Europa

A outra ótima geração belga – parte 1: o profissionalismo e a volta aos grandes torneios

Esta matéria sobre a seleção belga dos anos oitenta e começo dos anos noventa será publicada em duas partes. A primeira nesta sexta-feira, e a segunda, na manhã do próximo sábado. Fique ligado.

Por Emmanuel Do Valle

A chamada “ótima geração belga”, formada pelos talentos surgidos no país europeu nesta década, frequentemente divide opiniões e rende debates acalorados. Para uns, a qualidade dos jogadores é incontestável, independentemente dos resultados, e em breve os Diabos Vermelhos colherão os frutos dela. Para outros, trata-se de jogadores superestimados, que não rendem coletivamente, embora atuem em grandes clubes, e incapazes de justificar as enormes expectativas e levar sua seleção a um patamar superior ao que ocupa. Há ainda os mais velhos, que comparam a safra atual à outra grande geração do país, dos anos 80 e começo dos 90, marcante pelo bom papel desempenhado nas competições internacionais. No entanto, há um equívoco em se referir a aquele grupo de jogadores como uma “geração”. Na verdade, houve mais de uma, que passou por uma sutil renovação ao longo do período mais destacado. Trataremos a seguir da (r)evolução no futebol belga que proporcionou o surgimento daquela equipe e colocou o país de vez no mapa da bola.

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Prólogo: a revolução do profissionalismo nos anos 70

A Bélgica foi um dos últimos países entre os principais da Europa Ocidental a deixar de lado o regime amador. Como consequência, até a década de 1960 tinha como maiores feitos apenas a medalha de ouro nos longínquos Jogos Olímpicos de Antuérpia em 1920 e uma surpreendente goleada de 5 a 1 sobre o Brasil bicampeão mundial (embora desfalcado de Pelé e Garrincha, entre outros), em um amistoso em Bruxelas em 1963. Mas a partir dos anos 70, o futebol belga já era olhado com maior atenção no continente, apresentando evolução notável, especialmente em nível de clubes, com a instituição do profissionalismo integral em 1974. Quatro anos antes, a seleção belga havia participado da Copa do Mundo do México após surpreender nas Eliminatórias, deixando para trás Iugoslávia e Espanha. No Mundial mexicano, porém, a campanha não foi boa, caindo na fase de grupos atrás dos donos da casa e da União Soviética. No mesmo ano, o Anderlecht chegaria às finais da Copa das Feiras, perdendo para o Arsenal.

Dois anos depois da Copa do México, os belgas se classificaram pela primeira vez para a fase final da Eurocopa, após eliminar a Itália, vice-campeã do mundo, nas quartas de final em ida e volta (0 a 0 em Milão e vitória por 2 a 1 em Bruxelas). Indicada como país-sede das finais, perdeu por 2 a 1 para a futura campeã Alemanha Ocidental em Antuérpia e terminou em terceiro ao derrotar a Hungria pelo mesmo placar em Liège. Era uma época em que brilhavam na seleção dirigida por Raymond Goethals nomes como o meia Wilfried Van Moer, o talentoso ponta-de-lança Paul Van Himst e o goleador Raoul Lambert.

Aquela Eurocopa, no entanto, seria a última grande competição que contaria com a presença dos belgas pelos anos 70. Nas Copas de 1974 e 1978 e nas quartas de final das Eliminatórias da Eurocopa de 1976, os Diabos Vermelhos seriam desclassificados três vezes pela rival Holanda. Na primeira delas, aliás, por muito pouco não impediram o mundo de conhecer a Laranja Mecânica de Cruyff e companhia: terminaram invictos no grupo sem sofrer nenhum gol, mas foram eliminados no saldo depois de empatarem os dois confrontos diretos em 0 a 0 – e até hoje reclamam de um gol mal anulado na partida de volta.

Se a seleção se acostumou a ficar de fora dos grandes torneios, os clubes se tornaram forças consideráveis dentro das copas europeias. Em 1976, o Anderlecht faturou a primeira taça continental para o país ao bater o West Ham de Trevor Brooking e de Frank Lampard “pai” na final da Recopa – emendada três meses depois com o título da Supercopa Europeia, com goleada de 4 a 1 sobre o poderoso Bayern de Munique de Beckenbauer, Gerd Müller, Rummenigge e Maier. Enquanto isso, o Club Brugge eliminaria Lyon, Ipswich, Roma, Milan e Hamburgo antes de chegar à decisão da Copa da Uefa contra o Liverpool. Perderam por 3 a 2 em Anfield depois de irem para o intervalo com dois gols de vantagem. E na volta em casa saíram na frente, mas sofreram o empate em 1 a 1. Naquele ano, a Bélgica seria o país que mais pontuou no ranking continental de clubes da Uefa e, nos dois seguintes, ficaria em segundo lugar.

Ainda antes do fim da década, o Anderlecht de Raymond Goethals completaria sua trinca de decisões consecutivas da Recopa perdendo para o Hamburgo em 1977 e goleando o bom time do Austria Viena em 1978 (além de repetir a conquista da Supercopa, dessa vez sobre o Liverpool de Dalglish e Souness). E o Club Brugge, dirigido pelo austríaco Ernst Happel, depois de deixar pelo caminho o Atlético de Madrid e a Juventus ficaria novamente no “quase” diante do mesmo Liverpool na final da Copa dos Campeões de 1978, em Wembley. Naquele período, até clubes de menor porte costumavam aprontar: o RDW Molenbeek, clube extinto do bairro homônimo que, nos dias de hoje, ficou famoso por ser berço de atentados terroristas na Europa, chegou às semifinais da Copa da Uefa em 1977 (despachando Schalke e Feyenoord pelo caminho), enquanto o Beveren eliminou a Inter de Milão antes de cair para o Barcelona na mesma fase, só que na Recopa, em 1979.

O profissionalismo belga, além de abrir as portas do futebol do país para o exterior, também colaborou no sentido inverso: vários jogadores da seleção holandesa reforçavam as principais equipes do país. Rob Rensenbrink, estrela da Laranja, fazia parte do elenco do Anderlecht desde o início da década, recebendo a companhia de Arie Haan, vindo do Ajax, a partir de 1975. Além disso, a Bélgica se tornou chamariz para atletas de países ainda amadores ou semiamadores, como a Dinamarca. Mas a experiência adquirida nas copas europeias e o intercâmbio com os países próximos também ajudaram os belgas a forjarem sua própria grande geração.

Capítulo 1: A volta aos grandes torneios

Comandada desde 1976 pelo técnico Guy Thys, a Bélgica começou de maneira hesitante sua campanha nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1980. Num grupo bastante equilibrado, os Diabos Vermelhos disputavam a vaga com as boas seleções da Áustria (de Prohaska, Krankl e Schachner), da Escócia (de Dalglish, Souness e Archie Gemmill) e de Portugal (de Humberto Coelho, Nenê e Fernando Gomes), além da Noruega, considerada a mais fraca. E foi exatamente diante de um decepcionante empate em 1 a 1 com os noruegueses em casa que a trajetória belga começou. Em seguida, mais três empates: um contra Portugal em Lisboa (1 a 1) e dois contra a Áustria, em Bruxelas (1 a 1) e em Viena (0 a 0). Somente em setembro de 1979 viria a primeira vitória, contra a Noruega em Oslo (2 a 1).

Em outubro, na iminência da partida contra Portugal em Bruxelas, decisiva para as pretensões belgas, Guy Thys surpreendeu ao recorrer a um famoso e veterano jogador local, o meia Wilfried Van Moer, que havia disputado a Copa de 1970 e agora curtia uma semi-aposentadoria no pequeno Beringen. Aos 34 anos de idade, e afastado da seleção há quase cinco, depois de quatro fraturas na perna ao longo da carreira (uma delas no jogo contra a Itália em Bruxelas pelas quartas de final da Eurocopa de 1972), o armador curtia o que imaginava ser seu último ano de bola, dividindo seu tempo com a administração de seu bar na cidade de Hasselt, onde tirava ele próprio os chopes para os clientes e contava histórias.

Mal poderia imaginar que retornaria à equipe nacional para escrever outra ainda maior: marcou o primeiro gol, logo após a volta do intervalo, e comandou a vitória por 2 a 0 sobre os lusos. Os belgas venceriam duas vezes os escoceses em seus últimos jogos – 2 a 0 em Bruxelas e um categórico 3 a 1 no Hampden Park (abrindo 3 a 0 em meia hora de jogo) – e carimbariam o passaporte para a Itália, onde a fase final seria realizada. Ao chegarem para a disputa, já tinham uma equipe base bem consolidada após um longo período de experiências. E se não eram apontados como candidatos à final ou mesmo à disputa de terceiro lugar – caíram em um grupo considerado dificílimo, com os italianos donos da casa, os ingleses e os espanhóis –, eram tidos como uma equipe que daria trabalho.

Para tentar entender como jogava aquela seleção, vão algumas pistas. O desenho tático não chegava a ser inovador, partindo de uma espécie de 4-3-3, podendo se transformar em 4-3-1-2 ou mesmo um 4-4-2. A grande chave era a versatilidade dos jogadores. Não haviam especialistas, jogadores restritos a uma função (como um volante plantado, tipicamente destruidor, por exemplo), em especial no meio e na frente. Os laterais eram bons no apoio. O trio de meias armava e marcava com a mesma eficiência. Os atacantes podiam recuar para buscar jogo, cair pelos lados e aparecer na área para finalizar.

Fora do plano tático, em termos de filosofia de jogo, a seleção belga também era uma equipe “todo-terreno”. Apreciador de um bom uísque, além de seu inseparável charuto, o treinador Guy Thys armava sua equipe para jogar de acordo com as circunstâncias do jogo e do adversário. Sabia jogar, tinha desenvoltura para fazer a transição da defesa para o ataque com a bola no chão, trabalhando as jogadas com objetividade. Mas, caso fosse necessário, também sabia não deixar jogar. Contra adversários mais duros, também sabia retribuir na rispidez. Era um time alto e forte fisicamente. E a isso somava-se a tradicional estratégia da linha de impedimento, desenvolvida no país e emprestada à vizinha e rival Holanda para sua difusão mundial na Copa de 1974.

Assim, o time-base da Eurocopa de 1980 teria o excelente goleiro Pfaff, de grande estatura e envergadura, boa elasticidade, frio, ainda que carismático, autoconfiante e um tanto espalhafatoso. Na lateral direita, o barbudo Eric Gerets – um dos mais destacados jogadores da posição no futebol europeu e mundial ao longo da década – tinha liderança e qualidade no apoio. No centro da defesa, Walter Meeuws era o líbero e Luc Millencamps, um “stopper” eficiente. Michel Renquin era o lateral pela esquerda, mais defensivo que Gerets, mas também bom quando se lançava à frente. O trio de meio-campo tinha o veterano Van Moer pelo lado direito, o capitão Julien Cools pelo centro e René Vandereycken um pouco mais à esquerda. Na frente, o veloz François Van Der Elst, o oportunista Erwin Vandenbergh e o forte Jan Ceulemans se revezavam numa espécie de triângulo ofensivo, com um vértice mais recuado, ajudando na armação, e os outros dois posicionados mais adiante.

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Tudo isso levou a uma campanha surpreendente na Itália: na estreia, um bom empate em 1 a 1 em Turim com a Inglaterra de Kevin Keegan, que saiu na frente com um golaço de Ray Wilkins, mas seis minutos depois Ceulemans empatou na marra. No outro jogo do grupo, a dona da casa decepcionava num empate sem gols com a Espanha em Milão. Na segunda rodada, os italianos se recuperaram vencendo o English Team por 1 a 0, gol de Tardelli, mas a Bélgica pulou para o topo do grupo com vitória por 2 a 1 sobre a Espanha: logo aos 17 minutos, Gerets se aventurou como atacante, recebeu de Ceulemans e bateu cruzado para abrir o placar. Os espanhóis empataram com Quini ainda na primeira etapa, mas no segundo tempo Julien Cools aproveitou uma bola mal cortada pela defesa para colocar os belgas de novo na frente.

Assim, restou a Itália e Bélgica decidirem entre si a vaga na decisão – não houve semifinais nesta primeira edição da Eurocopa com fase de grupos: os vencedores das chaves passavam diretamente à final, enquanto os vices disputavam o terceiro lugar. No Estádio Olímpico de Roma lotado, em uma partida muito dura, os belgas bloquearam todas as tentativas de ataque dos italianos, abusaram da linha de impedimento, contra-golpearam com perigo e, no fim, arrancaram um 0 a 0 que frustrou as ambições dos anfitriões de chegar à final.

Na decisão contra a poderosa Alemanha Ocidental, os Diabos Vermelhos saíram atrás no primeiro tempo, quando Hrubesch recebeu de Schuster, ajeitou no peito e bateu forte. A bola quicou bem na frente de Pfaff e entrou no canto. Na etapa final, os belgas tomaram o controle do jogo e chegaram ao empate em um pênalti muito contestado pelos alemães. Frans Van Der Elst foi derrubado com um carrinho por trás de Stielike, quando chegaria cara a cara com Schumacher, mas a falta aconteceu fora da área. Vandereycken cobrou bem e igualou o placar. Porém, a dois minutos do fim, quando a partida já parecia se encaminhar para a prorrogação, Rummenigge cobrou escanteio e o gigantesco tanque Hrubesch saltou mais que toda a defesa vermelha para cabecear o gol do título alemão e matar o sonho belga.

A boa campanha na Euro mudou o patamar da seleção belga dentro do futebol europeu, mas não deu a ela a sorte na definição das chaves das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982. O sorteio a colocou no mesmo grupo da rival Holanda (então vivendo momento de reformulação), da França de Michel Platini e da Irlanda de Liam Brady, além do fraco Chipre. A classificação, no entanto, veio com bem mais facilidade que o esperado, com um jogo de antecipação, após bater os franceses, com Platini e tudo, em Heysel por 2 a 0, em setembro de 1981. Foi a primeira seleção europeia a garantir vaga no Mundial.

No time da Copa, algumas modificações em relação ao vice-campeão europeu: Marc Baecke ganhou a posição de Renquin na lateral esquerda. Julien Cools, em má fase diante do rebaixamento de seu clube, o Beerschot, não voltaria a ser convocado, abrindo espaço para o retorno do organizador Ludo Coeck, do Anderlecht. Van Moer, aos 37 anos, perdeu lugar no time para o novato Guy Vandersmissen. E Franky Vercauteren substituiu o lesionado Vandereycken – cortado do Mundial – com a mesma eficiência. Na frente, outro jovem, Alex Czerniatynski, destaque das Eliminatórias, substituiu o experiente Van Der Elst.

Na Espanha, coube aos belgas a honra de fazer o jogo de abertura no Camp Nou, no papel de supostos coadjuvantes dos argentinos campeões do mundo e agora reforçados pelo jovem Diego Maradona, que prometia uma grande exibição no palco de seu novo clube, o Barcelona. Mas Vandenbergh estragou a festa da Albiceleste, aproveitando um vacilo da defesa argentina para marcar o único gol do jogo aos 17 minutos do segundo tempo.

Costuma-se contar a história desta partida como uma “caçada a Maradona” por uma retrancada Bélgica. Na verdade, se El Pibe acertou uma cobrança de falta no travessão de Pfaff no segundo tempo, foram dos belgas as melhores chances de gol da partida: desperdiçaram por milímetros duas finalizações na pequena área com Fillol fora do gol, uma em cada tempo. E, no fim do jogo, ainda viram um lance em que Vandenbergh chegou novamente sozinho, driblou o arqueiro e tocou para o gol vazio ser anulado por um impedimento no mínimo duvidoso.

Os gols perdidos quase fizeram falta na partida seguinte, contra a fraca seleção de El Salvador – que, ainda traumatizada pela goleada de 10 a 1 diante da Hungria em seu jogo de estreia, tratou de se precaver defensivamente de todas as maneiras. Coeck acertou um chute da intermediária em cobrança de falta logo aos 15 minutos, mas a segunda vitória belga na Copa ficou nesse magro 1 a 0 diante dos centro-americanos.

No último jogo da primeira fase, a equipe precisava de um empate contra a Hungria, mas saiu atrás no primeiro tempo quando Jozséf Varga carregou a bola de trás, furando a linha de impedimento, e bateu forte, vencendo Pfaff. Ainda na etapa inicial, os belgas perderam duas chances de empatar quando Coeck acertou a trave numa cobrança de falta e, mais tarde, quando Vandenbergh cabeceou a milímetros do travessão em um cruzamento. Na etapa final, porém, veio o tento da classificação: Ceulemans arrancou pela ponta direita, ganhou do zagueiro na dividida pelo chão e cruzou para o meio da área, de onde Czerniatynski bateu fraco, mas por baixo do corpo de Meszaros.

O resultado colocou os belgas na primeira colocação do grupo C e os tirou do caminho de Itália e Brasil, colocando-os em uma chave também perigosa na segunda fase, ao lado da Polônia e da União Soviética – equipes que, como o time de Guy Thys, complicaram a vida dos favoritos. Para a missão, ainda perderiam duas peças cruciais: o goleiro Pfaff e o lateral e capitão Gerets.

No jogo contra os húngaros, Gerets chegou a ficar alguns minutos desacordado – e deixou o campo completamente grogue – após o joelho de Pfaff chocar-se contra sua cabeça num cruzamento. Sofreu traumatismo craniano e foi cortado da Copa. Já o camisa 1 estava fora, supostamente, por uma lesão no ombro direito também ocorrida no lance (mas na verdade em retaliação a uma atitude do arqueiro quando do atendimento a Gerets que repercutiu pessimamente com o treinador). Para piorar, ainda cruzaram o caminho de um Boniek inspirado no primeiro jogo: o meia-atacante polonês marcou os três gols da vitória de sua seleção por 3 a 0, em atuação antológica. Praticamente eliminada, a Bélgica mandou a campo um time remendado contra a URSS e vendeu caro a derrota por 1 a 0, numa despedida triste para uma campanha que começou surpreendente para um time talentoso, que passaria por uma renovação e ainda teria muita garrafa vazia para vender.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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