Você já imaginou trabalhar com alguém como Marcelo Bielsa? Salim Lamrani teve o privilégio de ser uma das figuras mais próximas do técnico argentino, trabalhando como seu tradutor no Lille e no Leeds. Reduzir o que ele faz a ser como tradutor é até pouco. Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-Americanos pela Universidade Paris-Sorbonne, é ensaísta e já escreveu para diversos jornais, como Le Monde Diplomatique, L ‘Humanité, entre outros. É também escritor com vários livros publicados. Cinco deles são sobre Cuba e as relações internacionais com os Estados Unidos. Foi por causa de um deles que conheceu Bielsa.

“Descobri a figura de Bielsa em 2014, quando foi nomeado treinador do Olympique de Marseille, o que ilustra a minha extrema pobreza da minha cultura futebolística. E o conheci quando ele leu um livro sobre Cuba, que eu havia escrito, e se interessou”, conta Lamrani ao jornal argentino La Nación. Foi por Bielsa que mergulhou em um mundo que não era o seu, do futebol, depois de ser chamado para trabalhar com ele quando o argentino estava no Lille. O acompanhou também no Leeds, quando foi contratado.

“Descobri o ofício de intérprete em 2017 quando trabalhei com ele no Lille. É uma tarefa muito exigente e sinto uma grande admiração pelos intérpretes e tradutores profissionais, porque se que é difícil traduzir fielmente as palavras de outra pessoa. No Lille, a vantagem era que eu traduzia do espanhol para o francês e do francês para o espanhol, usando assim a minha língua materna [francês]. Mas eu havia me preparado antes e havia visto e traduzido todas as coletivas de imprensa que deu durante os anos que esteve no Athletic Bilbao. Cheguei a Lille com uma lista do vocabulário do futebol que ele costumava usar e que eu tinha memorizado”, contou o tradutor.

“Em Leeds, a tarefa era mais complexa: tinha que traduzir do inglês para o espanhol e do espanhol para o inglês, que não são meus idiomas nativos. Mas a experiência na França tinha acostumado o meu cérebro à ginástica intelectual que é necessária na interpretação. Também eu estava mais familiarizado com a forma de pensar de Marcelo. Mas precisei de um tempo de adaptação para refrescar o meu inglês. De fato, cometi vários erros durante as coletivas de imprensa”, revelou ainda Lamrani.

Originário na Ilha de Reunião, território ultramarino francês, trabalha como professor da Universidade de Reunião, além de escrever ensaios para veículos científicos e jornalísticos. Foi o tradutor de Bielsa no primeiro ano do treinador no Leeds. Deixou o posto. “Meu principal ofício é a docência e a pesquisa. O trabalho de tradutor era só um parênteses na minha vida profissional. Sou um professor universitário na Universidade de Reunião e dou aulas de História da América Latina”, contou Lamrani, agora muito longe da Inglaterra, onde viveu ao longo da temporada passada.

O tempo ao lado do técnico argentino deixou uma impressão marcante para Lamrani. “Marcelo Bielsa é um homem que vive pelo futebol, que é o esporte favorito dos mais humildes porque, como disse Pier Paolo Pasolini, permite devolver a dignidade a quem não tem nada. É a sua principal razão de ser. Ele não poderia fazer outra coisa com a mesma paixão, a mesma dedicação, o mesmo empenho, o mesmo entusiasmo”, descreveu o professor.

“É antes de tudo um amante do jogo ofensivo e está convencido que os torcedores têm direito à beleza e merecem algo mais que os resultados. Não se pode subestimar a capacidade que o futebol tem de ser vetor de coesão social ao nível de uma cidade ou de uma região e transmitir valores tais como espírito de sacrifício, a abnegação, a solidariedade com o companheiro que está enfrentando uma dificuldade, a generosidade em seu esforço, a lealdade na competição”, continuou o agora ex-tradutor de Bielsa.

Marcelo Bielsa (centro) com Salim Lamrani (esq.) e

“Transmite a sua convicção de que é possível vencer a qualquer rival e depois dos seus passos sempre há emoções indeléveis. Todo amante da beleza aprecia o futebol que propõe Marcelo Bielsa. Os torcedores do Leeds United vão para o Elland Road por seu amor indefectível pela camisa, mas também porque se identificam com o futebol do seu treinador que enfrenta a todos os rivais sem nenhum complexo”, afirmou ainda Lamrani.

“Marcelo Bielsa não está disposto a sacrificar seu estilo de jogo baseado no ataque, a pressão constante, o jogo associado, os movimentos explosivos e a expressão coletiva e solidária da equipe, em vez do dogma do resultado. Não se negociam princípios e o jogo bonito é princípio fundador da filosofia futebolista do atual treinador do Leeds United”, detalha o professor universitário.

“Ele é muito exigente no trabalho porque sempre está buscando a excelência e a perfeição. Mas, por definição, os seres humanos são imperfeitos e isso pode gerar por vezes algumas fricções. Ele se entrega cabalmente à sua paixão que é o futebol e espera de quem trabalha com ele o mesmo nível de dedicação. Tem uma obsessão por cada detalha porque é o que marca a diferença nas competições de alto nível. Está convencido que sempre se pode fazer mais e melhor para alcançar o futebol ideal”, definiu o ex-tradutor.

Apesar da proximidade que teve com Bielsa por quase dois anos, ele não conhece a Argentina. Espera fazer isso em breve para uma conferência sobre Cuba e lançar o seu mais recente livro, Marcelo Bielsa no Leeds United. Crônica de uma temporada inesquecível. O livro explora essa temporada que Salim Lamrani passou como tradutor de Bielsa na Inglaterra. “Conta como Marcelo conseguiu uma mudança cultural no espaço de algumas semanas e conseguiu propor um futebol ambicioso e generoso com os jogadores”, descreveu o seu autor. São 11 capítulos, que tratam desde a pré-temporada do time até a derrota nos playoffs para o Derby County.

O livro conta com o prólogo do filho do técnico, Rafael Bielsa, a quem o autor elogia muito. “Rafael é um leitor minucioso, dotado de uma grande cultura. Quando mandei a ele um dos meus livros sobre Cuba, ele leu e me enviou de volta uma resenha de cinco páginas altamente detalhadas”, contou Lamrani.

Um dos pontos criticados na carreira de Bielsa é que ele poucas vezes conquistou títulos. Sua fileira de taças passa ao largo de outros grandes treinadores. Para Salim Lamrani, porém, esse é só um aspecto para se avaliar um treinador. Há outros que precisam ser considerados. “Compartilho da opinião de Pep Guardiola quando disse que a influência que um treinador tem no futebol é ao menos tão importante quanto os títulos”, disse.

“Nesse sentido, é inegável que Marcelo Bielsa marcou a história do esporte mais popular do mundo com sua filosofia e estilo. As grandes figuras do universo futebolístico o citam como exemplo porque suas ideias são fonte de inspiração para muitos”, continuou ainda Lamrani.

“Também um treinador se avalia por sua capacidade de tirar o máximo dos seus jogadores e colocá-los em condições de usar 100% das suas virtudes e aptidões. É inegável que Bielsa tem um poder especial para extrair a qualidade mais pura do seu elenco. Em todos os clubes onde teve tempo de desenvolver o seu trabalho, melhorou os jogadores. E muitos deles foram contratados por grandes clubes depois de estarem sob a sua direção. Todos os jogadores que trabalharam com ele expressaram posteriormente sua gratidão”, disse ainda Lamrani, devidamente convertido em um bielsista.