Aos 38 anos, Patrice Evra se despediu da carreira de jogador. Nesta segunda-feira, o defensor confirmou que se aposentou dos gramados e passará a trabalhar para se tornar treinador. O francês estava sem clube desde a sua passagem pelo West Ham, no primeiro semestre de 2018, e não tinha grandes perspectivas de receber uma propostas, após permanecer mais de um ano parado. Assim, põe ponto final a uma trajetória que, independentemente da queda de desempenho nos últimos tempos, o coloca entre os melhores laterais esquerdos de sua geração.

Nascido em Dacar, filho de um guineano e de uma cabo-verdiana, Evra mudou-se à Europa quando tinha um ano. Seu pai trabalhava como diplomata e, depois de uma breve estadia na Bélgica, estabeleceu a família de 25 filhos na França. Atacante de origem, Evra começou atuando em pequenos clubes locais. Reprovado em testes para equipes maiores, viu as portas se abrirem em um torneio de futsal, que garantiu um teste no Torino e a posterior admissão à base grená. Porém, preferiu virar profissional na terceira divisão, pelo Marsala. Aos 17 anos, realizava um sonho de viver do futebol, mesmo que não fosse em um grande centro.

A carreira de Evra decolou a partir de então. Destaque do Marsala, teve uma passagem frustrada pelo Monza, até se juntar ao Nice em 2000. O clube, então na segundona francesa, foi importante não apenas para terminar de lapidar a promessa. Evra passou um tempo no segundo quadro, antes de ser efetivado no primeiro time. E então, diante de uma situação emergencial, o ponta precisou ser deslocado à lateral esquerda. Mesmo preferindo jogar mais à frente, por lá o jovem ficou, ganhando o posto de titular. Ajudou o acesso do time à elite e ainda foi eleito o melhor da posição na Ligue 2.

O sucesso com o Nice levou Evra ao maior rival, o Monaco. No principado, o defensor realmente estourou. Ainda desejava atuar na ponta, mas terminou convencido por Didier Deschamps que somente na lateral teria chances de se firmar. Virou uma arma importante do time que chegou à decisão da Champions League e, aos 23 anos, se consolidou como um dos maiores talentos da posição. Dono de enorme potencial físico e de capacidade no apoio, o jovem ganhou suas primeiras convocações à seleção francesa.

As ofertas por Evra não demoraram a aparecer. O lateral decidiu deixar o Monaco no meio da temporada 2005/06 e assinou com o Manchester United em dezembro daquele ano. O começo não foi promissor. Muito pelo contrário, o jovem teve uma péssima estreia contra o Manchester City, ao sair do banco de reservas. Com o passar dos meses, não conseguia superar a concorrência de Mickaël Silvestre, preferido tanto nos Red Devils quanto na seleção. Entretanto, a falta de sequência motivou o lateral a dar sua volta por cima depois da ausência na Copa de 2006. Transformou-se em destaque no clube e na equipe nacional. O ápice veio em 2008, quando conquistou a Champions com o United, além de defender os Bleus na Eurocopa.

Sir Alex Ferguson teve um grande papel na evolução de Evra, ao também fomentar a liderança do francês. O jogador era visto como um “líder natural” pelo técnico e também tinha ótimo trânsito com os companheiros, auxiliando na relação dentro dos vestiários. Neste ponto, o passado multicultural também falou mais alto. O fato de dominar cinco idiomas (francês, inglês, português, italiano e espanhol) ajudava o lateral a assumir esse posto como porta-voz e mesmo de se tornar um grande amigo à maioria dos atletas dos Red Devils. Não à toa, se tornaria um dos capitães na metade final de sua passagem por Manchester.

Evra permaneceu como uma peça essencial em Old Trafford durante aqueles anos. A excelente forma o colocava entre os destaques do time em diferentes conquistas, ainda que seu nome estivesse envolvido em controvérsias – seja por culpa sua, como na briga contra um funcionário do Chelsea em 2008, ou seja como vítima, no episódio de racismo com Luis Suárez. Chegou também a ser excluído da seleção na Copa de 2010, em meio à série de tumultos envolvendo os Bleus na África do Sul. Fato é que, em campo, o futebol do defensor falava por si. O jogador prevalecia acima da personalidade.

Já acima dos 30 anos, Evra começou a dar sinais de declínio no Manchester United em meados da década, mas ainda assim parecia um bom negócio à Juventus quando se mudou para Turim em 2014. Não se tornou titular absoluto, também por causa das lesões mais frequentes, mas teve os seus momentos com os bianconeri. Ergueu mais taças e disputou uma final de Champions. Já pela seleção, depois da Copa de 2014, desempenhou um papel de referência na caminhada até a final da Euro 2016. Aquela seria a sua última competição com os Bleus, antes de se dedicar apenas aos clubes.

Na Juventus, Evra reforçou sua imagem mais como personagem do que como jogador, até pelo uso das redes sociais – não menos controverso, incluindo acusações de homofobia em discurso contra o PSG. E sua despedida dos bianconeri, em janeiro de 2017, praticamente marcou o fim de sua relevância nos gramados. De volta à França, não deixou muitas saudades no Olympique de Marseille, especialmente após agredir um torcedor que o provocava, em episódio que marcou sua saída do clube. Já em 2018, ganhou uma nova chance no West Ham, onde mal entrou em campo. O final da carreira precisava apenas de uma confirmação. O que aconteceu nesta segunda-feira, sem causar grandes surpresas.

“Minha carreira como jogador está oficialmente encerrada. Eu comecei meu curso para a licença B da Uefa em 2013. Agora quero terminar isso e então fazer o curso para a licença A. Estarei pronto para dirigir um time dentro de 18 meses. Todos os técnicos com os quais trabalhei contribuíram muito para a minha carreira, mas de maneiras diferentes”, declarou Evra, em entrevista à Gazzetta dello Sport. Agora, é ver como a personalidade do veterano poderá impulsionar sua nova empreitada. O caminho para vencer ele conheceu muitíssimo bem ao longo desses mais de 20 anos de carreira profissional.