Liga Europa

A outra taça europeia do Manchester United: a conquista da Recopa de 1990/91, primordial à dinastia de Ferguson

Na semana em que o Manchester United decide a Liga Europa, recontamos a história de um troféu continental menos lembrado do clube

Texto publicado originalmente em 11 de maio de 2017

Não há mancuniano que ouse negar: 1968, 1999 e 2008 são anos eternos em Old Trafford. Nas três oportunidades, o Manchester United reafirmou a sua grandeza e conquistou a Champions. Na primeira, refazendo-se do desastre aéreo de Munique e referendando tantas de suas lendas; na segunda, encerrando longo jejum da maneira mais emocionante possível, nos acréscimos do jogaço contra o Bayern no Camp Nou; na terceira, retornando ao topo com um elenco estelar. No entanto, há outra glória continental dos Red Devils menos lembrada. E, apesar disso, bastante importante. Em 1991, Sir Alex Ferguson deu mais respaldo ao início de seu trabalho graças à Recopa Europeia. Bateu o Barcelona no Estádio De Kuip, em taça que reconheceu o empenho de tantos ídolos. Que permitiu ao clube ser “campeão de tudo” na Europa, com a Liga Europa de 2016/17 – o quinto, seguindo Ajax, Bayern, Chelsea e Juventus.

O título da Copa da Inglaterra em 1989/90 tinha sido um grande alívio ao Manchester United. Principalmente a Sir Alex Ferguson, que passara por alguns questionamentos em seus primeiros anos no clube e precisava de um troféu que garantisse um pouco mais de tranquilidade. A vitória no jogo extra contra o Crystal Palace garantiu a celebração em Wembley e também a classificação à Recopa. Naquela temporada, os ingleses retornavam ao cenário continental, após os cinco anos de suspensão pelo desastre de Heysel. Seria a quinta participação dos Red Devils no torneio. E na anterior, em 1983/84, os mancunianos caíram apenas nas semifinais, superados pelo timaço da Juventus de Michel Platini, que acabaria no topo do pódio.

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O Manchester United passou pelas duas primeiras fases sem grandes perigos, acumulando quatro vitórias em quatro jogos. Eliminaram os húngaros do Pécsi e os galeses do Wrexham. Mas o nível do desafio aumentaria nas quartas de final. Encarariam o Montpellier, que ganhara a Copa da França na temporada anterior e contava com um time respeitável. Laurent Blanc era o capitão, atuando ao lado de outros jogadores com passagens pelos Bleus, como Daniel Xuereb e Vincent Guérin. Já o toque de classe era garantido por Carlos Valderrama, em sua terceira temporada no clube. Sem o Pibe, as duas equipes empataram em Old Trafford por 1 a 1. Brian McClair abriu o placar no primeiro minuto, enquanto Lee Martin marcou contra pouco depois. Assim, os Red Devils precisaram buscar a diferença no Stade de la Mosson. Clayton Blackmore e Steve Bruce permitiram o triunfo por 2 a 0.

Nas semifinais, o Legia Varsóvia podia ser menos badalado, mas inspirava respeito. Os poloneses tinham eliminado a fortíssima Sampdoria na etapa anterior da competição, vencendo em casa e empatando em Gênova – isso após abrirem dois tentos de vantagem. O United, porém, não vacilaria da mesma forma. A classificação ficou nas mãos graças à vitória por 3 a 1 em Old Trafford. Brian McClair anotou o primeiro gol, enquanto Mark Hughes aumentou a contagem, balançando as redes duas vezes. Coube ao time de Sir Alex Ferguson segurar a vantagem em Varsóvia, com Lee Sharp decretando o empate por 1 a 1. Do outro lado da chave, quem sobrava era o Barcelona. Os blaugranas atropelaram a Juventus de Roberto Baggio por 3 a 1 no Camp Nou, apesar da derrota por 1 a 0 em Turim.

O Estádio De Kuip recebeu 43 mil torcedores, a maioria ingleses, sedentos por ver duas camisas pesadas do continente se encarando – em final que, quase duas décadas depois, se repetiria por duas vezes na Champions. O Barcelona estava acostumado a conquistar a Recopa, com três títulos desde 1979. E via o seu Dream Team se formar naquele momento. Johan Cruyff era o dono do banco de reservas desde 1988, faturando a própria taça continental em sua primeira temporada. Já em campo, Michael Laudrup e Ronald Koeman se sobressaíam como grandes referências técnicas. Os blaugranas, contudo, precisaram lidar com desfalques importantes: Andoni Zubizarreta estava suspenso e Hristo Stoichkov se lesionou. O búlgaro era o artilheiro da equipe na campanha, com seis gols.

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Sir Alex Ferguson, por sua vez, também tinha as suas cartas na manga. No gol, Les Sealey era a opção. Denis Irwin e Clayton Blackmore apareciam nas laterais, enquanto Steve Bruce e Gary Pallister davam consistência ao miolo de zaga. Brian Robson era o capitão e alma da equipe, acompanhado pelo jovem Paul Ince na faixa central. Lee Sharpe e Mike Phelan abriam nas meias. Já o ataque desfrutava do faro de gol de Mark Hughes, municiado por Brian McClair em seu apoio. Um time sem estrelas da Europa continental, mas muito bem montado e que, com mais alguns acréscimos, logo renderia os primeiros frutos na Premier League.

Vestido de branco, o United abriria o placar aos 22 minutos do segundo tempo. Bryan Robson cobrou falta em direção à área, Steve Bruce desviou de cabeça e Mark Hughes demonstrou sua fome de artilheiro ao completar em cima da linha. E o galês faria valer a ‘lei do ex’, ampliando sete minutos depois. Aproveitou o lançamento em profundidade para driblar Carles Busquets, que saiu desastradamente, e bater para dentro quase sem ângulo. O Barça descontaria em cobrança de falta de Koeman e pressionaria bastante no fim. Teve um gol anulado pela arbitragem e uma bola afastada em cima da linha por Clayton Blackmore. A alegria era mesmo dos Red Devils, celebrando bastante em Roterdã.

Em novembro, o Manchester United ainda faturou a Supercopa Europeia, algo que não conseguiu nos três anos em que levou a Champions. A decisão contra o Estrela Vermelha foi realizada em novembro de 1991 e quebrou o protocolo. Em vez dos jogos de ida e volta, foi disputada apenas em Old Trafford, por conta dos conflitos na Iugoslávia. Brian McClair anotou o gol da vitória por 1 a 0. Festa que se tornaria recorrente nos anos seguintes, com a hegemonia que Ferguson construiria na Inglaterra.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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