Europa

Ele queria problemas

Certamente você deve conhecer gente que adora se meter no meio de um problema, mesmo que não tenha obrigação alguma disso. Seja de modo altruísta ou para saciar a vaidade de sair na foto como o salvador da pátria, pessoas assim existem no mundo todo. Até na Suíça, estereotipada mundialmente como um lugar tranquilo, sem grandes crises para serem resolvidas – o que, pelo menos no caso do futebol, está bem longe de ser verdade.

Heinrich Schifferle é o nome do sujeito. O elegante senhor de cabelos e bigodes grisalhos, que alterna suas aparições fotogênicas entre a seriedade e o sorriso, mas sempre de modo sereno, poderia passar os dias comendo salsichão e torcendo pelo seu Winterthur, da segunda divisão.

Mas escolheu ser presidente da Liga de Futebol Suíço (SFL, na sigla original), entidade ligada à Associação Nacional de Futebol do país e que cuida exclusivamente da Super League (primeira divisão) e da Challenge League (segunda divisão). Mais ou menos como se a CBF tivesse um departamento para gerenciar o Brasileiro das séries A e B.

Fosse a Suíça, no futebol, o retrato do estereótipo de calmaria absoluta que recebe mundo afora, a vida do senhor Schifferle pouco mudaria com o novo cargo. Ao invés de somente assinar os cheques (ele era o diretor financeiro da entidade na gestão anterior), passaria também a assinar os documentos, dar uma entrevista aqui, outra ali, comparecer a eventos sociais e entregar os troféus ao final de cada temporada.

Mas ocorre que ele topou a parada de substituir a Thomas Grimm, o antigo presidente, praticamente ao mesmo tempo em que o futebol interno do país começava a atravessar uma de suas maiores crises dos últimos tempos.

Schifferle foi eleito em 25 de novembro, pouco menos de um mês antes da Fifa ameaçar suspender a Associação Nacional caso o Sion não fosse punido por suas constantes idas à Justiça Comum, assunto já tratado na coluna.

Se não tinha ideia de que a entidade mundial seria tão radical em sua determinação, é evidente que o novo presidente, bem informado nos bastidores, sabia que teria dores de cabeça por causa da teimosia do Sion. E que elas não seriam pequenas.

E foi assim, com um problemão caindo em seu colo, que o ex-diretor financeiro, que pouco era visto na mídia e nem sequer tinha seu nome citado nas rodas de conversa dos torcedores, tornou-se um dos principais personagens de uma história que ficará marcada nos bastidores do futebol helvético deste início de século.

Foi dele a palavra final na decisão de punir o Sion com a perda de 36 pontos, o que levou o clube do polêmico Christian Constantin ao último lugar do Campeonato Suíço, com cinco pontos negativos. Se não agisse assim, colocaria em risco o futebol do país inteiro, já que a Fifa, ao que parece, estava realmente disposta a banir clubes e seleções da Suíça de todas as competições (o que incluiria a participação do Basel nas oitavas de final da Liga dos Campeões). Ao passo que, fazendo o que fez, ganhou a inimizade de uma torcida e do polêmico cartola, que não tem o menor constrangimento em pegar pesado nas suas declarações.

Apesar da missão nada agradável que recebeu poucos dias depois de ser eleito, Schifferle diz não se arrepender de ter assumido o cargo, que outrora parecia dos mais tranquilos no futebol mundial. “Eu sabia que problemas me esperavam”, disse em entrevista ao jornal Blick. “Após a decisão contra o Sion, recebi muitas mensagens encorajadoras. Há muitas pessoas que estão fartas disso (os apelos de Constantin) há muito tempo.”

O fato é que, claramente, ele não quer se indispor com a Fifa. Em suas falas, fica nítida a insistência do dirigente na tecla de que a entidade rege o futebol mundial e tem suas próprias regras, entre elas a proibição dos times procurarem a Justiça Comum. E que a própria Liga Suíça é subordinada à Fifa e precisa cumprir as determinações impostas por Blatter. “Não podemos pôr em perigo todo o futebol apenas porque um clube (o Sion) não quer aceitar as regras.”

Mas, apesar da repercussão mundial que o caso Sion ganhou, o que mais vem colaborando para aumentar os fios brancos na cabeça de Schifferle são os problemas com o Neuchâtel Xamax. Será do novo presidente da SFL a decisão que deverá ser tomada em breve, sobre uma possível declaração de falência do clube, que já foi punido com a perda de oito pontos por atrasos de salários e não pagamento de obrigações trabalhistas.

Bulat Chagaev, o misterioso dono do Xamax, não consegue comprovar que tem dinheiro suficiente para manter a equipe na primeira divisão. Por isso, uma declaração de falência e a eliminação da equipe ainda durante a pausa de inverno não é descartada. “Lá em Neuchâtel tudo é anônimo, não é palpável, não se pode discutir com ninguém. Em Sion, pelo menos sabemos com quem estamos lidando”, reclama o presidente.

Pensando bem, mesmo sabendo que enfrentaria problemas, o que mais Schifferle deve desejar agora é que os três anos de mandato passem rapidamente para que ele possa voltar a saborear seus salsichões e torcer pelo Winterthur. Que, aliás, está apenas em décimo lugar.

CURTAS

ÁUSTRIA

– Ivica Vastic, o novo treinador do Áustria Viena, já começou seu trabalho. Ele segue confiando na promessa da diretoria de contratar reforços, especialmente para o ataque.

– O Red Bull Salzburg terá uma maratona de cinco jogos em 15 dias, incluindo Campeonato Austríaco e Liga Europa, na retomada da temporada. Por isso, a preparação física tornou-se prioridade no clube neste recesso.

– Os touros vermelhos anunciaram na semana passada a contratação do meia-atacante brasileiro Cristiano, de 24 anos. O jogador atuava no Metropolitano (SC) e foi negociado por 1 milhão de euros para sua primeira experiência internacional.

– O dérbi de Viena de nº 300 já tem data para acontecer. No dia 18 de fevereiro, na segunda rodada após o reinício da Bundesliga, Rapid Viena e Áustria Viena vão a campo para um jogo que promete ser eletrizante.

SUÍÇA

– Por 3,2 milhões de euros, o Dinamo Kiev, da Ucrânia, contratou o atacante Admir Mehmedi, do Zürich. Ele atuou 18 vezes na atual temporada da Super League e marcou quatro gols.

– Giovanni Sio, meio-campista do Sion, foi contratado pelo Wolfsburg. O valor do negócio gira em torno de 5 milhões de dólares. Com sete gols, Sio é um dos vice-artilheiros do Campeonato Suíço.

– Fabiano, atacante brasileiro de 27 anos que já rodou o país, é o novo reforço do Thun. Ele vinha defendendo o Vila Nova, de Minas Gerais.

– Organizada via facebook, uma manifestação envolvendo cerca de 500 torcedores do Sion protestou contra a punição ao clube. Os alvos principais foram a Fifa e a Uefa. Um dos participantes levou um cartaz com o desenho do rosto de Joseph Blatter e uma combinação entre as palavras “máfia” e “Fifa”.

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Equipe Trivela

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