Champions League

As lágrimas de Gabi, um monstro na final, um capitão que merecia a Champions

Para quem atravessou quase a vida inteira no Vicente Calderón, a final da Champions League possuía um valor ainda maior. Pela segunda vez, Gabi teve a chance de ser o encarregado por erguer a taça aos colchoneros. E não deixou de lutar por um instante sequer ao longo dos 120 minutos decisivos. O capitão do Atlético de Madrid protagonizou uma atuação monstruosa em Milão. Mas, ao final, caiu em um choro cheio de sinceridade, abraçado a Diego Simeone depois do segundo fracasso diante do rival Real Madrid.  Lágrimas que, ao invés de demérito, ressaltam a grandeza do camisa 14. Levam ao reconhecimento merecido por tudo o que jogou.

Nascido em Madri, Gabi chegou à base do Atleti na adolescência. Estreou no time titular em 2003, aos 20 anos de idade. E, ainda que tenha passado por Getafe e Zaragoza, não deixa de ser uma bandeira dos colchoneros. Voltou para casa em 2011, durante uma temporada que se revelou transformadora no Vicente Calderón. O meio-campista logo ganhou a braçadeira de capitão e não demorou a se tornar uma grande liderança de Simeone, contratado como técnico em dezembro daquele ano. Sob as ordens do argentino, Gabi levantou as taças da Liga Europa e da Supercopa Europeia nos meses seguintes. Antes de se consagrar também na Copa do Rei de 2012/13 e no Campeonato Espanhol de 2014/15.

Por toda a sua experiência, Gabi ascendeu como influência em um time de jovens. Por sua postura enérgica, parecida mesmo com Simeone em seus tempos de jogador, o meio-campista virou o representante natural do treinador, no cérebro e no coração. E, por sua trajetória com a camisa rojiblanca, fica difícil encontrar alguém que quisesse mais a taça da Champions do que ele. Afinal, o veterano sabe a representatividade da conquista para um clube que passou à sombra dos rivais por tantas décadas. O troféu nada mais é do que um símbolo de libertação para os colchoneros, dando continuidade ao processo que começou em 2013, com o fim do jejum de 14 anos justo na decisão da Copa do Rei.

Assim, a vontade de Gabi foi notável durante toda a partida. O estilo de jogo do camisa 14 não o torna alvo de elogios constantes. Mas, em uma noite na qual o futebol não era exuberante, as virtudes do meio-campista se escancaravam. A tranquilidade para conduzir o jogo a partir da defesa. A capacidade para descolar belíssimos passes, como o que iniciou a jogada do gol de empate, levantando a bola para Juanfran. A raça de quem transforma um desarme perfeito tão belo quanto um chute no ângulo. A garra de, mesmo aos 32 anos, puxar ataques e não sucumbir diante de todo o desgaste da prorrogação – acumulando mais de 14 quilômetros percorridos no gramado do San Siro.

Já nos pênaltis, Gabi não se escondeu da responsabilidade. Fez uma cobrança segura como poucos, enchendo o pé no alto para vencer Keylor Navas. Bateu com a força que se espera de um capitão que é pura garra. Mas, depois, não pôde reagir de outra forma a não ser desabar em lágrimas. Ganhar o abraço que não queria de Simeone: o de consolação, e não o de comemoração. Mais uma vez, a vitória libertadora não se concretizou.

Por fim, ninguém representou melhor o espírito que se pede ao Atlético de Madrid do que Gabi. A faixa que se ergueu nas arquibancadas do San Siro, “Teus valores nos fazem acreditar”, parece ter se incorporado sobre o capitão. No futebol, porém, nem sempre o suor derramado se faz suficiente. Mas, que a recompensa por isso não tenha vindo no prateado do troféu, o esforço nunca é em vão, graças ao respeito e a admiração cultivados nas arquibancadas. A final em Milão certamente aumentou a idolatria por Gabi no Vicente Calderón.

gabi

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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