Champions League

E se Totti tivesse sido contratado pelo Real Madrid?

Por Bruno Bonsanti

Uma proposta que ele não pode recusar. O amor tem um limite quando estamos falando de jogadores de futebol. São profissionais. Precisam pensar na família. A torcida pode ficar chateada, mas rasgar dinheiro dos outros é muito fácil. Ainda mais quando a quantia garante a independência financeira dos tataranetos dos seus bisnetos. Sem falar que ninguém está indo para a China. É a chance de ganhar a Champions League, e Francesco Totti, 28 anos, ídolo na Itália, não pode ignorá-la. Aceitou a proposta pornográfica do Real Madrid e deixou a Roma para trás.

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Muita coisa mudou no final da temporada 2003/04, na qual o time da capital terminou na segunda posição. Fabio Capello foi para a rival Juventus e levou Emerson consigo. Walter Samuel saiu para o Real Madrid, e as reposições não foram as melhores, o que causou rusgas entre a diretoria da Roma e Totti. “Para substituir Emerson, me vem à cabeça apenas um nome: Edgar Davids. É o ideal”, afirmou à Gazzetta dello Sport, em maio, antes da Eurocopa de Portugal. Mas Davids foi para a Internazionale. Jankulovski e Vieri, outros reforços que Totti pediu publicamente, também não foram contratados. Apenas Phillippe Mexès chegou para o lugar de Samuel.

Totti também via o novo técnico Cesare Prandelli com desconfiança. Não tinha a estatura de um Fabio Capello. A decisão de ir para o Real Madrid foi, portanto, muito natural. Nem exigiu muita ponderação. Ninguém poderia julgá-lo. Qualquer jogador faria a mesma coisa. Seria necessária uma demonstração de amor muito grande para recusar. Seria preciso que Totti amasse profundamente a Roma para abrir mão de dinheiro, glórias e fama internacional. Uma relação sentimental entre jogador e clube que estava fora de moda naquele verão europeu de 2004.

Principal contratação do Real Madrid, Totti foi apresentado pelo presidente Florentino Pérez com pompa e circunstância. Ganhou a camisa 11, já que a 10 era de Figo. O grande nome da estratégia Zidanes y Pavones do dirigente, o chamariz para vender camisas e manter o clube espanhol na mídia. E meter uns golzinhos também, ao lado de Figo, Zidane, Raúl, Ronaldo e David Beckham. O problema era estar ao lado de Figo, Zidane, Raúl, Ronaldo e David Beckham. Encaixar os cinco no time titular já seria um grande desafio para o técnico José Antonio Camacho. Imagina os seis?

Totti tinha que ter paciência. Não era mais o dono do time, nem o chefe do vestiário. No máximo, o rei deposto de Roma. Até se perdeu dirigindo para Valdebebas nos primeiros dias de treino. Na sua cidade natal, o carro ia praticamente sozinho para o escritório depois de tantos anos de serviço. Em alguns trechos, decorou até as marchas que o motor alcança. Segunda, terceira, quarta, freia, reduz, terceira, segunda, faz a curva, acelera, terceira. Italianos e carros, uma relação especial. Em Madrid, o porteiro não sorri quando o vê, não o cumprimenta com aquela reverência. Ninguém fala italiano. As mulheres não lhe dão muita atenção. Tudo é diferente. Diferente demais.

Mas ele tem um propósito na Espanha. Quer alcançar o auge da carreira de um jogador de futebol europeu, e para isso, precisa conquistar a Champions League, o Campeonato Espanhol e ser eleito o melhor jogador do mundo. Nas suas contas privadas, reveladas apenas aos mais próximos, calcula que será tricampeão europeu e voltará para a Itália com duas Bolas de Ouro. No mínimo. O primeiro passo é ganhar um lugar na equipe. Camacho começa a temporada armando o Real Madrid com três zagueiros e apenas Figo, Zidane e Beckham no meio-campo. Raúl e Ronaldo no ataque. Totti no banco.

