Kiev deixou lições duríssimas ao Liverpool. Lições que o clube precisava assimilar e trabalhar para resolver. Apenas dois dias após a dolorosa derrota contra o Real Madrid na decisão da Champions League, os Reds anunciaram o seu primeiro reforço: Fabinho. O meio-campista vinha para substituir Emre Can e aumentar o leque de opções ao meio-campo. Um negócio, desde já, interessante à equipe de Jürgen Klopp. Outra solução necessária no mercado demorou a acontecer. Loris Karius ganhou um voto de crédito da comissão técnica, mas sua confiança esmigalhada causou novas preocupações na pré-temporada. Por isso mesmo, a diretoria abriu os cofres e quebrou recordes para trazer Alisson, em forma fantástica com a Roma. Dois brasileiros, dois jogadores em ascensão. Dois personagens centrais no milagre experimentado em Anfield nesta terça-feira, ajudando o Liverpool a dobrar o impossível e colocar o Barcelona no bolso. O inacreditável se tornou real.

Em uma noite de tantos protagonistas, há aqueles que apareceram decisivamente para garantir a goleada necessária. Divock Origi estava iluminado, Georginio Wijnaldum foi monstruoso, Trent Alexander-Arnold transformou sua perspicácia em oportunidades. E em um conjunto que atuou em seu limite, o Liverpool veria seus heróis ascenderem em outras partes do campo. Homens que também possibilitaram a vitória.

O meio-campo, em especial, foi o principal setor do Liverpool na partida. Os Reds quebraram o Barcelona pela maneira como controlaram a faixa central e impuseram sua ferocidade na marcação. Um trabalho que dependeu do esforço coletivo, claro. Oito jogadores diferentes se encarregaram dos 16 desarmes realizados pela equipe de Jürgen Klopp. E, dentro deste empenho, Fabinho virou um motor na cabeça de área inglesa. Um multi-homem que combinou eficiência e energia para impulsionar o time.

Fabinho comemora o primeiro gol do Liverpool (Clive Brunskill/Getty Images))

Fabinho teve momentos difíceis em Anfield. Não se encontrou nos primeiros jogos, ficou afastado para se adaptar. Todavia, o crescimento do volante é uma das explicações à fase impressionante do Liverpool neste primeiro semestre de 2019. Tornou-se um jogador imprescindível e constante. O dinamismo do camisa 3, seja em qual posição entrar, é um dos esteios aos Reds. A confiança elevada permitiu que o brasileiro fosse utilizado até mesmo como zagueiro. E, além das virtudes técnicas, há um componente mental que deixa o todo-campista em evidência: sua concentração.

Reinventar-se foi algo que Fabinho também fez nesta terça-feira em Anfield. O volante não começou tão bem na partida e tomou um cartão com apenas 11 minutos. Algo para abalar o seu jogo? Não quando a concentração começou a pesar. E não dá para dizer qual processo se desencadeou primeiro, mas à medida que Fabinho dominava a cabeça de área, o Liverpool também se mostrava mais apto à virada, e a própria torcida se inflamava. O ciclo se retroalimentou para um segundo tempo maiúsculo do camisa 3. Era uma das fortalezas dos Reds, principalmente em sua mentalidade.

Ao lado de Jordan Henderson e Georginio Wijnaldum, Fabinho ligou o trator vermelho que demoliu o Barcelona. Viu o próprio Virgil van Dijk se adiantar e se tornar mais um a empurrar o meio-campo. O volante teve uma atuação total, seja pela forma como ajudou a organizar a pressão, seja por sua valentia nos minutos finais, trancando a entrada da área. Desarmava, ganhava pelo alto, aproveitava as sobras. Parecia se multiplicar para fechar os espaços e evitar que um Barcelona em frangalhos arrematasse. Seu lance nos acréscimos, desarmando Messi e desatando ao ataque até sofrer falta, foi simbólico diante do que ocorreu em Anfield. O argentino foi especialmente anulado na reta final. Um triunfo de quem teve mais bola e mais espírito.

E se houve calma para que o Liverpool se agigantasse no segundo tempo, ela só veio graças às defesas de Alisson, mantendo a situação sob controle. Pela forma como os Reds partiram para cima, é difícil dizer que um gol precoce do Barcelona abalaria o seu moral. Entretanto, um gol tornaria a missão vermelha bem mais difícil. Ele não saiu pelas essenciais intervenções do camisa 13, sempre muito atento para fechar o ângulo dos adversários e evitar qualquer baque proporcionado pelos blaugranas.

Salah e uma mensagem profética, ao lado de Alisson (Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images)

Alisson é outro a encarar suas provações no Liverpool. E não porque tenha enfrentado fases ruins no clube, mas pelos rótulos que tentam reduzir a sua qualidade. De números impressionantes em seu início, ficou em xeque por um mero erro. Porém, se recuperou para colecionar atuações fantásticas na virada dos turnos na Premier League. Um cara que passa 20 jogos sem sofrer gols na liga, mesmo que possua uma defesa excelente à sua frente, tem os seus inegáveis méritos. Pois, além da regularidade, é necessário a um arqueiro crescer nos grandes momentos. Exatamente o que o brasileiro fez, diante da atmosfera incendiada de Anfield, com a torcida o empurrando.

Messi? Parou em Alisson, espalmando atentamente seu chute, após o gatilho rápido do argentino aos 13 minutos. Philippe Coutinho? Também não seria ele a marcar, com o arqueiro caindo para buscar seu arremate no canto. Jordi Alba? Eis a defesa mais espetacular, saindo nos pés do lateral e evitando o empate antes do intervalo. A vantagem garantida nos 45 minutos finais abria o caminho à remontada. Alisson permitiu que essa crença se preservasse. Depois do que já tinha vivido com a Roma, se tornou um sinônimo de pesadelo ao Barcelona.

Se Luis Suárez esperava igualar na volta ao segundo tempo, outra vez esbarrou no arqueiro, intransponível. Quatro minutos depois, Wijnaldum começou a concretizar o épico. Por fim, no momento em que o Barça ainda tentava evitar o desastre, Alisson espalmou o chute do camisa 10 rente à trave. Nos minutos finais, os próprios blaugranas não foram capazes de ameaças concretas. Sempre que precisou, o camisa 13 saiu da meta e manteve a segurança pelo alto. Foi uma exibição soberana. Impecável.

O Liverpool é mais forte que em 2017/18, não há dúvidas. É um time amadurecido em relação ao que viveu na final da Champions passada, menos dependente das individualidades, mais sólido no conjunto – ainda que as opções careçam em alguns setores vitais. Não à toa, a classificação contra o Barcelona veio sem alguns jogadores-chave, como Mohamed Salah e Roberto Firmino. E que o elenco ainda tenha os seus entraves, é o mesmo que produz campanhas fenomenais na Liga dos Campeões e na Premier League. Com um desejo continental que, ainda mais agora, se fortalece após os 90 minutos inesquecíveis de Anfield. Em um estádio que viveu tantas noites europeias especiais, esta certamente se grava entre as maiores.