, por vezes, parece um projeto de laboratório para ser o centroavante ideal. O artilheiro do tem diversas virtudes para a posição: potência física, ótima aceleração, inteligência na movimentação, uma finalização precisa. E, quando entra em campo no cenário continental, Haaland até sugere que foi desenvolvido exatamente para arrebentar na Champions League. O desempenho do garoto costuma ser ainda mais absurdo no torneio, sem sentir o peso da ocasião. Aos 20 anos, adicionou mais uma atuação espetacular à sua conta, ao comandar os 3 a 2 sobre o no Ramón Sánchez-Pizjuán.

A temporada de estreia de Haaland na Champions já foi suficiente para fazer barulho. O pouco conhecido atacante do Red Bull Salzburg anotou gols em todas as cinco primeiras rodadas da fase de grupos, estabelecendo um novo recorde na competição. Garantiu vitórias apenas contra o Genk, mas os tentos anotados contra Liverpool e Napoli prenunciavam algo grande. Uma impressão que se reafirmou nos mata-matas, depois de sua transferência ao Dortmund. Haaland fez dois na vitória por 2 a 1 sobre o PSG durante a ida das oitavas de final, mas passou em branco na volta e viu seu time sucumbir.

A nova chance de Haaland na Champions vê um Dortmund fragilizado, com uma mudança de treinador e muitas oscilações. Mesmo assim, o centroavante carregou o time em vários momentos. E foi assim desde a fase de grupos, quando os aurinegros não transmitiam muita confiança. Depois da derrota para a Lazio na estreia, o BVB se recuperou com três vitórias. Haaland, que tinha deixado o seu contra os italianos, faria mais cinco gols para encaminhar a classificação dos alemães. A marca só não foi maior porque o norueguês se ausentou nas duas últimas rodadas, lesionado. Ainda assim, liderava a artilharia ao lado de outros três jogadores.

Se havia alguma esperança de vitória ao Dortmund no primeiro jogo das oitavas de final, em visita ao Sevilla, ela se concentrava na capacidade individual de Haaland e seus companheiros. No fim das contas, os aurinegros funcionaram coletivamente melhor que o esperado, para segurar o triunfo. Contudo, igualmente o brilhantismo do centroavante seria decisivo. Contra uma defesa capacitada como a de Julen Lopetegui, que vinha de sete partidas consecutivas sem sofrer gols, as qualidades do artilheiro foram ainda mais necessárias. E ficaram evidentes num primeiro tempo letal.

O primeiro gol dependeu de um chutaço de Mahmoud Dahoud, mas teve ótima ajuda de Haaland. O centroavante também sabe driblar, e foi graças a esta virtude menos destacada que limpou a jogada. Mesmo com a marcação dupla rente à lateral, o norueguês aplicou uma caneta em Joan Jordan e abriu um espaço essencial para que Dahoud finalizasse com liberdade. Depois, seria a vez de Haaland chamar o jogo para si. Causou pesadelos nos zagueiros sevillistas, com sua velocidade máxima aliada ao poder de fogo.

A virada do Dortmund saiu dos pés de Haaland, que puxou o contra-ataque e empurrou a defesa para trás. Diego Carlos não quis dar o combate e cometeu um pecado capital. Sancho foi muito bem no lance, ao receber do centroavante e devolver na tabela um passe preciso dentro da área. Entretanto, o trabalho maior de romper a zaga foi do artilheiro, que passou fácil por Koundé e completou de carrinho às redes. Por fim, seria dele também o terceiro, num avanço construído por Reus. O capitão roubou a bola e concentrou a marcação, antes de entregar ao garoto. Com um tapa, Haaland resolveu e ampliou a diferença.

O primeiro tempo de Haaland foi primoroso e, entre um gol e outro, ele ainda exigiria uma defesaça de Bono. Impressionava a facilidade com que se desmarcava, bem como a maneira como chamava a responsabilidade e dava opções ao seu ataque. Na segunda etapa, porém, o norueguês não seria tão efetivo. Até se esperava mais espaço aos contragolpes, mas Fernando Reges merece elogios pela maneira como grudou no goleador adversário, sem mais tantas brechas para acelerar. Haaland, além do mais, teria que ajudar na defesa. Estava sempre na área para tentar afastar as bolas paradas do Sevilla e até exagerou na força durante os minutos finais do jogo. Apesar disso, a missão estava cumprida.

Com os dois gols desta quarta, Haaland chegou a 18 tentos na Champions League. Atingiu a marca com míseros 13 jogos, colocando-se como o 76° maior artilheiro do torneio. Neste momento, aparece empatado com Ronaldinho e Franck Ribéry. Está a um gol de lendas como Marco van Basten e Johan Cruyff. Obviamente, existem diferenças em relação às posições e às eras do torneio, mas não deixa de ser emblemático. Nenhum outro dos 100 primeiros colocados da lista possui uma média superior a um gol por jogo, nem mesmo Cristiano Ronaldo ou , enquanto o norueguês sustenta uma média de 1,38. Ainda é cedo para fazer qualquer afirmação mais incisiva, mas o jovem de 20 anos parece predestinado à história da competição.

Graças a Haaland, o Dortmund deverá ganhar uma sobrevida nos mata-matas, quando poucos esperavam algo dos aurinegros. O centroavante gera preocupação suficiente a qualquer defesa. E até por seu apreço pela Champions, será importante observar os próximos passos. Neste momento, o BVB ocupa a sexta posição na Bundesliga e aparece seis pontos abaixo do G-4. Talvez o fenômeno amplie seus números com outra camisa na próxima temporada, caso deseje seguir mesmo brilhando entre os maiores da Europa.