Totti no banco. Algo para se acostumar. Entrou no segundo tempo das primeiras partidas, geralmente no lugar de Ronaldo, mas também no de Figo ou Zidane para jogar mais recuado. Sem volantes, precisava se dedicar com afinco à marcação, algo que não fazia mais ou menos desde 1985. Os resultados não foram muito bons. Quatro gols em apenas cinco partidas pela liga espanhola, três vitórias, todas por 1 a 0, e duas derrotas. Na Champions League, perdeu do Bayer Leverkusen, por 3 a 0. Um começo abaixo das expectativas também para Totti. Fez o gol decisivo contra o Osasuna e descontou contra o Athletic, mas contraiu uma leve lesão muscular na coxa que o deixaria afastado por duas semanas.

Totti não achou tão ruim porque o destino havia sido cruel. Na sua primeira, e até agora, única temporada fora da Itália, as bolinhas da Uefa sortearam a Roma para o grupo do Real Madrid na Champions League. Em poucos meses, o eterno capitano romanista já teria que enfrentar o seu ex-clube. Mas não no primeiro jogo, em casa, graças a essa conveniente lesão. O problema: teria que ser na volta, em pleno Olímpico. Pensando bem, talvez fosse melhor jogar no Bernabéu de uma vez para acostumar a torcida italiana com a visão de Totti usando a camisa do time adversário.

De qualquer maneira, essa era uma questão para dezembro. Havia coisas mais urgentes antes de pensar na sua volta para casa, possivelmente como vilão. A lesão o havia feito perder mais espaço no elenco do Real Madrid, no momento em que Camacho deu uma acertada na equipe, voltou à linha de quatro na defesa e conseguiu melhorar o desempenho ofensivo a ponto de fazer 6 a 1 no Albacete antes de pegar o Barcelona no Camp Nou. Recuperado, Totti foi finalmente para o banco de reservas no Superclássico e entrou, aos 38 minutos, no lugar de Raúl, com o placar já em 3 a 0 para os caras. Ouviu de Camacho: “Faça o que puder”.

Marcado por Puyol, o primeiro domínio veio junto com uma pancada na coxa, na que estava machucada. Tentou um passe e foi novamente desarmado com rigidez pelo capitão do Barcelona. Estava ficando irritado. Errou um chute fácil, daqueles gols que ele marcaria de olhos fechados no Olímpico, e a frustração apenas cresceu. Não entendia direito o motivo. A partida já estava perdida. Talvez quisesse provar a alguém, provavelmente a si próprio, mesmo naqueles dez minutos, que poderia ser titular do Real Madrid. Mas, quando recebeu a terceira entrada dura de Puyol, perdeu a cabeça. Deu um carrinho violento por trás no zagueiro catalão, que levantou para tirar satisfação. Cenas lamentáveis. Totti foi expulso, cartão vermelho direto.

Voltou ao vestiário e recebeu a companhia dos colegas de time logo em seguida, já que fora expulso a menos de dois minutos do fim. Casillas estava possesso. Gritava, falava em madridismo, imagem dos jogadores e outras coisas indecifráveis, em um espanhol rapidíssimo. Raúl, outro líder de vestiário, parou de falar apenas quando Totti respondeu aos xingamentos com gestos que não podem ser descritos antes das 10 horas da noite. Quem conseguiu acalmar os ânimos foi Zidane, que em bom italiano disse ao novo contratado que ele não chegaria a lugar nenhum brigando com baluartes do Real Madrid.

Totti calou-se. Mas, por dentro, estava revoltado. Nunca foi santo em Roma, mas sempre encontrou compreensão nas suas falhas, tanto dos companheiros quanto dos colegas e da comissão técnica. Compensava, claro, com uma dezena de gols. Ainda não havia conseguido fazer isso no seu novo clube, nem conquistar o respeito que precisava para ser ele mesmo. Começou a pensar que talvez nunca conseguisse. Poderia ser difícil demais. Poderia até ser inútil e sem propósito, considerando que a alguns quilômetros ao leste já existia tudo aquilo que ele necessitava.

