Europa

Fugir do Talibã levou Nadia Nadim ao futebol e ao sucesso na seleção feminina da Dinamarca

Todos os dias, pessoas tentam escapar da árdua realidade dos países e regiões em que vivem, sobretudo na Ásia e na África. Instabilidade do governo, falta de segurança, extrema pobreza, conflitos armados, perseguição política, condições precárias de sobrevivência, direitos civis renegados e outros motivos as levam a fugir do lugar que habitam e tentar a sorte fazendo travessias perigosas por mares e oceanos, se arriscando em transportes clandestinos para perfurar fronteiras e expondo suas vidas de outras formas. Nadia Nadim é um exemplo disso. Após seu pai ter sido assassinado por membros do grupo fundamentalista Talibã, ela, sua mãe e suas quatro irmãs, tomadas pelo medo e pelo desejo de viverem livres e com segurança, abandonaram o Afeganistão às pressas para, por fim, se refugiarem na Dinamarca. E foi lá que Nadim encontrou o futebol, que não somente deu a ela uma nova perspectiva de vida, como também a fez tocar o sucesso ao chegar à seleção dinamarquesa feminina.

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A história de Nadim, hoje com 29 anos, se realça por completo. Foi aos 12 que ela, sua mãe e suas irmãs entraram em uma minivan apenas com algumas roupas nas costas para dar um basta na vida cercada por terror e incertezas que levavam. Em entrevista ao site oficial da Fifa, ela relembrou como tudo aconteceu e como teve seu primeiro contato com o futebol, ainda no Afeganistão, quando criança. Seu pai era um verdadeiro apaixonado pelo esporte e, certo dia, levou para casa uma bola de futebol para tentar passar um pouco de seu amor para suas filhas. “Era uma daquelas bolas bem velhas, que usavam nos anos 70, com pontos pretos e brancos”, recorda Nadim, antes de confessar que não sabia muito sobre futebol naquela época, e, por isso, a usava para jogar vôlei com suas irmãs. Mal sabia ela que uns anos depois, chutar aquele tipo de bola forneceria a paz e o conforto que ela precisava.

Com a morte de seu pai, Hamida, sua mãe, decidiu zelar pela vida de suas filhas e fugir do país. “Nós não tínhamos futuro no Afeganistão. Eramos seis mulheres sozinhas lá. Não tinha escola e nem trabalho para nós. A gente nem ao menos podia andar nas ruas sem um homem conosco! Tudo estava desmoronando, e minha mãe queria que fossemos pessoas independentes”, conta ainda. E, assim, lá foram elas em busca de um recomeço. De proteção e liberdade ao mesmo tempo. Mas o caminho até que elas encontrassem um abrigo foi sinuoso. Elas sabiam que não seria fácil, e realmente não foi. Depois de cruzarem o Afeganistão e o Paquistão na minivan, elas conseguiram passaportes falsos para pegar um voo para a Itália com a esperança de conseguiram chegar à Inglaterra. Foi, no entanto, a Dinamarca que as recebeu de braços abertos.

Lá, elas viveram em um campo de refugiados por seis meses até se mudarem para um abrigo. Nadim descreve os momentos que passou no início de sua estadia no país nórdico como felizes, apesar de ter que conviver com a saudade do pai. Era um alívio para ela, suas irmãs e sua mãe estarem ali, devidamente abrigadas e seguras. E, além de tudo, elas puderem, enfim, começar a estudar. Foi nos tempos livres que tinha quando não estava na escola que ela chegou perto do futebol novamente. Só que, dessa vez, para entrar e ficar. Para por a bola nos pés e sair jogando. E isso começou com ela assistindo a outros refugiados jogar e vendo Ronaldo Fenômeno, Figo e Zinedine Zidane, como ela recorda, atuando pela televisão. Teve uma vez que a empolgação de vivenciar a carreira de grandes nomes do futebol foi tamanha que ela fez sua irmã se machucar pedindo para que ela imitasse Oliver Kahn caindo no chão para fazer uma defesa. Isso no concreto.

No campo, ela fazia o papel de gandula em partidas em um clube local em troca de alguns minutos com a bola. Era pouco tempo, mas foi o suficiente para que ela conseguisse prender a atenção de todos, principalmente de olheiros, com sua agilidade com o instrumento que seu pai havia a apresentado quando era pequena. Nadim expõe durante a entrevista que mesmo estando na Dinamarca, em um país em que as mulheres são livres para fazer o que quiserem e exercer as mesmas atividades que os homens, ao contrário do Afeganistão, ela sentia que estava fazendo algo errado jogando futebol. “Eu sentia como se eu estivesse quebrando as regras”, ela revela.

A repressão, os medos, a insegurança e as lembranças do passado fugindo do local onde nasceu e cresceu, entretanto, foram se afastando conforme Nadim começou a se destacar no futebol e a ficar próximas de oportunidades muito boas e a crescer dentro do esporte. Antes de completar 18 anos, ela já havia chamado a atenção da comissão técnica da seleção da Dinamarca pela habilidade mostrada. Nadim, no entanto, só foi autorizada a treinar com a equipe feminina nacional quando conseguiu obter cidadania dinamarquesa, um tempo depois. Ela foi a primeira cidadã naturalizada a jogar com o time da base quando estreou na Copa Algarve de 2009, contra os Estados Unidos. E, depois de todas as dificuldades, lá estava ela diante de ninguém mais, ninguém menos que Abby Wambach, quando entrou em campo para substituir uma jogadora lesionada.

A partir de então, Nadia Nadim se tornou um nome do futebol feminino. Um ícone de resistência por sua história pessoal, que a fez fugir do Talibã com sua mãe e suas irmãs e, no final, se encontrar no esporte. Hoje, a atacante defende o Portland Thorns, um dos times da NWSL (National Women’s Soccer League), campeão da liga em 2013. Ela chegou ano passado ao clube com a missão de simplesmente “substituir” Alex Morgan na função de fazer gols pela equipe de Oregon, e já tem seu nome marcado na história do clube por ser uma das principais artilheiras. Com passagens pelo Fortuna Hjorring, IK Skovbakken e Sky Blue (este, também dos Estados Unidos), Nadim espera poder acompanhar e guiar a Dinamarca a competições importantes, como a Copa do Mundo. “Tudo começou como um jogo para mim, como uma diversão. E continua sendo. Tem que ser”.

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Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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