Um estalo. O drible incisivo, o corte para deixar o zagueiro no chão, o chute indefensável. Quem liga a TV para assistir à seleção brasileira quer isso. Quer o improviso, quer a magia, quer a dose de espetáculo. Ganhar geralmente não basta quando o Brasil está em campo, tem que ganhar e mostrar algo diferente. Não há uma relação passional como a do clube, há um lastro que sempre atiçou o imaginário. E a gélida vitória do Brasil no Morumbi só teve sua fagulha graças a Everton Cebolinha. Saiu do banco, pegou a bola e, em um de seus primeiros lances, já fez melhor que nos 85 minutos anteriores da peleja. Mostrou que também queria, e isso valeu os maiores aplausos na abertura da Copa América.

Em tempos nos quais a relação com a seleção brasileira é frágil, seja dos jogadores ou dos próprios torcedores, nem sempre se nota a vontade em campo. O Morumbi deixou muito a desejar no clima da partida. O encarecido ingresso, que custou em média absurdos R$485 pessoas, é uma das razões pelas quais dava para ouvir os burburinhos de Tite com seus assistentes. Porém, também faltava à Seleção fazer sua parte. O time que entrou em campo para incendiar, aos poucos, baixou o ritmo quando se esperava que amassasse o adversário retrancado. Em certos momentos, parecia um treino de ataque contra defesa.

O Brasil tinha algumas boas ideias ofensivas, mas apenas como pensamentos isolados. A troca de posições confundiu a marcação, especialmente quando Richarlison saiu da ponta direita para o comando do ataque. O jovem é daqueles que não escondem o esforço também nos jogos da Seleção. Mas era um time longe do melhor funcionamento, sem aproximação. Os laterais se continham e os meio-campistas não auxiliavam na construção. David Neres cansou de errar, sem o apoio ideal. Roberto Firmino também demorou um bocado até acertar. E por mais que Philippe Coutinho tenha anotado os dois gols, se preocupou mais em avançar para a área do que em criar. Foi uma formação conservadora diante de uma Bolívia disposta a bloquear.

O resultado construído logo no início do segundo tempo dissipou qualquer nervosismo. Mas quando a Seleção precisava botar a faca entre os dentes, para chegar à Copa América metendo o pé na porta, sua atitude arrefeceu. Os bolivianos tiraram os tijolos de sua parede e até saíram mais para o jogo, dando espaços. Mas faltava conexão ao Brasil, muito rígido em sua tática. Só a dinâmica do ataque pouco valeu para construir um placar mais elástico, como se esperava pela superioridade. Os 20 chutes a gol, contra cinco de La Verde, nem de longe deram impressão de massacre. Quando saía alguma jogada, era mais por iniciativa individual do que por força coletiva.

Tite precisava mexer e a entrada de Everton, neste sentido, se tornou providencial. Restando pouco mais de dez minutos no relógio, não parecia tempo suficiente para o atacante aprontar muita coisa. Mas foi ele quem fez o que ninguém vinha fazendo. Foi ele quem viu os espaços e resolveu jogar com vontade, como manda a cartilha de quem senta diante da televisão para ver a seleção brasileira. Logo na primeira tentativa, uma arrancada pela ponta esquerda com todo o fôlego possível. A bola era nele. E, depois que Coutinho fez o movimento para puxar a marcação, ela veio em passe de Fernandinho. O lampejo que todos esperavam.

O momento do jogo contribuía. Era um substituto cheio de energia, querendo cavar seu espaço no time titular, contra um adversário já cansado e abatido. Não é isso que tira os méritos de Everton, porém. Porque a torcida do Grêmio já se acostumou a ver esses lances. Já comemorou muitos gols assim. Já viu partidas difíceis serem resolvidas por ele, com menção especial à Libertadores desse ano. O Cebolinha fez o que precisava fazer, partindo para cima e resolvendo com talento. Seu primeiro gol pela Seleção é inesquecível, e com sua marca.

O domínio não foi dos melhores, mas havia um caminho traçado pela mente de Everton quando encarou o lateral. Fez o corte para dentro da área, o suficiente para deixar Diego Bejarano distante. Não era contestado pelos bolivianos. E, da posição perfeita, na risca da meia-lua, veio o tirambaço. Uma bola certeira, para beijar a lateral da rede e deixar Carlos Lampe plantado sob as traves. É daqueles gols que abrem portas, seja lá qual for o futuro do atacante – na Seleção, no Grêmio ou mesmo na Europa. Foi o instante do jogo que rendeu o sorriso.

Everton já vinha tentando. Aposta desde a primeira Data Fifa após a Copa do Mundo, disputou seis amistosos com a seleção. Quase sempre saiu do banco, mas sem conseguir ser tão efetivo. No momento em que poderia estar mais pressionado, justo no primeiro jogo oficial, descarregou as energias no chute potente. Na saída de campo, se mostrou emocionado com o lance. É esse tipo de identificação que a torcida também pede. E que garante uma grande consideração aos poucos minutos do ponta.

A qualidade de Everton não fica devendo em nada para outros jogadores da Seleção. E lembra também como o que acontece no futebol brasileiro pode ter serventia à Canarinho. É uma pintura de quem tende a voar para outros cantos em breve, é verdade. Mas que, antes disso, aproveita para encarar com seriedade a oportunidade que tem na Copa América. O Cebolinha sensacional do Grêmio, nesta noite, deu as caras também com a camisa do Brasil. Poderia mostrar aos outros, inclusive a Tite, que um pouco de ousadia confronta o marasmo. Seleção precisa ser isso, aquilo que sai do lugar-comum.