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Torcida suíça se une para bancar o patrocínio que o clube não consegue

Por mais que os românticos digam que há outro caminho, não tem jeito: é impossível para um clube sobreviver sem dinheiro, ainda mais em alto nível. O que não significa que é preciso se vender para toda e qualquer iniciativa em busca de trocados. O grande exemplo da semana veio do Peñarol, que recusou o patrocínio do governo do Azerbaijão por não admitir a proposta etnofóbica. Mas por que não transformar a paixão pelo clube em um meio de sobrevivência? Os programas de sócio existem para isso. Há também os exemplos de Panathinaikos e Rangers, que tiveram suas ações compradas pelos torcedores. E, nos últimos dias, o Thun lançou uma ideia para se manter competitivo no Campeonato Suíço.

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Embora tenha participado das copas europeias quatro vezes na última década, o clube da cidade de 40 mil habitantes está longe de ser uma potência na primeira divisão – a qual chegou pela primeira vez apenas em 2002. Dentro de um mercado reduzido e sem muita exposição com os resultados, o Thun vem sofrendo para encontrar um patrocinador principal para a sua camisa. Para piorar a situação, a proximidade da capital Berna costuma deixar o pequeno time à sombra do tradicional Young Boys. Um problema de difícil solução, mas que a torcida tenta resolver através da própria união.

Os torcedores lançaram o programa “Härzbluet für üse Thun” (em português, Sangue para nosso Thun) buscando arrecadar dinheiro e bancar o patrocínio. Segundo a imprensa local, o Thun teria dinheiro o suficiente para bancar suas contas só até fevereiro, e precisaria de cerca de US$ 1 milhão para fechar o caixa na temporada – o orçamento do clube é o segundo menor entre os participantes do Campeonato Suíço. Até o momento, já foram arrecadados cerca de US$ 100 mil pela torcida.

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“A ideia é deixar os torcedores de diferentes camadas sociais ter igual parte em um plano maior. Qualquer contribuição já vale e todos que doam têm o reconhecimento, não importa a quantia. Esse ato de solidariedade das pessoas é que pode salvar um time que pertence a todos os torcedores”, afirma Luki Frieden, o criador do Härzbluet für üse Thun

Nada mais natural do que a aposta em uma torcida pequena, mas apaixonada. A grande mostra disso aconteceu na Champions League de 2005/06, a primeira vez que o Thun chegou ao topo do futebol continental. Na última partida da fase qualificatória, os alvirrubros esgotaram pela primeira vez os ingressos no Estádio Wankdorf, após a reforma para a Euro 2008 – algo que nem mesmo o Young Boys, dono da casa, havia conseguido ainda. Já em 2010, o clube inaugurou a Stockhorn Arena, seu estádio próprio, com capacidade para 10 mil torcedores. A arena multiuso, aliás, só foi erguida graças às parcerias privadas feitas pelos dirigentes, já que os cidadãos de Thun recusaram financiar a obra com fundos públicos.

A iniciativa dos torcedores, obviamente, conta com o apoio dentro do clube. Na volta do Campeonato Suíço após a pausa de inverno, a camisa alvirrubra deverá estampar a marca do Härzbluet für üse Thun – atualmente, a logomarca exibida é a do shopping que funciona ao lado da Stockhorn Arena. E não seria surpreendente se a diretoria adotasse de vez a campanha no uniforme. O que, convenhamos, seria bastante justo diante da iniciativa.

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Para um clube que costuma terminar o Campeonato Suíço na parte de cima da tabela, mesmo com um orçamento dez vezes inferior ao dos principais concorrentes, a sobrevivência já é uma grande vitória. E os exemplos do Eibar e do Oviedo, que não fecharam suas portas na Espanha graças às doações, reforçam a iniciativa. Mais do que um esporte, o futebol é um símbolo da sociedade, que se tornou tão grande graças às paixões que movimenta. Isso, nem mesmo o dinheiro pode tirar. E é o que garante toda a sua essência.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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