Champions League

Quando Manchester City e Paris Saint-Germain conquistaram a Europa através da Recopa

Muitos costumam questionar a tradição de Manchester City e Paris Saint-Germain depois que ambos se tornaram milionários. Tudo bem que a dupla impulsionada pelo dinheiro catariano nunca havia desfrutado de uma hegemonia como a atual. Mas ignorar a história de ambos os clubes é desconhecer o passado do futebol. Em determinados momentos de suas trajetórias, ingleses e franceses figuraram como potenciais nacionais. Mais do que isso, fizeram sucesso além das fronteiras e foram campeões continentais.

Hoje, a Champions League possui um enorme peso na Europa. Nem sempre foi assim. Nas décadas passadas, com menos times na principal competição, as outras taças costumavam ser mais valorizadas. Assim, a antiga Recopa Europeia tinha a sua importância. E por isso mesmo representam capítulos notáveis para o City dos anos 1960 e para o PSG dos anos 1990. Antes do primeiro duelo entre os ricaços pelas quartas de final da LC, relembramos os momentos em que os dois não tinham tantas pompas, mas fizeram história:

A trajetória meteórica do City ao topo

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O Manchester City montou fortes equipes na virada do Século XX e na década de 1930. No entanto, até o despejo das petrolibras árabes, a maior bonança dos Citizens havia acontecido no final da década de 1960. Após vencer a segundona em 1965/66, o clube conquistou todos os títulos possíveis na Inglaterra até 1969/70. Em temporadas seguidas, faturou o Campeonato Inglês, depois a Copa da Inglaterra e por último a Copa da Liga Inglesa. Sucesso que se repercutiu nas competições continentais.

O primeiro grande triunfo naqueles anos áureos veio com o título do Inglês em 1967/68, o segundo da história do clube, superando por dois pontos o lendário Manchester United de Matt Busby, campeão europeu naquela mesma temporada. Já em sua estreia além das fronteiras, na Copa dos Campeões de 1968/69, o City decepcionou. A equipe caiu logo na primeira fase, diante do Fenerbahçe. No entanto, a redenção aconteceria na Copa da Inglaterra. Deixando pelo caminho Newcastle, Blackburn, Tottenham e Everton, os Citizens cruzaram com o Leicester de Peter Shilton em Wembley. Vitória por 1 a 0 dos comandados por Joe Mercer, com gol decisivo do atacante Neil Young.

Mais do que o troféu, a conquista da FA Cup valeu uma vaga na Recopa Europeia em 1969/70. Um torneio para o qual os ingleses demonstravam um gosto especial naquela época, vencendo quatro das primeiras 11 edições. A caminhada do Manchester City começou de maneira grandiosa, eliminando o Athletic Bilbao por 6 a 3 no placar agregado. Na sequência, as vítimas seriam o Lierse e a Acadêmica de Coimbra, antes de um novo adversário de peso, o Schalke 04. E a goleada por 5 a 1 em Maine Road ratificou o potencial dos ingleses. Já na decisão, o desafiante era o Górnik Zabrze, importante na formação da forte seleção polonesa dos anos 1970. Nas etapas anteriores, a equipe do leste já havia surpreendido ao eliminar a Roma e o Rangers.

A grande preocupação do outro lado se concentrava sobre o artilheiro Wlodzimierz Lubánski. No entanto, o forte início de partida do City encaminhou a taça. Neil Young abriu o placar aos 12 minutos, enquanto Francis Lee ampliou cobrando pênalti aos 43. Apenas na segunda etapa é que o Górnik reagiu, mas o tento de Stanislaw Oslizlo não levou o placar além dos 2 a 1. Já na temporada seguinte, com o direito de defender a faixa de campeão, os Citizens avançaram até as semifinais, caindo para o Chelsea – que, por sua vez, manteve a hegemonia inglesa ao derrotar o Real Madrid na final.

Um dos maiores ídolos da história do Manchester City, o atacante Francis Lee era o principal destaque daquele time. As boas atuações o levaram à Copa de 1970, representando o clube ao lado do meio-campista Colin Bell, terceiro maior artilheiro da história dos Citizens. O capitão era Tony Brook, lateral direito que foi eleito o melhor jogador do futebol inglês em 1969 pela FWA, a associação de cronistas de futebol. Além disso, outros nomes marcantes eram os do goleiro Joe Corrigan e dos meias Mike Doyle e Alan Oakes – os três jogadores que mais atuaram na história do clube. Já no banco, Joe Mercer se consagrava como uma lenda em Maine Road.

O Paris Saint-Germain que impressionou a Europa

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O Paris Saint-Germain surgiu em 1970, forjado para ser o grande clube da capital da França. E, apesar de suas boas campanhas nos anos 1980, a afirmação dos parisienses aconteceu mesmo na década de 1990. De 1993 a 1998, a equipe conquistou uma Ligue 1, três Copas da França e uma Copa da Liga Francesa. O ápice veio na Recopa Europeia de 1995/96, um prêmio após já terem batido nas semifinais da Liga dos Campeões na temporada anterior, derrotados pelo Milan de Fabio Capello.

Aqueles timaços do PSG passam por vários ídolos históricos. Quando conquistou a Ligue 1 em 1993/94, o destaque individual era o atacante David Ginola.  No entanto, a equipe de Artur Jorge encaminhou o seu título graças à forte defesa, liderada por Ricardo Gomes e Paul Le Guen. Já na linha de frente, contava também com o talento de astros estrangeiros como Raí, Valdo e George Weah. O liberiano, aliás, viveria um momento magnífico na temporada seguinte. Artilheiro na marcante campanha da Champions, também liderou os parisienses na conquista da Copa da França de 1995. Não à toa, acabou levado por uma fortuna ao Milan e recebeu a Bola de Ouro da France Football ao final daquele ano.

Apesar das vendas de Weah e Ginola, além do retorno de Valdo e Ricardo Gomes ao Benfica, o PSG se reforçou para 1995/96. Entre as novas opções para o 11 inicial estavam o zagueiro Bruno N’Gotty e os atacantes Youri Djorkaeff, Julio César Dely Valdés e Patrice Loko. Nomes que contribuiriam bastante na trajetória vitoriosa na Recopa Europeia. Os franceses começaram atropelando o Molde (de Solskjaer) e o Celtic. Nas quartas de final, o nível do desafio aumentou diante do Parma. Stoichkov garantiu a vitória por 1 a 0 na Itália, mas nem a defesa com Sensini e Fabio Cannavaro evitou os 3 a 1 no Parc des Princes. Já nas semifinais, o Deportivo de La Coruña apareceu pela frente. E o PSG arrebatou duas vitórias por 1 a 0 diante do forte elenco com Bebeto, Fran e Mauro Silva.

Na finalíssima em Bruxelas, o desafio nem era tão pesado assim. O Rapid Viena pegou um caminho mais tranquilo e era o azarão na decisão. Embora fosse a base da seleção austríaca, o elenco dos vienenses não metia tanto medo assim. Os principais destaques eram Michael Konsel, Trifon Ivanov e Carsten Jancker. Apesar do favoritismo, o PSG sofreu. A vitória do time de Luis Fernández foi magra, apenas 1 a 0, graças ao gol de falta de N’Gotty, aos 29 minutos do primeiro tempo. Raí, que começou o jogo entre os titulares, precisou ser substituído por Dely Valdés com apenas 12 minutos, após se lesionar.

A façanha do PSG o levou à disputa da Supercopa Europeia, na época realizada em partidas de ida e volta. Um verdadeiro trauma para os parisienses. Dentro do Parc des Princes, o time da casa tomou de 6 a 1 da Juventus de Del Piero e Zidane. Já na volta, o desastre se completou com os 3 a 1 em Turim. Aquele massacre dava sinais da queda dos parisienses, que começavam a perder os seus destaques e, depois da Copa da França de 1998, entrariam em uma seca de títulos só contornada em meados dos anos 2000.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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