Champions LeagueEuropa

PSG prova que é possível eliminar um time como o Chelsea usando o fígado

O futebol leva os pés em seu nome e é um jogo muito mental. Mas, às vezes, é preciso usar o fígado para vencer. Arrancar de dentro do corpo a energia para fazer a perna ignorar seu cansaço, para fazer o corpo subir alguns centímetros a mais para alcançar o cruzamento, para fazer a bola voar por cima da mão do goleiro após a cabeçada. E foi assim, com uma atuação figadal, que o Paris Saint-Germain superou a torcida londrina, o fato de perder Ibrahimovic em uma expulsão polêmica, ficar 88 minutos com um jogador a menos e ter de buscar duas vezes o placar para conseguir um 2 a 2 na prorrogação e eliminar o Chelsea nas oitavas de final da Champions League.

VEJA TAMBÉM: Vítima de racismo recusa Chelsea: “Não quero sentar perto de quem me empurrou”

Os primeiros minutos da partida deram a impressão errada do que seria a etapa inicial. A movimentação era intensa nos dois lados do campo. Logo aos cinco minutos, Hazard colocou em prática sua velocidade e habilidade, fazendo o que queria pelo lado esquerdo, e cruzou para a área, mas a bola foi afastada pela defesa do PSG. Já os parisienses contavam com Pastore para fazer a transição entre defesa e ataque e chegava rapidamente à frente, mas sem levar perigo. Em termos ofensivos, a partida não foi muito além disso antes do intervalo.

O que marcou mesmo a primeira etapa foi como o árbitro Björn Kuipers desequilibrou o duelo e perdeu a mão do jogo. A expulsão a Ibrahimovic por um carrinho forte em Oscar, mas que deveria render apenas um cartão amarelo, tirou do PSG sua principal arma ofensiva, que embora não estivesse bem na partida tinha capacidade para, em um lance em que recebesse a bola bem posicionado, definir para os franceses.

No segundo tempo, a primeira grande chance foi do Paris Saint-Germain. Com a superioridade numérica, o Chelsea lançou-se ao ataque e se viu em uma situação um tanto quanto incomum para os times de Mourinho. Aos 12 minutos, um contra-ataque passou pelos pés de Pastore e chegou a Cavani. O uruguaio limpou Courtois da jogada e, sem ângulo, acertou a trave direita do goleiro, vendo a bola passar rente à linha do gol para sair pelo outro lado.

Em vez de aproveitar a superioridade numérica, o Chelsea preferiu tentar se segurar ao empate sem gols, que o classificava. O jogo pegava fogo mais pelos desentendimentos entre os atletas do que por chances criadas. Mourinho tinha a opção de sacar Ramires, colocar algum meia ofensivo e matar o jogo, mas preferiu tirar Oscar para pôr Willian, na volta para o segundo tempo.

O Paris Saint-Germain passou a dominar. Thiago Motta e Matuidi corriam por todo lado, acionando Cavani, que se movimentava para abrir espaços em uma defesa insegura do Chelsea. O uruguaio chegou a receber um lançamento livre e driblar Courtois, mas, sem ângulo, chutou a bola na trave.

Mesmo sem fazer nada para merecer, conseguiu abrir o placar, com Cahill, após cobrança de escanteio e um bate-rebate dentro da área aos 36 minutos do segundo tempo. Era o golpe final nos parisienses, pelo menos era o que se esperava. O PSG já dava sinais de desgaste após o esforço dos primeiros por mais de meia hora. Mas aquele time não parecia disposto a novamente ficar com o rótulo de “nunca será grande”.

Após o tento, Mourinho foi ainda mais retranqueiro. Sacou Matic, defensivo mas com saída de bola, para colocar o zagueiro Kurt Zouma. A intenção era clara, mas foi atrapalhada pelo gol do Paris Saint-Germain. E nada mais simbólico do que David Luiz sendo o responsável pelo empate que levava a partida para a prorrogação. Uma cabeçada fulminante, uma encarada em Diego Costa, com quem vinha se desentendendo desde o jogo de ida, e o sentimento amargo entre os torcedores dos Blues, que por tanto tempo se deleitaram com o negocião que Mourinho havia feito quando o vendeu aos parisienses.

O Chelsea parecia não ter organização suficiente para buscar a vitória, enquanto que o PSG não tinha perna. Cavani, importante nos bons momentos dos franceses no segundo tempo, não conseguia mais se projetar nas brechas da defesa londrina. O time inglês tomava a iniciativa, mas só cercava a área francesa.

Até Thiago Silva ter um lapso mental. Não era o noite de se ganhar com a cabeça. O zagueiro levantou o braço para cortar um cruzamento inofensivo para Zouma. Pênalti que Hazard converteu. Mais uma vez, o PSG parecia morto. E, agora, teria seu capitão como vilão.

Era a hora de usar o fígado. Não era tática, não era técnica, não era inteligência. Era fígado, era coração, era estômago. O Paris Saint-Germain se multiplicou, conseguiu rondar a área do Chelsea e levar perigo. Aos 8 minutos do segundo tempo da prorrogação, Thiago Silva acertou uma cabeçada fatal. Courtois pegou, e ainda é difícil entender como um ser humano conseguiu fazer aquela defesa. Na cobrança do escanteio, o zagueiro brasileiro recorreu a suas vísceras para arrumar força para pular mais do que jamais pulou, e sua testa empurrou a bola por cima do goleiro belga.

Naquele momento, Thiago Silva subiu como se aquela cabeçada não servisse apenas de redenção pelo erro no segundo gol do Chelsea. Era como se ali ele apagasse todo o vaivém que sua carreira tem vivido desde a Copa do Mundo. E, para o Paris Saint-Germain, aquela classificação arrancada com o fígado era a prova de que aquele time, aquele clube, tem alma, tem coração, tem força de time grande.

Mostrar mais

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo