tem cabimento os clubes de futebol serem mandados por alguém. No mundo inteiro, quem manda são os clubes. Não vamos inventar a roda. Se você contar em qualquer lugar do mundo que a federação carioca tem mais voz que Flamengo e Fluminense, vão gargalhar.