É uma opinião comum que, com o passar dos anos, Lionel Messi se tornará mais um armador do que um atacante insinuante. A perda natural de velocidade e potência fará com que atue mais recuado, como um camisa 10, armando as jogadas e eventualmente entrando na área para finalizar.  Na opinião de Domènec Torrent, assistente de Pep Guardiola durante 11 anos e ex-treinador do New York City, o argentino de 32 anos, se quiser, pode atuar até mesmo mais para trás, como meia central, como fazia Xavi Hernández, ditando o ritmo da equipe.

“É um jogador muito inteligente. Muitas vezes vem receber a bola mais para trás. Em alguns anos, pode jogar de Xavi se quiser.  Não perde a bola, dá assistências, cuidou bem do físico ao longo da carreira. Se recuar quando começar a perder velocidade, pode jogar de meia central ou onde quiser e o fará bem”, disse, em entrevista ao Olé.

Torrent lembrou a primeira vez que viu Messi jogar, ainda com 15 anos, pelo Barça C, enfrentando marmanjos com o dobro da sua idade. “Leo era impressionante. No começo, aproveitava suas qualidades individuais, mas cada vez mais foi se tornando jogador coletivo. Se o observa hoje, pode passar 70 minutos caminhando, mas, quando arranca, é jogada de gol. É tão inteligente que, dependendo do jogador que tem a bola, ele sabe o que precisa fazer. Com 15anos, era espetacular. Com 18 também, mas talvez fosse muito individual. Foi mudando com os anos. Agora, lê o jogo como ninguém. No Barcelona de Guardiola, estava rodeado (de bons jogadores), mas todos sabiam muito bem para quem dar a bola para que desequilibrasse”, disse.

“Para mim, Leo é único. Não creio que voltarei a ver coisa parecida na minha vida. Além disso, está há 15 anos em alto nível. No dia em que não está bem ainda é o melhor. Uma partida ruim de Leo são duas assistências e duas jogadas de gol. Eu vi enormes jogadores, mas ninguém se mantendo 15 anos na elite como ele vem fazendo”, completou.

Naturalmente, Torrent também comentou sobre o seu antigo chefe, o qual acompanhou em Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City. Confirmou que seu segredo não é bem um segredo porque envolve características conhecidas por quase todos: a atenção aos detalhes e a insaciável vontade de vencer. Deu o exemplo do ano em que o Barcelona conquistou seis títulos – 2009 – e, enquanto todos comemoravam, Guardiola preparava um amistoso contra um combinado do Kuwait.

“Havíamos acabado de vencer o Estudiantes no Mundial de Clubes e tínhamos um jogo amistoso no Kuwait contra um combinado daquele país. Todos estavam comemorando, menos Pep. Ele estava buscando informações dos jogadores que enfrentaríamos. Sim! O Kuwait! Amistoso! É assim que ele vive o futebol. Pep é um gênio. Para ele, cada detalhe é muito importante. Ele está sempre pensando em como melhorar o time. Ganha uma partida e se coloca a pensar na seguinte, em como ataca e defende o adversário, por onde pode causar danos. Não importa se enfrenta o Real Madrid ou um time da terceira divisão na Copa do Rei”, contou.

Questionado sobre as inovações táticas de Guardiola, Torrent elegeu a sua favorita: Philipp Lahm jogando por dentro no Bayern de Munique. “Acho que foi algo inovador. Se você ataca e coloca seus laterais bem abertos, na Alemanha eles te matam com contra-ataques com os pontas mais fechados. Isso é algo que Pep detectou assim que chegou ao Bayern. E Lahm se destacava com sua precisão pro como lia o jogo. Então, decidiu colocá-lo por dentro e não por fora”, disse.

“Além disso, saindo jogando, o lateral fechava e o ponta adversário o perseguia, então seu defensor central tinha uma linha direta de passe ao ponta por aquele lado. Se o ponta adversário não perseguisse para dentro, havia uma linha de passe para o seu lateral fechado. Tudo se trata de encontrar espaços e superioridade”, encerrou.

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