Europa

Após dez anos, falência, quarta divisão, frustrações e reconstruções, o Rangers é novamente o campeão da Escócia

O clima era de comemoração no Ibrox Stadium, no último sábado. O “se” havia ficado para trás. Era uma questão de quando. E depois de dez anos, quanto mais cedo, melhor. Após falir, cair para a quarta divisão, assistir ao Celtic enfileirar títulos e recordes e passar anos sem conseguir uma vitória no Old Firm, o Rangers está de volta ao topo da Escócia. Conquistou, neste domingo, o seu 55º título após o empate do maior rival com o Dundee United, por 0 a 0.

Este fim de semana marca o término de uma longa caminhada. A falência jogou o Rangers ao inferno da quarta divisão em 2012/13. Se os dois primeiros acessos foram conquistados com folgas, o terceiro se mostrou mais difícil. Enfrentou uma segunda divisão que contava com os tradicionais Hearts e Hibernian. Em terceiro lugar, precisou enfrentar os playoffs e perdeu para o Motherwell, vice-lanterna da elite.

A promoção não escapou na temporada seguinte e aconteceu quase simultaneamente à chegada de um novo dono, o sul-africano Dave King, que deu ao clube mais segurança financeira. King foi o presidente dos Teddy Bears até ano passado, quando abdicou no começo da pandemia – mas não por causa dela. Sob sua supervisão, a missão do Rangers era voltar a ser competitivo em âmbito nacional, especialmente na eterna disputa contra o Celtic.

Essa demorou mais. Mark Warburton, técnico do acesso, ganhou uma temporada para mostrar o que poderia fazer na primeira divisão: perdeu do Celtic na semifinal das duas Copas e terminou a Premiership em terceiro lugar, a 29 pontos do campeão. Em março 2017, ele foi substituído pelo português Pedro Caixinha, que também não teve vida longa, demitido em outubro.

Pesou bastante a humilhação no retorno às competições europeias. Foi eliminado ainda na primeira fase preliminar da Liga Europa para o Progrès Niederkorn, de Luxemburgo. A temporada foi encerrada por interinos e novamente trouxe decepções em campo. Outras eliminações nas semifinais das Copas e outro terceiro lugar, embora dessa vez um pouco mais próximo do Celtic – 12 pontos.

Para a temporada 2018/19, o Rangers decidiu arriscar com uma figura lendária do futebol inglês, mas que não tinha experiência como treinador do time principal – e, mesmo nas categorias de base, dava apenas os seus primeiros passos. A cartada para enfrentar a hegemonia do Celtic treinado por Brendan Rodgers foi contratar um dos seus ex-jogadores da época de Liverpool: Steven Gerrard.

Gerrard precisou de tempo para aprender os macetes do cargo, mas logo tornou o Rangers pelo menos mais competitivo. Em dezembro de 2018, encerrou o jejum de seis anos no Old Firm com uma atuação dominante no Ibrox. Houve disputa pelo título, mesmo que ele tenha novamente ficado com o Celtic. O duelo entre Gerrard e Rodgers durou apenas até fevereiro, quando o norte-irlandês aceitou sair para o Leicester e foi substituído por Neil Lennon.

Isso ajudou também. Rodgers fazia um trabalho excepcional à frente do Celtic e, embora Lennon tenha conseguido terminar aquela temporada campeão e repetir o feito na seguinte, conquistando a Tríplice Coroa nacional pelo quarto ano seguido, nunca foi unanimidade, supervisionou a decadência dos Bhoys e era um morto-vivo no cargo quando foi demitido no final de fevereiro.

Os problemas do Celtic abriram a porta para o Rangers tirar a diferença. A temporada 2019/20 havia sido de evolução. Provavelmente não teria sido campeão mesmo que o campeonato, interrompida em março por causa da pandemia, tivesse sido disputado até o fim. Mas conseguiu sua primeira decisão de copa desde o acesso e avançou às oitavas de final da Liga Europa.

Preparou-se para dar o salto. Jogadores como James Tavernier, Alfredo Morelos e Ryan Kent fazem ótimas temporadas, todos com mais de 10 gols marcados. A derrota para o St. Mirren na Copa da Liga Escocesa em 16 de dezembro ainda é a única do Rangers em todas as competições. Conduz uma campanha à altura das melhores do passado mais recente do Celtic. Na Premiership, foi absolutamente dominante, com 28 vitórias e quatro empates.

O título era mesmo uma questão de tempo. Após vencer o mesmo St. Mirren por 3 a 0 no último sábado, o Celtic poderia, no máximo, igualar os seus 88 pontos e ainda tinha mais de 20 gols de saldo a menos.

Com o seu primeiro título escocês desde 2010/11 assegurado, o primeiro da vida de Steven Gerrard em uma liga nacional, o Rangers pode se concentrar em ampliar os feitos de uma temporada já histórica. Tem a Copa da Escócia a partir de abril, em busca de sua primeira Dobradinha desde 2008/09, e enfrentará o Slavia Praga nas oitavas de final da Liga Europa.

O Rangers acabou quebrando o seu jejum sem entrar em campo, geralmente uma situação um pouco anti-climática, mas duvido que alguém consiga encontrar um torcedor que está reclamando.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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