Pessoas são complexas. Pessoas pensam de forma diferente. Pessoas agem de formas diferentes. Pessoas têm sentimentos, nobres e ignóbeis. Pessoas têm expectativas e ambições diante das coisas que as cercam. Pessoas não são uma massa amorfa que pode ser controlada ou contida como água em represa ou plantas em um vaso. As autoridades brasileiras, em todos os níveis, não entendem isso. Continuam tratando pessoas como se trata gado, construindo barreiras e colocando um capataz para orientar onde todo rebanho deve ir. E o mais recente caso de proibição de torcida visitante em clássico só reforça isso.

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A medida não é nova. Já ocorreu em Minas Gerais para alguns Cruzeiro x Atlético e esteve perto de se repetir em Porto Alegre nos Gre-Nais do último Brasileirão. Em todos esses casos, as brigas entre torcidas eram tratadas como algo inevitável. Afinal, para as cabeças mandantes do Brasil, povo é bicho, é um animal selvagem, que necessariamente buscará a matança como predadores na savana.

Extrapolando os limites do futebol, são as mesmas cabeças que acham que segurança pública se faz tirando gente das ruas, encastelando todos em suas casas e deixando as cidades mais vazias que no filme “Eu Sou a Lenda”. Praças onde as pessoas podem se encontrar são vistas como estorvos, só servem para atrapalhar a construção de mais um condomínio. Vida em comunidade, para eles, é trocar mensagens no Facebook. Lazer de fim de semana é enviar memes para os amigos. Xavecar é dar um like no perfil de alguém no Tinder.

E quando as pessoas insistem em ir para a rua? Basta ver as reações violentas às primeiras manifestações que ocorreram no Brasil nos últimos tempos. É muita gente agindo como pessoas agem, e dá uma preguiça danada entender o que aquele povo todo quer. Mas a tentativa de contenção foi fracassada, e o povo inteiro foi para a rua protestar contra todos os governos brasileiros, e isso não fez das capitais brasileiras lugares piores.

Centro de Nova York em "Eu Sou a Lenda"
Centro de Nova York em “Eu Sou a Lenda”

Aliás, Junho de 2013 é um bom exemplo do como a sociedade funciona. O ser humano é complexo, sobretudo quando age em grupos. É capaz das coisas mais sensacionais, mas também é responsável por atos de enorme estupidez. Atos como o de agredir e até matar outro ser humano por causa da preferência futebolística.

Quem já foi a estádio de futebol, já botou o traseiro na arquibancada e já conversou com torcedores, sabe que aquele ambiente agressivo pode transformar personalidades normalmente pacatas. Sabe também que as brigas têm uma função dentro da dinâmica das organizadas, e é esse ponto que precisa ser atacado. Tanto que apenas nove das 275 mortes relacionadas a futebol no Brasil ocorreram em estádios (ótimo levantamento de Rodrigo Vessoni, no Lance).

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Estudar as organizadas, investigar, acabar com os elementos que dão força a elas e punir quem cometer crime. É preciso entender a complexidade dos indivíduos que fazem parte desses grupos e que atitudes teriam reais efeitos sobre eles. Depois, cria planos com meses de antecipação, já prevendo que atitudes serão adotadas para cada estádio, para cada clássico.

Por exemplo, em duas semanas teremos Corinthians x São Paulo em Itaquera. Se Ministério Público, Polícia Militar, Federação Paulista e clubes só fizeram o plano de segurança para Palmeiras x Corinthians quatro dias antes do clássico, como será nesse jogo pela Libertadores? Afinal, será quarta-feira de cinzas e as organizadas podem fazer o esquenta desde a manhã. Esse jogo já deveria estar todo estudado pelas autoridades desde o sorteio da Libertadores, realizado em 2 de dezembro.

Mas isso tudo dá trabalho. Mais fácil para as autoridades (polícia, poder judiciário, cartolas e até jornalistas, nos níveis municipais, estaduais e federal) continuar tratando torcedor de futebol como rebanho. Vendendo ao público a ideia de que a violência é inevitável, o que serve apenas para criar uma sensação exagerada de medo. E ter uma população amedrontada é a melhor forma de controlá-la, de fazer o desmando que bem entender.

Forçar as pessoas a ficarem em suas casas não mudará nada. Não é um jeito de depurar as torcidas, de criar um ambiente em que o torcedor pacífico prevaleça sobre o violento. É justamente o oposto: aliena o torcedor pacífico do futebol, e entrega o esporte de bandeja aos violentos.

O futebol precisa de gente, as cidades precisam de gente. Gente que conheça e respeite o espaço do outro, gente que interaja, gente que troque experiências, gente que pratique esporte e tire sarro do time do outro. É assim no mundo todo, e qualquer brasileiro mais abastado fica babando com a suposta “civilidade” quando viaja e conhece metrópoles dinâmicas, com pessoas diferentes trocando ideias sem problemas. Elogiam cidades como Nova York, Londres, Paris e até Buenos Aires como se americanos, ingleses, franceses e argentinos fossem menos selvagens que os brasileiros. A diferença muitas vezes está na forma como o poder público trata cada um. Nós tivemos um presidente que dizia preferir o cheiro de cavalo ao do povo.

Enquanto as autoridades continuarem tratando as pessoas (das mais ricas às mais pobres) como se fossem bicho, elas não criarão as condições para que as pessoas ajam de forma mais coletiva e comunitária. Desse modo, impedir que clássicos tenham torcidas do clube visitante não é uma falência do futebol brasileiro. É uma falência do poder público, e como ele continua sem saber o que está sendo gerido.