Europa

Bélgica x França já foi um amistoso tradicionalmente natalino, que simbolizava a solidariedade

Bélgica e França têm um papel central no desenvolvimento do futebol na Europa continental. As duas nações ajudaram a fundar a Fifa em maio de 1904. Naquele mesmo mês, inclusive, suas seleções iniciaram as atividades e fizeram sua estreia oficial uma contra a outra, em empate por 3 a 3 realizado na região de Bruxelas. E a história que se desenrolou em mais de um século de confronto, apesar dos duelos frequentes, passa longe de sustentar uma rivalidade. Não à toa, os embates entre belgas e franceses ganharam o sugestivo apelido de “Le Match Sympathique” e estão diretamente atrelados ao Natal.

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Em 1944, o amistoso entre Bélgica e França tinha uma importância além do futebol. Aquele era o primeiro confronto entre as seleções desde o início da Segunda Guerra Mundial. Além disso, enquanto os Bleus voltavam às atividades após três anos sem participar de compromissos oficiais, os Diabos Vermelhos encerravam um hiato de cinco anos longe dos gramados. O jogo marcado para 24 de dezembro fazia parte das celebrações pelo fim da ocupação nazista no território francês, após a libertação ocorrida em agosto daquele mesmo ano. Não à toa, a renda obtida com a bilheteria no Parc des Princes ajudaria na reconstrução do país sob escombros. Foi aquele encontro, aliás, que rendeu o apelido de ‘Le Match Sympathique’. Os franceses venceram a partida por 3 a 1, com gols de André Simonyi, Henri Arnaudeau e Alfred Aston – enquanto François De Wael descontou aos belgas já no final.

Os jogadores, aliás, precisaram encarar o frio rigoroso e o cenário devastador provocado pela Segunda Guerra. Foi o que relatou Arsène Vaillant, um dos belgas que fizeram a viagem até Paris naquela véspera de Natal: “Era preciso romper o gelo e o trem que nos levou até Paris não era aquecido, tinha a maior parte de suas janelas quebradas. Esta viagem foi uma verdadeira expedição. Demoramos mais de dez horas até a capital. Pudemos perceber que as condições de vida após a guerra eram ainda piores na França do que em nosso país. No hotel, todos fomos para cama, porque a única maneira de se aquecer era sob as cobertas. Já no Parc des Princes, nosso treinador achou um balde de água quente e só conseguimos jogar depois de mergulhar nossos pés dentro dele. Fomos recebidos quase como heróis. Apesar das condições extremamente dolorosas desta viagem, houve euforia”.

A partir de então, iniciou-se uma breve tradição natalina entre as duas seleções. Foram três amistosos disputados em 25 de dezembro. Bélgica e França voltaram a duelar no Natal em 1952. Diante de 38 mil pessoas no Estádio Olímpico de Colombes, em Paris, os Diabos Vermelhos comemoraram a vitória por 1 a 0. Tocando na saída do goleiro, Jean-Louis Straetmans anotou o gol da vitória contra uma boa equipe dos Bleus, que já contava com o jovem Raymond Kopa. Ao apito final, destaque também à comemoração efusiva dos visitantes, como se fosse uma partida oficial.

Três anos depois, o reencontro entre Bélgica e França se deu no Estádio Rei Balduíno, com 56 mil presentes nas tribunas. E mesmo mais tarimbados, os franceses foram derrotados novamente. Jean Jadot e Hippolyte van den Bosch assinalaram os gols no triunfo belga por 2 a 1, enquanto Roger Piantoni descontou aos visitantes. Já em 1963, o último dos duelos natalinos. Apenas 12 mil compareceram ao Parc des Princes, assistindo à nova vitória da Bélgica por 2 a 1. Principal jogador dos Diabos Vermelhos naquela época, Paul van Himst marcou os dois tentos à equipe treinada por Constant vanden Stock.

A iniciativa não se repetiria mais nestes 55 anos. Bélgica e França se enfrentaram 73 vezes ao todo, incluindo o fundamental duelo nas semifinais da última Copa do Mundo, mas nunca mais o amistoso foi marcado ao Natal. Ficaria a história de solidariedade e amizade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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