Europa

Nobel do futebol: Quando Bohr, um dos maiores físicos da história, foi goleiro de elite na Dinamarca

Se você se lembra das aulas de química no colegial, certamente o nome de Niels Bohr não lhe é estranho. O dinamarquês foi um dos maiores físicos do Século XX, especialmente por suas contribuições para o modelo atômico e o desenvolvimento da energia nuclear – participando, inclusive, do polêmico Projeto Manhattan. Não à toa, o estudioso recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1922 e teve como um de seus grandes admiradores ninguém menos do que Albert Einstein, com quem travou famosos debates sobre a teoria quântica. Gênio que nasceu em 7 de outubro de 1885, há exatos 130 anos. E que também era apaixonado por futebol. Afinal, antes de fazer fama com a ciência, Bohr foi goleiro de um dos principais clubes da Dinamarca.

VEJA TAMBÉM: Desafiamos você a ver qualquer minuto deste vídeo de Michael Laudrup sem ficar impressionado

Bohr cresceu em uma família de vanguarda, em tempos nos quais o futebol começava a se desenvolver na Dinamarca. Christian Bohr, pai do físico, era professor de fisiologia na Universidade de Copenhague. Sua casa abrigava debates sobre ciências, arte e filosofia entre a elite intelectual da capital. E logo se tornou um dos maiores entusiastas do futebol no país, graças a seus princípios morais e a seus benefícios à saúde, ajudando a espalhar a modalidade pelo país. Assim, Niels Bohr entrou em contato com o esporte desde a juventude.

A carreira de Bohr no futebol se deu ainda nos tempos de universidade, época em que o amadorismo prevalecia entre os clubes dinamarqueses. Akademisk Boldklub surgiu em 1889, fundado justamente por universitários de Copenhague, e logo se tornou um dos principais times do país. Bohr entrou para o elenco em 1903, aos 17 anos, mas não disputou tantos jogos como titular. Embora o seu talento fosse reconhecido pelos companheiros, o físico tinha problemas para se concentrar nos jogos. Justamente o que encerrou sua breve passagem pelos gramados, dois anos depois.

Bohr, vestido como jogador, em 1937
Bohr, de chuteira e meião, em 1937

Na temporada de 1905, Bohr atuou em algumas partidas pelo AB. A derradeira veio em um amistoso contra o Germania Mittweida, da Alemanha. Durante o jogo, os visitantes deram um chute de longe contra a meta defendida por Bohr. E eis que os companheiros dinamarqueses ficaram surpresos com o goleiro, que sequer estava prestando atenção na trajetória da bola. Naquele momento, ele se apoiava em uma das traves, fazendo cálculos bem em pleno amistoso. Quanto ao que aconteceu depois, há duas versões para a lenda: uma delas afirma que Bohr tomou o frango, enquanto outras testemunhas dizem que ele ouviu o grito da torcida e fez a defesa de pura agilidade.

VEJA TAMBÉM: Gandhi foi um dos primeiros a perceber a força do futebol para combater as desigualdades

Fato é que, depois daquele jogo, Bohr anunciou aos companheiros que estava pendurando as chuteiras. Pediu desculpas pela desatenção, pois bem no meio da partida lhe surgiu em mente um problema matemático, que não queria deixar para depois. A partir de então, futebol se tornou apenas um lazer para o físico, que passou a se dedicar de vez aos estudos.

Ainda assim, o sangue da família Bohr seguiu representado no futebol. Dois anos mais jovem que Niels, Harald Bohr passou a fazer parte do AB em 1904. Meio-campista habilidoso, o dinamarquês defendeu o clube até o fim da década. Era tão bom que disputou os Jogos Olímpicos de 1908, titular na conquista da medalha de prata com a Dinamarca. Marcou, inclusive, dois gols naquela competição. Porém, a carreira de Harald Bohr também não durou tanto. Em 1909, o volante defendeu seu doutoramento em matemática – diante de uma plateia que, segundo relatos, tinha mais torcedores do AB do que acadêmicos. No ano seguinte, disputou sua última partida pela seleção dinamarquesa, em duelo contra amadores da Inglaterra.

A seleção olímpica da Dinamarca. Harald Bohr é o primeiro à direita
A seleção olímpica da Dinamarca. Harald Bohr é o primeiro à direita

Assim como o irmão mais velho, Harald deixou grandes contribuições às ciências, sobretudo na área de funções periódicas. Mas se gabava por ter sido o mais habilidoso da casa no futebol. “Sim, Niels era realmente muito bom. Mas ele era um pouco lento na saída do gol”, comentava. Já o filho mais velho de Niels também disputou as Olimpíadas. Aage Bohr era do time de hóquei de grama, eliminado ainda na primeira fase dos Jogos de Londres, em 1948. Teve mais sucesso em seguir o pai nos estudos, recebendo o Prêmio Nobel de Física em 1975, por descobertas também relacionadas à teoria atômica.

VEJA TAMBÉM: O zagueiro que lê usa a força do futebol para fazer as crianças gostarem dos livros

A partir de 1919, o AB conquistou o seu primeiro título do Campeonato Dinamarquês, tornando-se uma das potências nacionais e erguendo a taça nove vezes até 1967. Já Niels Bohr não teve mais ligações com o futebol, embora seguisse um entusiasta do esporte. Tanto que é possível encontrar fotografias do físico, já famoso, calçando chuteiras – especialmente nos tempos em que trabalhava na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Bohr faleceu em 1962. Talvez o maior gênio que atuou em primeiro nível no futebol.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo