Eurocopa

França 1984: EurocoPlatini

A Uefa fez mais ajustes para a Euro disputada na França: voltavam as semifinais e não haveria decisão de 3º e 4º lugares. A terceira posição ficou com o semifinalista derrotado de melhor campanha.

A França era considerada a grande favorita para conquistar o caneco. Não só por jogar em casa, mas por ter mantido grande parte do time que barbarizou na Copa de 1982. Estava lá Michel Hidalgo, técnico de ideais futebolísticos semelhantes ao ideólogo da outra grande seleção de dois anos antes, Telê Santana. E o “quadrado mágico” francês estava na ponta dos cascos: a habilidade prosseguia nos pés de Jean Tigana, Alain Giresse, Dominique Rocheteau e, claro, de Michel Platini. Como se já não bastasse, a defesa, ponto fraco de 1982, recebera ajustes fundamentais. No gol, ao invés do fraco Jean-Luc Ettori, Joël Bats; no miolo, Yvon Le Roux e Patrick Battiston davam mais sossego a Manuel Amoros e Maxime Bossis.

Mas o grupo A em que os anfitriões estariam não era moleza. Havia a vice européia Bélgica, com gente vinda da Copa e da Euro-80, como Pfaff, Ceulemans, Erwin Vandenbergh, Leo “Lei” Clijsters (sim, o pai da ex-tenista Kim) e Ludo Coeck – que morreria um ano depois, em acidente de automóvel – mesclados a gente nova, como o zagueiro Georges Grün e o jovem (18 anos) Enzo Scifo. Tinha a Iugoslávia, de volta à Euro após oito anos e já com valores como o meia Dragan Stojkovic.

E havia, acima de tudo, a Dinamarca. Pouco tradicional em Euros, mas com o esqueleto da “Dinamáquina” de brilho fugaz, mas intenso, na Copa de 1986, já pronto. O treinador alemão Sepp Piontek, guiado por uma ideia interessante (se a maioria dos times joga no 4-4-2, para que desperdiçar vaga no meio com mais um defensor?), acabara de criar o hoje batido 3-5-2. E boa parte dos jogadores já figurava no time: o líbero e capitão Morten Olsen, os meias Soren Lerby, Frank Arnesen, Allan Simonsen e Jesper Olsen e uma grande dupla de ataque: Preben Elkjaer-Larsen e um novíssimo – 19 anos – Michael Laudrup.

No grupo B, o cenário era mais equilibrado, mas nem por isso menos empolgante. A campeã Alemanha, se podia ostentar o vice mundial, chegava ao Europeu cheia de problemas de relacionamento entre jogadores – problemas que, inclusive, haviam provocado a declaração de aposentadoria da seleção por parte de Bernd Schuster, naquele 1984, pouco antes da Euro. Ainda assim, a equipe comandada por Jupp Derwall era respeitável: comandados por Rummenigge, havia tanto vice-campeões mundiais de 1982 (os irmãos Karl-Heinz e Bernd Forster, Pierre Littbarski, Stielike) quanto gente que seria vice-campeã mundial em 1986 (Rudi Völler, Andreas Brehme, Matthäus).

A Romênia fazia sua primeira aparição continental mais importante, ainda cercada de mistério (a Cortina de Ferro e a ditadura de Nicolae Ceausescu impediam a saída dos jogadores do país) e já vendo nascer um tal de Gheorghe Hagi, na Euro aos 19 anos. A Espanha tentava reconstruir o time e mostrar força, mesmo com a fraca atuação no Mundial disputado em casa. E havia Portugal, de volta aos grandes palcos pela primeira vez desde 1966, num momento em que as boas campanhas continentais de Benfica e Porto já indicavam a recuperação da seleção. A base do técnico Fernando Cabrita se concentrava em ambos os clubes, embora o artilheiro Rui Jordão fosse o único representante do Sporting.

