Europa

Como a Escócia viu o retorno do Rangers à Premier League

Por @brunocassali*, de Edimburgo

Uma noite de terça-feira perfeita pra quem gosta de futebol. Estádio cheio, atmosfera de decisão e conquista após o apito final. Podia ser o resumo das vitórias do Barcelona ou do Bayern de Munique na Champions League, mas a sensação de dever cumprido foi quase palpável em Ibrox, na gelada Glasgow, onde o Rangers bateu o Dumbarton por 1 a 0, gol de James Tavernier, e conquistou a Championship Escocesa com quatro rodadas de antecipação, garantindo seu retorno a Primeira Divisão Nacional.

LEIA MAIS: O pesadelo acabou: Depois de quatro anos de luta, o Rangers está de volta à elite escocesa

Pra que o retorno do Rangers acontecesse, foram 140 jogos nas ligas inferiores do país, com 102 vitórias e apenas 13 derrotas. Jogando em campos amadores, muitas vezes com apenas um lance de arquibancadas e capacidades menores que 2000 lugares, o clube era um Golias numa terra de muitos Davi’s. Entretanto, tamanha superioridade histórica não foi suficiente pra igualar o feito do Gretna, que conquistou três promoções em anos consecutivos até chegar à elite em 2007/08 – numa aventura que durou apenas um ano, já que o clube foi rebaixado e decretou falência logo em seguida.

O título da Segunda Divisão não é do tamanho do Rangers. E quem trabalha no próprio clube sabe disso. Ao final da partida, o comentarista da Rangers TV celebrou o fato do Gigante não precisar mais ter que enfrentar times do cacife de Alloa ou Stranrear, pequenos clubes que figuram nas divisões inferiores da SPFL. O perfil do Rangers no Twitter fez uso da hashtag #GoingFor55, vislumbrando a possível conquista nacional na primeira divisão já na temporada que vem.

Andy Halliday, que antes de vestir a  camisa 16 no meio-campo azul e branco muito empurrou o Rangers das arquibancadas como torcedor, festejou em meio aos torcedores na noite de ontem, mas já com o discurso ambicionando algo maior no futuro. “Em um clube do tamanho do Rangers, não se pode ficar satisfeito com o segundo lugar. Nós vamos para a Premier League em busca do título”, prometeu o volante.

Mark Warburton, técnico do Rangers, já deu mostras que planeja os próximos passos. Especialistas em divisões inferiores – foi comandante do Brentford, na Inglaterra, antes de desembarcar em Glasgow –, o inglês sabe do desafio que terá para remontar um elenco que cumpriu com louvor o objetivo da temporada 2015-16: recolocar o Rangers onde a história fez questão de consagrá-lo. “Foi um trabalho de apenas 10 meses, mas magnífico. Com um time jovem, conseguimos o que planejamos lá em junho. Tudo isso é dedicado aos nossos torcedores”, celebrou o treinador.

Em sua edição impressa, o The Times saudou o retorno do Gers aos grandes tempos, mesma linha da manchete do The Herald. Já a edição escocesa do Metro afirma que o gol de Tavernier foi o estopim de uma festa quase anunciada, ressaltando a sólida e positiva campanha do Rangers desde o início da temporada.

A conquista da Championship rendeu comentários também do lado verde de Glasgow. Neil Lennon, comandante do Celtic entre 2010 e 2014, enxerga pontos positivos na volta do rival à elite também fora de campo. “É um bom aspecto para a venda dos jogos na Escócia novamente. Penso que deva ter sido difícil vender os direitos de TV sem a presença do Rangers e a volta do clube deverá trazer mais dinheiro nessas negociações”, afirmou. Ronny Deila, atual técnico do Celtic, preferiu ressaltar o desempenho do rival dentro de campo. “Eles demonstraram o quanto desejavam ser os melhores na Championship e nós certamente estaremos prontos pra eles no ano que vem”, disse o norueguês.

A torcida azul e branca sabe que voltou ao seu lugar de origem. Agora, eles só esperam que as más administrações não tomem conta novamente do clube, já que Alloa e Stranrear seguem nas ligas menores…

*Bruno Cassali (@brunocassali) é Jornalista desde 2008, trabalhou na imprensa esportiva gaúcha até 2014 e vive em Edimburgo, capital da Escócia, desde Janeiro de 2015.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo