Champions LeagueEuropa

Brasileiro do Malmö sonha com a seleção sueca, Ibra e título da Champions

O rei não oficial da Suécia compareceu à inauguração de uma academia, mas o contato foi muito breve. Como muitos suecos e cidadãos de várias nações ao redor do mundo, Ricardinho quer conhecer melhor Zlatan Ibrahimovic, o grande ídolo da cidade de Malmö, onde joga desde 2009. A oportunidade para isso pode vir da melhor maneira possível: com uma convocação para a seleção sueca.

LEIA MAIS: O lado humano de Ibrahimovic: craque se emociona ao falar da morte do irmão

O curitibano, ex-Coritiba e Atlético Mineiro, admite que ainda não houve contato com o técnico Erik Hamrén, mas a imprensa voltou a questionar se ele estaria interessado agora que conseguiu a nacionalidade do país. A fase também ajuda. No começo de outubro, sagrou-se tricampeão sueco pelo Malmö, somando mais uma conquista às de 2010 e 2013.

O jogador de 30 anos ajudou o time a passar pelas fases preliminares da Liga dos Campeões, e o time vem fazendo um papel decente no grupo A: contra Atlético de Madrid e Juventus, foi mal apenas na Espanha, onde foi goleado por 5 a 0, mas venceu o Olympiakos e sonha com a classificação às oitavas de final. “No início, claro, nossa meta é ser campeão, mas sabemos que é super difícil. A primeira parte é conseguir a classificação”, afirma em entrevista à Trivela.

Ricardinho contribui com essa meta na parte defensiva. Trocou as subidas constantes ao ataque que eram sua característica principal no Coritiba, pelo qual marcou 13 gols em 205 partidas, pelos desarmes. Em um número quase igual de jogos, foi às redes apenas três vezes desde que chegou à Suécia e já se sente completamente adaptado à nova função.

Também está à vontade em Malmö, cidade de quase 300 mil habitantes, muito próxima à Dinamarca. Espantou-se com a educação do povo, com a organização e com a segurança o bastante para aguentar os hábitos alimentares um pouco diferentes em relação ao Brasil. Gostaria de ficar na Suécia, mas seu contrato expira agora em dezembro e a renovação ainda não está tão bem encaminhada. “Se der para eu ficar, eu fico, sem problemas, sou muito grato ao Malmö. Mas se eu tiver que sair, faz parte da profissão. Às vezes não chegamos a um acordo”, conclui.

Como foi ser três vezes campeão sueco pelo Malmö?

Foi nota 10. Porque uma coisa que acontece muito, em vários lugares, é a acomodação, pelo fato de já ter ganhado o campeonato no ano anterior. No segundo ano é mais difícil manter o nível, mas as coisas andaram bem certinhas. Trocamos de treinador (o local Rikard Norling pelo norueguês Age Hareide). Trouxeram um novo treinador, com uma nova mentalidade. Conseguimos assimilar rápido. Ele exigiu mais de nós. Até nos surpreendemos. Mantivemos o mesmo foco, dois ou três jogadores saíram, e eles conseguiram contratar reforços cruciais. Entendemos a mentalidade do treinador e conseguimos manter o título. Ano passado, vencemos com três rodadas de antecedência, este ano também. Sabíamos que seria difícil, até pelo que fizemos ano passado. Graças a Deus correu tudo bem. Duvidaram que conseguiríamos a Champions League e conseguimos também.

Qual que é a meta para a Champions League?

No início, claro, nossa meta é ser campeão, mas sabemos que é super difícil. A primeira parte é conseguir a classificação. E se nos classificarmos em primeiro ou segundo, depois é um novo objetivo. Estamos indo por partes mesmo.

Qual a diferença entre Atlético e Juventus? Qual é mais difícil?

Eu não joguei o primeiro jogo, estava machucado, contra a Juventus. Mas pelo que eu vi de fora, e pelo que eu joguei contra o Atlético, acho que o Atlético é um time superior ao da Juventus. Eles conseguem trabalhar mais em conjunto, têm um grupo mais forte, no geral. A Juventus dá mais espaço para nós jogarmos e nós não soubemos aproveitar. O Atlético dava a impressão de que poderíamos pressionar, mas o conjunto do Atlético é um pouco superior ao da Juventus. São grandes jogadores, com níveis de seleção.

Por que você faz poucos gols?

Jogamos mais em uma linha de quatro. Eu tive um pouco de dificuldade quando vim para cá para me adaptar. No Brasil, eu jogava no 3-5-2, era praticamente um ponta. Batia lateral com lateral. Aqui sou mais zagueiro mesmo. A minha obrigação no time é praticamente defender. Temos tentado juntar os dois, mas fiquei mais longe do gol.

Quais são suas características?

No Brasil, eu jogava no 3-5-2, como se fosse um ponta, era muito ofensivo. Entrava na área, como se fosse um elemento surpresa, tinha característica de velocidade, um bom passe. Dependendo do jogo, finalizava mais, às vezes cruzava mais. Dependia do que o treinador pedia. Eu poderia entrar pelo meio, como se fosse um meia. A minha principal função era chegar à área, concluir a gol e ser mais ofensivo. Atualmente, eu tenho que guardar mais o meu setor. Não somos muito de marcar homem a homem, aqui a marcação é por setor. Eu tenho que tomar cuidado com o lateral que está vindo. Acho que na parte defensiva evoluí bastante em comparação ao Brasil. Eu ainda consigo manter a parte ofensiva, vou para o ataque, mas não com tanta frequência como antes.

Você está sendo cotado para ser convocado à seleção sueca?

Quando eu vim para cá, meu propósito era ficar dois, três anos, no máximo, e tentar ir para um clube maior, uma liga maior. Eu fui me adaptando, o pessoal foi gostando, e houve uma parte da imprensa que começou perguntar se eu tinha isso como meta. Na época, o lateral esquerdo da seleção sueca não estava tão bem. Eu vejo como gratificante. No começo, eu tinha a intenção de sair. Depois, eu fui mudando minha ideia. Estou tentando me firmar aqui e colher os frutos do que fui plantando durante o período.

Já houve algum contato com o treinador?

Eu vou até te contar como surgiu a história. Eu fui dar uma entrevista e não entendia muito bem o sueco, meu inglês era apenas razoável, e o jornalista disse que mostraria algumas fotos de celebridades suecas. Chegou uma foto do treinador da seleção sueca (Erik Hamrén) e disse que esse eu conhecia. “Sério? Qual o nome dele?”, o repórter perguntou. E eu falei: “esse é meu futuro treinador”. Brinquei que jogaria na seleção sueca. Ele perguntou se eu tinha mesmo esse interesse, disse que eu estava em bom nível e que o lateral esquerdo não estava muito bem. Então surgiu a história, mas na época eu não tinha nem o passaporte. Eu tinha que esperar dois, três anos, e nesse tempo muita coisa poderia mudar. Interesse eu tenho, seria muito bom para mim, para minha visibilidade, para minha carreira. Agora eu peguei o passaporte e começaram a questionar de novo, mas da parte da seleção sueca, não houve nada ainda.

O que você acha dessa história de naturalizar jogadores?

Não podemos pegar todos os jogadores, colocar dentro de uma caixinha e tentar limitar isso. Há jogadores que praticamente não jogaram no Brasil. Às vezes, esses jogadores cresceram em outros países, desenvolveram-se em outros países. Todos têm, eu tenho também, essa meta de jogar na seleção brasileira, defender o meu país, mas a Suécia abriu as portas para mim. Já moro há seis anos aqui. Sou brasileiro, não vou negar minha nacionalidade, mas tive uma oportunidade de trabalho. Fui acolhido aqui, então acho que é válido.

Você se sente sueco?

O meu sueco não é tão bom para cantar o hino. Não posso falar que já me sinto sueco. Conheço muitos brasileiros. Fico mais com eles. Quando cheguei aqui, o clube tinha muitos estrangeiros. Nos primeiros anos, falei praticamente apenas inglês. Eu entendo bastante coisa (de sueco). Quando dificulta para mim, eu resolvo no inglês. Estou tentando aprimorar. Já existe a possibilidade de eu ficar mais tempo aqui, minha esposa está estudando sueco, minha filha está na escola sueca. Estou tentando não esquecer aquilo que aprendi no Brasil e tentando adquirir novos conhecimentos da cultura sueca. Tentando assimilar aquilo que é bom na Suécia e aquilo que é bom no Brasil. Tentando mesclar um pouco dessas duas culturas.

Ricardinho adotou uma postura mais defensiva na Suécia (Foto: Divulgação)
Ricardinho adotou uma postura mais defensiva na Suécia (Foto: Divulgação)

O que é bom na Suécia?