Iniciado o torneio, o grupo A mostrou que, acima de seleções, aquela seria a Euro de um jogador: Michel Platini. O craque e futuro presidente da UEFA justificou plenamente a esperança nele depositada. Foi o autor do único gol na partida de abertura, contra os dinamarqueses, em Paris. Depois brilhou e destroçou a Bélgica em Nantes, com três gols nos 5 a 0. E fez mais três gols contra a Iugoslávia, no 3 a 2 em Saint-Étienne. Mas a Dinamarca não ficou atrás: também aplicou 5 a 0, só que nos iugoslavos, e conseguiu 3 a 2 de virada contra os belgas. Franceses e escandinavos estavam, com louvor e distinção, nas semifinais.

O grupo B correspondeu às expectativas de equilíbrio. Em jogos renhidos e de poucos gols, o resultado surpreendeu. Na primeira rodada, dois empates e todo mundo com seu pontinho ganho. Na segunda, a Alemanha pulou na frente, com 2 a 1 contra os romenos em Lens, enquanto o duelo ibérico entre portugueses e espanhóis, em Marselha, ficou no 1 a 1.

Na última rodada, os lusos despacharam os romenos em Nantes, com um gol de Nenê, e conseguiram uma honrosa vaga nas semis. Já em Paris, os espanhóis precisariam de uma vitória para eliminar os alemães. E que vitória suada a Fúria conseguiu: no ultimíssimo minuto de jogo, Antonio Maceda fazia o 1 a 0 da classificação.

Se a fase de grupos já fora emocionante, as duas semifinais serviram para tornar a Euro-84 um dos melhores Europeus já disputados. A primeira partida, principalmente: num Vélodrome apinhado de gente em Marselha, França e Portugal fizeram um dos mais eletrizantes jogos da história da Euro. O zagueiro Jean-François Domergue abriu o placar, mas Rui Jordão empatou o jogo. Já na prorrogação, aos 8 do 1º, novamente Rui Jordão conferiu: 2 a 1. A torcida gaulesa temeu o pior.

Foi aí que brilhou, novamente, a estrela de Domergue. Ele, que sequer iria ao Mundial de 1986, bancou o zagueiro-artilheiro e fez o segundo no jogo, empatando, aos 9 do 2º tempo. Daí em diante, a torcida inflamou e empurrou o time. E Platini, a um minuto da decisão por pênaltis, mostrou por que esta era a sua Euro. Fez um gol histórico, definiu 3 a 2 e deixou a França em êxtase pela vaga na final.

Na outra semi, em Lyon, espanhóis e dinamarqueses fizeram um jogo menos exuberante, todavia bem equilibrado. Lerby e Antonio Maceda fizeram o 1 a 1 que persistiria até o fim de 120 minutos. Nos pênaltis, tudo certo até o último dinamarquês, que fechava a série de cinco: a estrela Elkjaer-Larsen isolava a bola na sua cobrança e a Espanha comprovava a recuperação de 1982, indo para tentar o bi na final. Se serve de consolo, os daneses conseguiam um justo 3º lugar.

A final, em Paris, foi brigada até os 12 minutos do segundo tempo. Aí, o momento que talvez tenha definido não só o espírito do jogo, mas a própria Euro. Falta na entrada da área espanhola. Platini cobra, rasteira, ao largo da barreira. Bola fácil para o goleiro Luis Arconada, que encaixa… e deixa a pelota passar marota por baixo de si, ultrapassando a linha e sem tocar na rede para o desespero do goleiro. 1 a 0. Dali para frente, no jargão futebolístico francês, “Arconada” virou gíria para “frango”. No desespero de tentar os contra-ataques, a Fúria deixou espaço livre. E o tiro de misericórdia chegou pelos pés de Bruno Bellone, a um minuto do fim. Em casa, a França correspondia aos palpites e Platini erguia o troféu Henri Delaunay.

Troféu erguido, a maior artilharia em uma só edição da Euro (9 gols) e maior jogador do torneio. Está justificado o trocadilho que dá título ao capítulo?

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