A Copa América já comprovara o prazer que Everton sente nos jogos grandes. O tamanho do desafio e o peso da ocasião não parecem incomodar o atacante. Quando a Seleção era vaiada e precisava de um toque diferente, o ponta transformou a percepção ao redor do time. Ao longo da competição internacional, porém, ele teve os ventos a seu favor. Não foi o que ocorreu com o Grêmio no Pacaembu. A situação complicada que se desenhou desde Porto Alegre ficou ainda pior quando o Palmeiras abriu o placar. Foi então que, em nível de pressão, o craque tricolor viveu a grande exibição de sua carreira. Se os gremistas até então pareciam perdidos, Cebolinha se colocou como solução. Tomou as rédeas, agrediu, decidiu. E seguiu como termômetro da equipe, arrancando a gigantesca classificação. Uma vitória do tamanho de seu futebol.

É justo dizer que Everton tinha sido o principal jogador do Grêmio durante a derrota na Arena. A bola procurava o ponta em diferentes momentos. No entanto, a participação do atacante não significa que ele tenha jogado tão bem. Assim como o restante de sua equipe, o camisa 11 terminou limitado pelo fortíssimo poder de marcação do Palmeiras. Muito tentou, mas pouco conseguiu fazer contra as sólidas linhas alviverdes. Por vezes, até excedeu na confiança. Prendeu a bola demais e não definiu as jogadas da maneira necessária. Os tricolores deixaram uma impressão de impotência, que aumentava as reticências sobre as chances de virada dentro do Pacaembu.

O Grêmio começou o jogo em São Paulo ainda pior. Nervoso demais, errava em demasia e mal conseguia se impor no campo de ataque. Do outro lado, via um Palmeiras resoluto a garantir a classificação e que colocou o pé na semifinal no momento em que Luiz Adriano abriu o placar. Os tricolores precisavam reagir rapidamente. Dependiam de alguém que apresentasse essa clareza nas ideias, mesmo com a visão embaçada pela pancada na cabeça. Everton foi este cara, ao lado de Alisson. Os dois encontraram os atalhos em campo para ressuscitar os gremistas na Libertadores.

O Palmeiras cochilou no excesso de segurança. O apagão de quatro minutos se tornou fatal contra um jogador tão ligado quanto Everton. Em alta voltagem, o atacante acreditou até o fim após a cobrança de falta na intermediária realizada por Alisson. Nem é o mais alto, mas fez a leitura perfeita do cruzamento ao passar às costas dos defensores, para emendar o chute de primeira. Um sem-pulo espírita que surpreendeu Weverton e recolocou o Grêmio no confronto. Se anotar dois gols parecia uma tarefa hercúlea enquanto Luiz Adriano comemorava, o Cebolinha pegou um atalho com aquele tento. Qualquer vitória já bastaria aos gaúchos.

E o mais interessante foi notar a postura de Everton logo após a jogada decisiva. Ele não se desconcentrou. Mal comemorou o gol, limitando-se a cumprimentar os companheiros. Preferiu pegar a bola nas redes e correr de volta ao meio do campo. Quem se abalou com o tento foi o Palmeiras. E sentiria o terremoto de maneira mais profunda quando, quatro minutos depois, o Cebolinha decidiu entortar a coluna de quem ousasse aparecer à sua frente. Se há uma tendência dos tricolores em afunilarem suas jogadas, desta vez encontraram uma avenida na desprotegida faixa central. O atacante é daqueles que fazem um espaço estreito no gramado se transformar em latifúndio. Foi assim que a virada nasceu.

Três jogadores do Palmeiras estavam no encalço de Everton quando ele recebeu a bola. Três jogadores do Palmeiras mordiam os seus calcanhares e poderiam tentar roubar a pelota. Só tentar, o que não era garantia de que conseguiriam. De fato, não conseguiram e sequer cometeram a necessária falta, com direito a um corte seco para cima de Thiago Santos. Após escapar do trio de cães de guarda, o Cebolinha ainda viu os dois zagueiros à sua frente. Fugiu de Gustavo Gómez na velocidade e tentou aplicar um drible da vaca em Luan. Não completou porque Weverton já saía em seus pés para abafar. Mas a jogadaça tinha dado certo de qualquer maneira, com Alisson livre para concluir o rebote rumo à meta vazia. O gol, indiretamente, tinha a assinatura do craque.

Everton puniu os erros do Palmeiras e se tornou muito efetivo no momento em que os oponentes fraquejaram atrás. Depois disso, o Grêmio pôde se fechar e contou com outro gigante. Afinal, não há como falar sobre a classificação heroica sem citar a doutrinação de Pedro Geromel no coração da defesa. Enquanto os alviverdes se limitavam aos cruzamentos da intermediária, o capitão se multiplicou para uma nova consagração. E se surgia alguma possibilidade de avançar nos contragolpes, Everton persistia como principal pesadelo palestrino. Em papéis invertidos ao que se viu na Arena, mesmo com menos posse de bola, o Tricolor soube ser muito mais perigoso. Tinha um diferencial com a 11 às costas.

Everton foi o melhor em campo não apenas pelos gols que proporcionou ou pelas outras chances que gerou – até quando não recebeu a bola, em lance no qual André demorou demais a soltar o passe. O Cebolinha também foi excepcional pela forma que ditou o ritmo do ataque do Grêmio. Ele acelerava o jogo com suas arrancadas, mas também sabia o momento de prender ou de passar. Desta vez, primou pela tomada de decisões, correspondendo à cobrança que sofrera na Arena. E se segurava demais a bola, não era mera questão de “fome”, era a autoconfiança de que este jogo pendia a seu favor. Foram dez dribles ao longo da noite, que desmontaram a maior certeza do Palmeiras.

A continuidade de Everton neste segundo semestre foi uma questão recorrente ao Grêmio. O atacante parecia pronto à despedida após a Copa América, mas as especulações dos clubes europeus não se concretizaram. O Atlético de Madrid ainda permanece como uma alternativa e terá mais alguns dias para tentar contratar o ponta. A classificação sobre o Palmeiras, entretanto, ao mesmo tempo em que reafirma o calibre do atacante, também indica que este não é o momento para os gremistas fecharem acordo. A esperança de conquistar o tetra da Libertadores permanece vivíssima e se deposita principalmente nos pés de Everton. A reviravolta no Pacaembu enfatiza que, em termos de habilidade, ninguém se aproxima do Cebolinha nesta era vitoriosa do Grêmio. É a personificação do futebol exigido por Renato e que, nesta terça-feira, honrou a imortalidade que reside na camisa tricolor.