Praticamente tudo. Eu só conhecia o Brasil, então, para mim, quando vim para cá, foi tudo novo. Em relação à educação, não que no Brasil não tenha pessoas educadas, mas de modo geral aqui é muito mais evoluído. A economia, a política. Vejo muitas pessoas questionando a corrupção do Brasil. Aqui também tem, mas é menor. A segurança também é excepcional. Eu moro em uma casa. Minha casa não tem muro. As pessoas passam pela rua, eu deixo as minhas coisas no lado de fora, não me preocupo com nada. A comida para mim foi super difícil. Eu lembro que a primeira vez que fui ao hotel me concentrar para jogar serviram macarrão, carne moída, leite e pão. Tinha um outro brasileiro comigo e eu perguntei: “onde eu pego Coca? Sprite?”. Ele falou: “aqui é só água com gás e leite”. Para mim isso era uma loucura. Mas fui me adaptando, fui aprendendo. Tem comida para mim na Suécia que é excepcional, mas é mais simples. No Brasil tem arroz, feijão, salada, talvez uma batata, uma carne, um refrigerante. Na Suécia, é uma comida mais objetiva. Se você tem arroz, não precisa da batata. Eles usam bastante molho. Em relação os treinos, a cultura é diferente. É curto e mais intenso. A pré-temporada, a organização, tanto da cidade, das pessoas, muitas coisas me surpreenderam.

Como que é a cidade?

É uma cidade bacana. É uma cidade pequena, em comparação com as do Brasil. Tem 300 mil habitantes. É um país antigo, então tem a parte histórica e a parte nova. Tem um prédio em espiral, super bacana, e a ponte que foi feita para ligar a Suécia à Dinamarca. Quando queremos uma cidade maior, algo mais movimentado, vamos à Copenhague, que fica a 20 minutos de carro. É a terceira maior cidade da Suécia. Tem muitas pessoas da Dinamarca que trabalham aqui, que moram aqui. O custo de vida é menor, as coisas são mais baratas. A ponte foi construída para facilitar a transição desses dois países.

Como é a idolatria a Ibrahimovic?

É enorme. É um dos maiores ídolos que têm na Suécia, se não for o maior. Na parte de música, tem o Abba que é sueco, mas isso já foge do meu conhecimento. Na parte do esporte e do futebol, é incomparável. Comentei com alguém que ele é o nosso Pelé. A seleção sueca é diferente quando ele está junto. A idolatria em relação à seleção sueca quando ele está junto é diferente. A torcida se sente mais confiante quando ele está perto.

Está ansioso para conhecê-lo, se for convocado?

Eu já tive um contato com ele na inauguração de uma academia, mas foi um contato bem rápido. Mas é diferente treinar com ele, conhecê-lo na concentração. Estou ansioso, mas tento não pensar muito nisso porque pode atrapalhar meu rendimento. O que vai me fazer chegar à seleção são meus objetivos dentro do clube. Eu penso, lógico, não tenho como não pensar nisso.

E o que planeja para futuro?

A minha prioridade era ficar, mas estamos tentando resolver isso agora. Meu contrato termina agora em dezembro. Estamos negociando. Vamos ver o que vai ser melhor. Estamos tendo vários jogos agora, fiquei um tempo machucado de fora, sempre que eu ia renovar acontecia alguma coisa. Falava: não vamos conversar sobre dinheiro agora, tempo de contrato, renovação, prazo. Eu não posso me limitar a um só lugar. Às vezes é bom sair. Nada vai apagar a minha história com o Malmö, a minha história com a Suécia. Hoje não me prendo mais a isso. Tenho que ver o que vai ser melhor para mim, minha carreira, minha família. Conversar muito com a minha família. Se der para eu ficar, eu fico, sem problemas, sou muito grato ao Malmö. Mas se eu tiver que sair, faz parte da profissão. Às vezes não chegamos a um acordo.

Você também pode se interessar por:

>>>> O Ibrahimovic arrogante que você conhece é só uma das facetas do personagem

>>>> Toulouse presenteia Ibra com carta exagerada, camisas e Call of Duty

>>>> Cuidado: marcar Ibra pode ser mais perigoso do que você pensa

>>>> De letra, Ibra escreveu seu nome no topo da história da seleção sueca

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo