A Copa do Mundo acabou no dia 7 de julho, com o quarto título dos Estados Unidos e uma visibilidade que jamais teve antes. O nível de jogo foi muito elogiado, o que talvez tenha a ver com o fato de a modalidade não ser tão assistida. Carolina Morace, ex-jogadora, técnica e comentarista da Sky Sport na Copa do Mundo, não gostou tanto do que viu. “Muitos times decepcionaram, como Austrália e Brasil”, disse a italiana, em entrevista exclusiva à Trivela. “O Brasil tem jogadoras fantásticas, mas decepcionou”.

Não dá para discordar dela. A entrega das jogadoras foi algo fantástico de se ver, mas a seleção brasileira ficou bem longe de apresentar um futebol realmente interessante, que pudesse estar no nível das principais seleções do mundo.

Morace não é uma pessoa qualquer a analisar. Ex-jogadora, técnica, comentarista, instrutora e embaixadora da Fifa, ela tem uma grande representatividade no mundo do futebol. E, por isso, é importante ouvir o que um nome que tem tanta repercussão no futebol europeu e mundial tem a dizer.

Artilheira como jogadora

Carolina Morace como jogadora da Itália, em 1991 (Getty Images)

Carolina Morace, 55 anos, é um nome de muito prestígio no futebol europeu. Ex-jogadora, é a única até hoje a ter marcado quatro gols em um só jogo no estádio de Wembley, contra a Inglaterra, no dia 18 de agosto de 1990. Jogou pela seleção italiana desde os 14 anos até os 35.

Foi capitã da Azzura e fez 153 jogos, com 105 gols. Foi a primeira a marcar um hat-trick em uma Copa do Mundo da Fifa, na China, em 1991. Conquistou 12 títulos de Serie A e jogou por diversos times, entre eles Lazio e Milan. Foi 13 vezes artilheira da Serie A, com mais de 550 gols marcados como profissional.

Trabalho badalado no Canadá

Encerrou a carreira de atleta em 1998, aos 34 anos. Se formou em uma das escolas de treinadores de maior prestígio no mundo, a Scuola Allenatori di Coverciano. Morace tem a licença Pro, a mais alta da Uefa, e é uma das três mulheres com essa licença que se formaram pela escola. Entre os nomes de maior prestígio formados por Coverciano estão Carlo Ancelotti e Antonio Conte, além do técnico da seleção italiana, Roberto Mancini.

Com 20 anos de experiência como técnicas, tem duas passagens de destaque por seleções. No comando da Itália, de 2000 a 2005, levou a equipe a duas Eurocopas, em 2001 e 2005. Pelo Canadá, subiu o patamar do time com a conquista de quatro torneios.

Carolina Morace treinando a seleção do Canadá, em 2011 (Getty Images)

“Nós conquistamos a Concacaf [A Copa Ouro Feminina] em 2010, fomos para os Jogos Olímpicos, os Estados Unidos tiveram que buscar uma vaga na repescagem pela primeira vez”, conta Morace, que levou o time à Copa do Mundo como campeão da Concacaf naquela edição.

Naquela campanha, o Canadá passou pela fase de grupos com facilidade, com três vitórias em três jogos, e avançou às semifinais. Venceu sem problemas a Costa Rica, 4 a 0, e se classificou para a final. Os Estados Unidos perderam para o México na semifinal.

Com isso, foram para a disputa do terceiro lugar e venceram a Costa Rica. Só que isso ainda não classificou as americanas. Foi preciso jogar a repescagem mundial contra a vencedora da repescagem europeia, Itália. As americanas venceram duas vezes por 1 a 0 e garantiram, assim, a sua participação na Copa do Mundo de 2011.

“Em 2011 eu dirigi a seleção do Canadá na Copa do Mundo e nós mantivemos um desempenho físico que foi destaque em relatório da Fifa”, conta a treinadora. “No relatório de desempenho da Fifa, o nosso time foi o melhor do mundo, melhor que Estados Unidos, Alemanha. Nós corremos mais e mais rápido do que todos os outros times”.

A principal jogadora do Canadá, a centroavante e capitã Christine Sinclair, quebrou o nariz no primeiro jogo da Copa. O time não conseguiu as vitórias, apesar do bom desempenho. Com três derrotas em três jogos, acabou eliminado precocemente no torneio. Mesmo assim, o primeiro relatório físico da Fifa feito para Copa do Mundo Feminina acabou destacando as canadenses.

O relatório destaca o desempenho físico do Canadá, que teve os melhores índices físicos do torneio, sendo o time que cobriu uma distância maior em alta velocidade em comparação com os demais times. Tinha a ver com o estilo de jogo, muito veloz, de passes curtos e pressão alta. O trabalho poderia continuar, mas Morace pediu demissão, de forma surpreendente, no dia 22 de julho de 2011, depois de discussões com a federação em relação ao orçamento que a seleção teria. Quando ela chegou ao Canadá, o time estava em 11º no ranking e ela deixou a seleção canadense com o time em 6º no mundo.

Em 2011, se tornou instrutora da Fifa, liderando o curso de formação de treinadoras da Fifa. A Fifa reconheceu Carolina Morace como uma das suas lendas, em um grupo reconhecido em 2016, um grupo que é reunido para discutir e ser ouvido pela entidade. Em 2017, Morace passou a fazer parte do Painel Consultivo de Futebol da International Football Association Board (IFAB), a entidade que designa as regras do jogo.

Primeira técnica do Milan

Carolina Morace foi escolhida como primeira técnica do time feminino do Milan (Getty Images)

Na última temporada, 2018/19, Carolina Morace foi escolhida como a primeira técnica da história do time feminino do Milan. Ela foi treinadora da volante brasileira Thaísa, titular na Copa do Mundo e autora de um gol no jogo contra a França, nas oitavas de final. “Foi uma grande experiência. O Milan era um time novo, nós montamos. Fomos o único time que a Juventus [campeã da Serie A] não venceu”, conta a treinadora.

O Milan terminou a temporada em terceiro na tabela, com 19 jogos, 14 vitórias, três empates e duas derrotas. Foram 45 pontos, um a menos que a segunda colocada, Fiorentina, e cinco a menos que a campeã Juventus. Teve a artilheira da liga, Valentina Giacinti, jogadora também da seleção italiana, com 18 gols. A segunda artilheira da liga foi outra jogadora do Milan: Daniela Sabatino, com 15. Só depois veio Barbara Bonansea, estrela da seleção italiana, com 13 gols.

Copa do Mundo

Jogadoras da Noruega comemoram (Getty Images)

“Eu não vi muitas grandes partidas na Copa, para ser sincera. Fiquei um pouco decepcionada com algumas seleções. Times como a França, a Alemanha e até a Holanda jogaram menos do que eu esperava”, analisou a técnica italiana, que comentou o Mundial pela Sky, uma das principais emissoras da Itália, que transmite também o Campeonato Italiano.

A Itália foi uma das boas surpresas, terminando em primeiro no Grupo C, que também tinha o Brasil. Venceu a China nas oitavas de final, com alguma tranquilidade, mas depois acabou eliminada pela Holanda, nas quartas de final. Para a treinadora, foi quando o time teve o seu pior jogo.

“Até o jogo contra a Holanda, eu gostei da Itália. No jogo contra a Holanda, improvisou muitas jogadoras e não conseguiu jogar bem”, avaliou a experiente técnica, que ainda falou sobre outras seleções. “Eu gostei muito da Noruega, porque elas foram muito organizadas. Muitos times decepcionaram, como Austrália e Brasil. O Brasil tem jogadoras fantásticas, mas decepcionou”, disse. A avaliação da treinadora vem justamente porque considera que há um enorme potencial na seleção brasileira, que não é devidamente aproveitado.

“Brasil tem que jogar com posse de bola”

Cristiane, do Brasil (Getty Images)

Perguntamos à treinadora como ela acredita que o Brasil tem que jogar. “Brasil tem que jogar um jogo de posse de bola, com certeza. O Brasil pode jogar como o Barcelona, ou como o Brasil mesmo. Não se trata apenas de criatividade. Sem organização, a criatividade não aparece”, disse Morace, que valorizou muito a luta que as jogadoras brasileiras mostraram. “Eu acho que elas têm uma grande personalidade, Marta estava defendendo até a sua área. Elas sacrificaram-se muito, isso é positivo. Elas querem vencer. Mas é preciso ter organização defensiva”.

Perguntamos sobre Andressa Alves, que irá jogar no futebol italiano na temporada, e sobre quem ela acha que se destacou no time brasileiro. “Andressa Alves foi muito bem na Copa do Mundo, assim como Debinha. A Roma é um grande lugar para jogar, é uma grande contratação para a Roma também. A Roma é treinada pela minha antiga assistente técnica, que pensa futebol de forma parecida comigo”.

A assistente é Elisabetta Bavagnoli, também ex-jogadora, que tem 55 anos. Jogou no final dos anos 70 até o final dos anos 90, defendendo a seleção italiana de 1986 a 1997. Foi assistente de Carolina Morace na seleção italiana, de 2000 a 2003. As duas voltaram a trabalhar juntas na seleção do Canadá, quando Bavagnoli foi assistente de Morace de 2009 a 2011. É com ela que Andressa Alves irá trabalhar nesta próxima temporada.