O camisa 11 ficou automaticamente suspenso da rodada seguinte, contra o Levante e continuou no banco de reservas no empate sem gols contra o Villarreal. A partida que ele mais temia era a próxima: a Roma, no Olímpico, um confronto direto por vaga nas oitavas de final, já que o Leverkusen liderava o grupo com folgas e o Dínamo Kiev havia ficado para trás. Não queria de jeito nenhum entrar nessa partida. Queria sequer ir à Itália, mas não tinha jeito. Era um profissional, um bom profissional, e não poderia fugir das suas responsabilidades.

O terror começou logo no desembarque no aeroporto de Fiumicino. A torcida da Roma compareceu em peso para recepcionar o seu ex-ídolo, que teve que ser escoltado até o ônibus do Real Madrid. Moedas voavam de todos os lados, havia faixas retratando-o como Judas e gritavam “traditore” em voz muito alta. O coração de Totti foi ao chão. Esperava mais compreensão e menos raiva, mas sabia também o atacante que a linha que separa a paixão do ódio é muito frágil e sua transferência para o Real Madrid havia cortado-a completamente.

Foi uma sensação estranha preparar-se para a partida no vestiário dos visitantes do Estádio Olímpico, embora os funcionários tenham feito questão de cumprimentá-lo avidamente e tratá-lo como nos velhos tempos. Bateu saudade. Muita saudade. Ainda mais quando a torcida da Roma começou a cantar a plenos pulmões nas arquibancadas. Queria sentir aquilo de novo, queria aquele carinho. Sorte que provavelmente não entraria em campo mais uma vez. Estava sem moral com o técnico Camacho e com o elenco.

O destino, porém, não perdoa. A partida caminhava para um 0 a 0 que eliminaria o Real Madrid já na fase de grupos da Champions League, um desastre sem precedentes, já que a Roma tinha a vantagem do empate. Ronaldo sentiu o joelho por volta dos 20 minutos do segundo tempo, e Camacho não tinha outra opção. Sob vaias estrondosas, como se o imperador tivesse acabado de condenar um gladiador à morte, o que de certa forma era verdade, Totti entrou em campo contra a Roma.

A partida arrastou-se travada por mais alguns minutos até que Roberto Carlos apareceu na esquerda, depois de uma boa trama com Zidane, e cruzou na segunda trave. Totti apareceu veloz nas costas de Mexès. Não acreditava. Faria o gol da vitória sobre a Roma. Marcaria contra o seu ex-time. Eliminaria o seu ex-time. Não conseguiria recuperar a idolatria depois disso. Era Totti, o capitão, o ídolo, fazendo um gol na Roma. Não tinha como simplesmente deixar a bola passar. Seria execrado também pela torcida do Real Madrid, pela imprensa, pelos críticos. Pelo seu próprio senso de profissionalismo. Precisava fazer o gol. De qualquer maneira, precisava fazer o gol. Acompanhou a trajetória do cruzamento e emendou um chute de primeira com a perna direita, bem ao seu estilo. A bola dirigia-se ao ângulo sem nada para impedi-la.

Seu coração batia acelerado, rápido o bastante para fazê-lo acordar assustado ao lado da futura esposa, na sua casa em Roma. Estava suando, ofegante, com a sensação de ter acabado de desviar de uma bala. Conseguiu regular a respiração, e sem fazer barulho para não acordar sua mulher, levantou-se e foi em direção à varanda. Eram 3h42 da manhã. Admirou Roma à distância, as ruas que sabe de cor, os prédios que tanto conhece e o iluminado Coliseu. Respirou fundo, absorveu o ar da capital italiana e soltou aquele suspiro de quem acabou de tomar uma decisão. Voltou para dentro de casa, colocou um pouco de vinho no copo, sentou-se ao sofá da sala e pegou o telefone para falar com seu empresário. Foi uma conversa curtíssima, em que Totti disse apenas quatro palavras antes de desligar.

– Diga não a Florentino.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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