Champions League

[Arquivo] As histórias cruzadas de Atlético e Real, símbolos de uma cidade

A final da Liga dos Campeões de 2016 é a segunda da história a colocar, frente a frente, dois clubes da mesma cidade. E, de novo, será protagonizada por Real Madrid e Atlético. Mas a dupla da capital vai muito além de representar uma das maiores rivalidades da Espanha. É o duelo de semelhantes, nascidos a alguns quarteirões de distância e que cresceram juntos. Brigaram e andaram de mãos dadas, venceram e foram vencidos, foram aliados e alheios ao poder. Os dois clubes que decidirão quem manda na Europa.

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Algumas diferenças são óbvias. O Real Madrid, clube mais rico e um dos mais vitoriosos do mundo, contra o Atlético de Madrid, vizinho da periferia. Porém, são muito mais profundas e não se limitam apenas a uma visão superficial. Estão nas raízes de ambas as equipes, em suas origens, e também em seus desenvolvimentos. Uma história de 114 anos, que repetirá seu capítulo mais importante nesta temporada.

Abaixo, reproduzimos e atualizamos texto de maio de 2014, mostrando os pontos em comum na história de ambos os clubes finalistas da Champions.

Os primeiros passos e o início da rivalidade

O Madrid Football Club foi o primeiro dos rivais a surgir. Fundado por estudantes em 1902, o clube logo se tornou a principal referência do esporte que crescia na Espanha. Uma de suas primeiras ações foi organizar a Copa de la Coronación, para celebrar a maioridade do Rei Alfonso XIII. O torneio inspirou a Copa do Rei, que teve sua primeira edição em 1903. Na decisão, o Madrid recebeu o Athletic Club de Bilbao e foi para o intervalo vencendo por 2 a 0, mas tomou a virada no segundo tempo, em um épico que acabou causando grande comoção na comunidade basca da capital.

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Foi o ponto de partida para a criação de um clube que acolhesse jogadores e torcedores bascos em Madri: o Athletic Club de Madrid. A fundação do clube contou mesmo com a participação de membros do Madrid Football Club, incluindo o seu presidente, Julián Palacios. Entre os jogadores que formariam a nova equipe, também outros que deixavam os blancos, como o goleiro Manuel Rodríguez Arzuaga, primeiro capitão do Atleti.

Como uma mera filial do time de Bilbao, o Athletic Madrid sequer podia participar da Copa do Rei. Entretanto, começou a nutrir a rivalidade com o Madrid a partir de 1906, com o primeiro duelo entre os clubes. A emancipação do Athletic Madrid aconteceu a partir de 1913 e um dos principais sinais dessa nova era foi a abertura do Campo de O’Donnell, o segundo estádio de sua história. Foi batizado por causa do nome da rua onde estava localizado. Que também abrigava o Estádio de O’Donnell, inaugurado pelo Madrid semanas antes. A partir daquele momento, os vizinhos também passaram a se tornar adversários frequentes.

O desligamento da matriz em Bilbao também autorizava o Athletic de Madrid a disputar a Copa do Rei. Para tanto, precisava conquistar o direito de representar Castela no torneio nacional. Foi quando os embates com o Madrid se tonaram recorrentes. Os blancos mantinham a hegemonia regional, graças à força que estabeleceram durante a década anterior e o apoio que tinham da comunidade madrilena. Era o principal clube da capital, bastante popular, mas também chancelado pelas elites. O Athletic, por sua vez, tinha raízes mais próximas aos trabalhadores e aos migrantes que moravam em Madri. A partir daquele momento, tinham o direito de desafiar também os poderosos.

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O domínio do Madrid era marcante durante a década de 1910. Foram cinco títulos do Campeonato Regional Centro, além de uma conquista e dois vice-campeonatos na Copa do Rei. A relevância fez os blancos receberem do Rei Alfonso XIII o título de “real” a partir de 1920, e assim adotaria no nome a partir de então: Real Madrid. Mesmo período em que o Athletic de Madrid se desvinculava de vez de Bilbao e passava a mostrar sua força nas taças castelhanas. Em 1920/21, os rojiblancos conquistaram o Campeonato Regional Centro e foram vice-campeões da Copa do Rei. A partir daquela temporada, só em duas oportunidades até o final da década de 1920 os dois grandes de Madri não fizeram a decisão da competição.

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A importância fez com que Real Madrid e Athletic de Madrid se tornassem os representantes da capital na recém-criada La Liga, que teve sua primeira temporada disputada em 1929/30. Eram as forças de Madri que se uniam contra o País Basco e a Catalunha, regiões mais industrializadas do país e que tinham raízes mais fortes no futebol. Os desafios entre blancos e rojiblancos eram menores diante da disputa contra Athletic Bilbao e Barcelona, duas potências nacionais naquele período.

Os madrilenos durante o franquismo

Durante a década de 1930, a Espanha foi dividida pela crise política que culminou na Guerra Civil. A partir de 1936, La Liga foi suspensa por causa do conflito. O que não impediu os duelos entre Real Madrid e Athletic de Madrid em amistosos. Um deles, disputado logo nas primeiras semanas da guerra, era realizado em favor das milícias republicanas, mas acabou suspenso pelas forças que acabaram tomando o poder a partir de 1939. Era o início da ditadura de Francisco Franco, que se manteria no país até os anos 1970.

Os dois clubes foram diretamente afetados durante o início do regime. O Madrid teve que tirar o Real de seu nome, em desvinculação com a monarquia. Além disso, seu presidente durante o período republicano, Rafael Sánchez Guerra, de ideologias contrárias ao franquismo, foi destituído do cargo e preso, precisando se exilar na França. Já o velho estádio de Chamartín havia sido reduzido a escombros. Já o Athletic de Madrid perdeu membros, mortos no conflito. A crise assolou o clube com o armistício, sem jogadores e uma enorme dívida. Acabou fundido com o Aviación Nacional, time criado pelo exército durante a Guerra Civil e que o poder central queria que participasse de La Liga.

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Nascia naquele momento o Athletic Aviación, instrumento do franquismo. A ditadura contaria com um time popular, ligados à massa, um de seus anseios para tentar se legitimar. Logo na primeira temporada, em 1939/40, o clube recém-fundido ascendeu à elite do Campeonato Espanhol e conquistou o bicampeonato nacional. Além de ter os gastos bancados pelo regime, também tinha o “direito” de recrutar os jovens jogadores em idade para o serviço militar. A ligação do Atlético (que adotou a versão espanhola de seu nome também por determinação de Franco) com a aeronáutica se rompeu em 1946, já depois do fim da guerra, sem a hegemonia que a ditadura esperava. O Atlético Aviación se transformava definitivamente em Atlético de Madrid.

Durante o mesmo período, o Madrid passava por sua reconstrução. Em 1943, sua presidência foi assumida por Santiago Bernabéu, ex-jogador e ex-treinador merengue, de tendências conservadoras e que havia militado com as forças pró-franquismo durante a Guerra Civil. Os episódios em que forças ligadas ao regime passaram a intimidar os adversários madridistas passaram a existir. O fato é que, publicamente, Bernabéu nunca declarou seu apoio a Franco, ainda que tenha se aproveitado da situação e que Raimundo Saporta, seu braço direito, tivesse ligações sabidas com o alto escalão.

Não foi o único. Com o fim do projeto do Aviación, o futebol passou a ser usado pela ditadura para manobrar os descontentamentos e manter o controle sobre a população. O Madrid foi beneficiado na construção de Chamartín e na aquisição de Di Stéfano.  Mas mesmo os outros clubes também tiveram suas facilitações do poder central – como o próprio Barcelona, na aquisição de Ladislao Kubala, que se refugiou na Espanha para fugir do comunismo húngaro e teve seu visto acelerado pelo franquismo.

O Atlético de Madrid voltou a ser bicampeão espanhol em 1949/50 e 1950/51, liderado pelo técnico Helenio Herrera e pelo craque Larbi Ben Barek. Naquele período, também se originava o grande time do Real Madrid forjado por Bernabéu. Os merengues encerraram o jejum de duas décadas sem conquistar La Liga em 1953/54, mesmo ano em que passaram a contar com Alfredo Di Stéfano. Sob o talento da Flecha Loira, os madridistas conquistaram quatro vezes o Campeonato Espanhol na década de 1950 e iniciaram uma era na recém-criada Copa dos Campeões. O sucesso internacional acabou usado pelo General Franco, figura frequente nos jogos em Chamartín. Era uma forma de tentar demonstrar o poderio de sua ditadura.

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Com a complacência do regime, o Real Madrid tornou-se a grande potência nacional a partir daquele momento. Ainda assim, o Atlético seguia como uma das maiores forças. Os blancos foram pentacampeões espanhóis entre 1961 e 1965, mas tiveram a sequência quebrada pelos colchoneros. A queda de Franco não teve significado para os clubes. Influência maior aconteceu com a derrota do Atleti na decisão da Liga dos Campeões de 1974, considerada um trauma gigantesco na história do clube, que ganhou a pecha de sofredor.

A partir daquele momento, o abismo entre os rivais aumentavam. O Real se mantinha como poderoso, dominando os campeonatos nacionais e brigando por taças continuais. Enquanto isso, os colchoneros se limitavam a conquistas eventuais. É a história moderna do clássico, com os holofotes geralmente voltados ao Bernabéu e as alegrias sendo raras no Calderón. O Barcelona assumiu definitivamente o posto de grande rival do Real. Os 14 anos de jejum do Atleti no dérbi, entre 1999 e 2013, representa bem essas diferenças, explicadas também pelo fortalecimento dos merengues como uma grife de futebol e da crise que afetou os rojiblancos.

No entanto, a final da Copa do Rei de 2013, justamente na quebra deste jejum, pode ser considerada um marco. Na ocasião, o Atlético derrotou o Real em pleno Bernabéu por 2 a 1. O triunfo só veio na prorrogação e contou com uma atuação monstruosa de Thibaut Courtois, mas ajudou a transformar o desequilíbrio do dérbi. A partir de então, em 16 confrontos, os colchoneros venceram sete e perderam três. Entre as vitórias, a histórica goleada por 4 a 0 em fevereiro de 2015. Todavia, uma das derrotas aconteceu no encontro mais importante, a final da Champions de 2014, com os 4 a 1 do time de Carlo Ancelotti. Agora, a revanche cai no colo dos rojiblancos.

Os ídolos que vestiram as duas camisas

Ver um antigo jogador vestindo a camisa rival nunca foi o melhor sentimento para as torcidas de Atlético e Real Madrid. Ainda assim, apenas isso não é motivo para que sejam hostilizados, considerados traidores. Afinal, um dos maiores símbolos do madridismo foi rojiblanco durante a juventude. Da mesma forma como uma lenda colchonera vestiu a camisa dos blancos no início da carreira. Raúl González e Luis Aragonés, ídolos inegáveis para os dois clubes, representam bastante a história compartilhada dos grandes de Madri.

Aragonés passou pelo Bernabéu durante os anos mais gloriosos dos merengues, no final da década de 1950, mas como mero coadjuvante. Por duas temporadas, o jovem atacante pertenceu ao Real Madrid. A concorrência de Di Stéfano, Puskás, Kopa e outros gênios sequer deram espaço ao garoto no time principal. Depois de rodar, emprestado a outros clubes, foi contratado pelo Oviedo. Estourou mesmo com o Betis, de onde acabou levado pelo Atleti. Para tornar a camisa rojiblanca sua segunda pele e conquistar três Ligas. Ao pendurar as chuteiras, após a decepção na final da Champions de 1974, logo assumiu a prancheta. Um dos técnicos mais vitoriosos da história do Vicente Calderón, responsável também por tirar o clube da segunda divisão em sua terceira e última passagem pelo banco de reservas, entre 2001 e 2003.

Já Raúl foi perdido pelo Atlético ainda na adolescência. A esperança de uma família fanática pelos colchoneros, o garoto entrou para as divisões de base do clube nos infantis, após rodar por equipes menores da capital. Logo se tornou destaque, conduzindo a equipe ao título nacional da categoria. O problema é que a fase financeira dos rojiblancos começou a minar o futuro da promessa. Primeiro, ao não cumprir a promessa que fez, de pagar os estudos e oito mil pesos por mês ao seu pupilo. Depois, pela decisão do presidente Jesús Gil em fechar as categorias de base para sanar as dívidas do clube. A carta branca para que Raúl seguisse ao Real Madrid quando tinha 15 anos. A maior revelação merengue das últimas décadas, na verdade, tem raízes rojiblancas. Que não lhe impediram de marcar o primeiro gol da carreira justamente contra o Atleti, ou de simbolizar a segunda era mais vitoriosa dos madridistas.

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As duas maiores bandeiras de uma história de 80 anos de transferências entre os dois rivais. O pioneiro foi Eduardo Ordónez, que trocou o blanco pelo rojiblanco em 1932/33. Na década de 1960, Ramón Moreno Grosso passou uma temporada no Atleti antes de se tornar o substituto de Alfredo Di Stéfano no Real. O veterano Bernd Schuster virou a casaca para marcar um dos gols do título contra os merengues na final da Copa do Rei de 1992, consolação para os colchoneros após perderem o artilheiro Hugo Sánchez para os vizinhos nos anos 1980. Juanito se tornou ídolo do Real Madrid após militar na base do Atlético, o contrário do que aconteceu com Caminero, um dos heróis de La Liga 1995/96 ao lado de Simeone.

Dos jogadores que disputarão a final da Champions, apenas três vestiram ambas as camisas. Dois saíram do Santiago Bernabéu, sem chances no início da carreira, e pouco tempo depois chegaram ao Vicente Calderón. Filipe Luís passou apenas um ano no Castilla, enquanto Juanfran rodou por empréstimos antes de deixar os merengues em definitivo. Já Saúl sequer se aproximou dos profissionais no Real, trocando o clube pelo Atleti aos 14 anos. Hoje, representam também as diferenças entre um time de galácticos e outro de achados.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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