Ainda lidando com os efeitos da pandemia do coronavírus, os clubes voltaram à atividade. Campeonatos como a Premier League retornaram com diversos protocolos de segurança e higiene, com objetivo de minimizar o contágio. O retorno do futebol foi uma alegria para muitos torcedores, mas a falta de público ainda é algo que incomoda. Sem torcida, os jogos perderam a sua alma, embora os demais elementos estejam lá. Os clubes sentem mais dificuldade em jogar em casa, porque não têm o mesmo apoio da torcida. Além da perda da atmosfera, os clubes perdem também uma parte das suas receitas.

“Sair de um cenário com um estádio lotado para outro com portas fechadas é assustador”, diz o ex-capitão do West Ham, Alvin Martin, em entrevista ao site de apostas Betway. “Toda a atmosfera já não está mais lá, falta a energia contagiante da multidão”. Martin foi campeão da Copa da Inglaterra em 1979/80, diante de mais de 100 mil pessoas no estádio de Wembley.

O zagueiro também fez parte da campanha do West Ham na Recopa do ano seguinte e tem um episódio marcante na carreira. O Castilla FC (antigo nome do Real Madrid Castilla) foi vice-campeão da Copa do Rei, perdendo para o Real Madrid na final. Só que os merengues venceram o Campeonato Espanhol, o que deu ao Castilla classificação à Recopa. Foram sorteados para enfrentar o West Ham na primeira fase.

O duelo foi bastante movimentado. O Castilla FC venceu por 3 a 1 em Madri, no jogo de ida, e o West Ham foi punido pelo comportamento dos seus torcedores. Com isso, teve que jogar a partida de volta com os portões fechados. E com a missão de reverter uma situação difícil de dois gols de diferença em favor dos espanhóis.

“Você podia ouvir cada palavra que estava sendo dita”, contou Martin. “Chegamos até a receber uma visita no vestiário, durante nossa conversa com John Lyall no intervalo”, continuou. “Era um dos diretores que foi enviado para perguntar se poderíamos falar menos palavrões”.

Mesmo sem torcida, o West Ham conseguiu uma vitória por 5 a 1, 6 a 4 no placar agregado, e se classificou. O time iria até as quartas de final daquele torneio, caindo em duelo com o Dinamo Tbilisi, da União Soviética, ao perder por 4 a 1 no Boleyn Ground e vencer por 1 a 0 fora.

O som gerado pelos torcedores nos estádios (Betway)

Jogar com o Boleyn Ground lotado foi algo que Martin se acostumou ao longo da sua carreira. Foram 596 jogos pelos Hammers em 18 anos de clube. Fez também 17 jogos pela seleção inglesa. “No West Ham, os torcedores criam uma atmosfera espetacular”, afirmou. “É para eles que você joga. Quando eles vão ao estádio, eles preparam todo esse cenário para você. Eles melhoram o clima do jogo e o valor dele. Você sabe que se estiver jogando na frente de 30 ou 40 mil pessoas, estará fazendo algo importante”.

“Essa energia te ajuda a dar 5 ou 10% a mais de você, e isso, você não consegue durante um treinamento”, diz Martin. “Eles te deixam nervoso, o que eu considero muito saudável para um atleta. Quando você está nervoso, é quando você dá o seu melhor. Se você entrar em uma disputa e houver uma multidão gritando e torcendo para que você ganhe, acho que isso, inevitavelmente, te dá mais garra. Da mesma forma, quando a torcida comemora e vibra um gol, isso te motiva ainda mais”.

Há um evidente reforço psicológico nos jogadores ao verem o estádio cheio e ouvirem o apoio dos torcedores. Tanto que alguns jogadores conseguem superar adversidades mais facilmente assim. Inclusive para lidar com algo muito constante na vida do atleta profissional: a dor.

“Eu me lembro de uma vez com Harry Redknapp, que eu sofri três lesões rapidamente uma atrás da outra”, conta o ex-jogador. “Por duas ou três semanas, eu joguei com um cotovelo fraturado, mão fraturada e um corte feio na cabeça. Um dia, durante o aquecimento no Boleyn, eu pensei: não vou conseguir jogar, estou com muita dor. Mas assim que a campainha do vestiário tocou, eu sabia que estava na hora de entrar em campo e isso me deu um pico de adrenalina”.

Reforço nas arquibancadas e nas finanças

A renda gerada por torcedores na Premier League (Betway)

A Premier League é conhecida por ter altas taxas de ocupação nos estádios, sempre acima de 90%. As receitas de dia de jogo são de £667 milhões, que representa 13% do faturamento dos clubes da Premier League, em média. Pode não ser a maior parte do faturamento, mas definitivamente não é algo irrelevante.

Sem as receitas de bilheteria e dos dias de jogos, os clubes voltaram a campo para, ao menos, salvar as receitas de TV com a liga chegando ao seu final. Mas sem uma perspectiva de quando será possível ter grandes multidões novamente no estádio, já que depende de uma vacina eficiente e universalmente distribuída, os clubes precisam repensar o que fazer para compensar as perdas.

“Eles vão tentar recuperar isso de alguma forma”, diz Kieran Maguire, especialista em finanças de futebol e que leciona na Universidade de Liverpool. “Acho que o futebol pode ter que reinventar sua relação com os torcedores, melhorando a capacidade de lhes proporcionar experiências. Os clubes que tiverem uma boa comunicação com seus torcedores terão sucesso e irão trabalhar duro para interagir com eles. A indústria é grande, mas precisa inovar”.

“Os clubes têm custos fixos tão altos que terão que pensar em alternativas para reduzir esses custos. O retorno a alguma forma de ação ao vivo é essencial. Não estou tentando ser sensacionalista”.

Sem torcida, os jogos parecem vazios não só nas arquibancadas, mas de alma e de sentido. Este, porém, é o único modo que a indústria encontrou de voltar. A presença da torcida, de alguma forma, é o que dá alguma vida ao jogo. O ex-jogador Martin lembra que sem os torcedores, o futebol jamais seria do tamanho que é atualmente.

“Se você pensar bem, os jogos não existiriam há centenas de anos se as pessoas não gostassem de ir aos estádios”, afirmou o ex-jogador. “A comunidade e os torcedores apaixonados por seus clubes não existiriam. Esse é o poder que uma torcida pode ter”.