“Brasil é o meu time preferido”

Marta comemora (Getty Images)

No dia 10 de julho, a jornalista Gabriela Moreira, no Globoesporte.com, informou que a CBF estuda o nome da técnica sueca Pia Soundhage para o lugar de Vadão como treinadora da seleção brasileira. A sueca, de 59 anos, tem como principal destaque o seu trabalho na seleção dos Estados Unidos, de 2008 a 2012. Conquistou duas medalhas de ouro em Olimpíadas (2008 e 2012) e acabou sendo vice-campeã na Copa do Mundo de 2011, tendo iniciado o ciclo vencedor das americanas, mas sem conseguir o título mundial.

De 2012 a 2017, ela treinou a seleção da Suécia e, atualmente, treina a seleção sueca sub-17. Em 2016, a treinadora enfrentou o Brasil duas vezes pela Suécia. Tomou uma goleada por 5 a 0 na primeira fase, mas eliminou as brasileiras na semifinal, com um time montado na defesa, o que gerou muitas críticas das americanas depois do duelo entre os dois países nas quartas de final. A goleira Hope Solo chegou a chamar as suecas de “covardes”.

Perguntada sobre o assunto, a técnica italiana disse não ver com bons olhos a contratação da sueca para a seleção brasileira, até por uma questão de estilo de jogo. “A Suécia joga de um jeito completamente diferente do Brasil, são modos muito diferentes de ver o futebol”, afirmou Morace.

“Há muitos anos eu digo a amigos meus que o Brasil é o meu time preferido. As jogadoras são ousadas. Elas são a combinação perfeita de talento, força e vontade. E elas não têm a arrogância dos Estados Unidos, por isso eu gosto muito. Falo isso há anos por aqui”, contou Morace. Ela ainda elogiou algumas jogadoras individualmente.

A seleção brasileira enfrentou a Itália no terceiro jogo da fase de grupos. As italianas tinham a vantagem, já estavam classificadas. As brasileiras venceram o jogo por 1 a 0, o que foi insuficiente para ficar além do terceiro lugar na chave, o que colocou o time no caminho da França nas oitavas de final.

Apesar da vitória do Brasil, Morace avalia que a Seleção não foi tão bem contra a Itália. “O Brasil não dominou o jogo contra a Itália, mas ganhou porque as jogadoras são melhores. A Itália mostrou muito mais organização”, disse a treinadora sobre a partida.

“Na minha opinião, o Brasil é um dos melhores times do mundo, tem talento, tem raça, tem uma vontade de vencer muito grande”, afirmou Morace. Perguntamos à treinadora o que ela faria, se fosse a técnica do Brasil e ela fez uma revelação: “Eu tenho o sonho de treinar a seleção brasileira”.

Carolina Morace quando foi escolhida para o Hall da Fama da Itália, em 2015 (Getty Images)

“O estilo de futebol italiano é muito mais próximo do Brasil do que a Suécia, que joga de forma completamente diferente. Eu gosto de um futebol ofensivo, marcação alta, pressão, e acho que é algo que o time brasileiro poderia ter e potencializaria o talento que já possuem”, continuou a renomada treinadora italiana.

Depois da eliminação do Brasil na Copa do Mundo, a CBF ainda não se pronunciou sobre a sequência do trabalho do técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, e do coordenador de futebol Marco Aurélio Cunha. O jogo contra a França foi no dia 23 de junho, há quase um mês, e nada foi definido. Ao menos oficialmente.

Uma das grandes discussões no futebol feminino é justamente qual será o destino dado à seleção brasileira, porque em 2020, em menos de um ano, o time tem a Olimpíada de Tóquio para disputar, segundo torneio mais importante da modalidade. As críticas a Vadão já eram grandes antes da Copa e o desempenho na competição francesa mostrou pouco que pudesse ser positivo sobre o trabalho do treinador.

A entrega das jogadoras foi muito grande, mas faltou mostrar ideias de jogo que pudessem aproveitar melhor as jogadoras que tinha em campo. Mais do que isso, faltou também uma convocação mais equilibrada, o que fez falta quando o time teve desfalques, como a de Formiga.

Quando um nome tão importante quanto Carolina Morace fala sobre o Brasil e a seleção brasileira, é uma voz que deveria ser ouvida. Não foi a primeira e nem será a última a dizer que o Brasil tem um potencial que não é aproveitado. Resta saber o que os dirigentes pretendem fazer em relação a isso. Porque já não é de hoje que o talento não resolve os jogos.

O olhar sobre o futebol feminino precisa ser amplo, com alguém que conheça a modalidade e pense também nas categorias de base, preparação física e trabalhos técnicos e táticos para a equipe. Vale lembrar que o time sub-20 está sem técnico há mais de um ano.

Uma das perguntas que fizemos a Carolina Morace é se o futebol feminino ficou melhor atualmente para as jogadoras e técnicas. Sem meias palavras, a treinadora foi sincera. “Para as jogadoras, sim, com certeza, e para os técnicos homens, que fracassaram nos times masculinos, também… Para as mulheres técnicas, ainda veremos”. O recado está dado.

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