Europa

The Rangers, o recomeço do gigante

Certamente, nenhum torcedor do Rangers se esquecerá do dia 11 de agosto de 2012. No acanhado estádio Balmoor, que suporta pouco mais de quatro mil torcedores, o The Rangers, trajando sua nova nomenclatura pós-bancarrota, fez sua estreia pela quarta divisão da Escócia (por lá chamado de Scottish Third Division, já que a primeira divisão chama-se Premier League), diante do modesto Peterhead. Diferente do que se poderia imaginar, a partida foi bastante complicada…

O jovem atacante escocês Barrie McKay, 17 anos, cria do clube e nas seleções de base de seu país, abriu o placar, aos 26 minutos. No segundo tempo, o Peterhead, quinto colocado da mesma divisão na temporada passada, virou, marcando o segundo gol aos 37 minutos. Aos 45, o atacante norte-irlandês Andrew Little, 23 anos, salvou o The Rangers de seu primeiro grande vexame na última divisão nacional, empatando a partida. Porém, o que há de se destacar nem é o resultado do jogo, mas os autores dos gols.

Debandada

Nos anos áureos de disputa ponto a ponto pelo título escocês com o maior rival Celtic, os torcedores do Rangers se acostumaram a ver grandes jogadores desfilando com a camisa azul marinho. Um deles era o experiente goleiro escocês Allan McGregor, desde 2001 na equipe, que é o camisa número 1 da seleção da Escócia. Assim que o Rangers foi liquidado, o atleta rejeitou ter seu contrato transferido para o novo clube e se mudou para Istanbul, a fim de defender o Besiktas.

Juntaram-se a ele vários outros atletas de nome do elenco, como o  lateral estadunidense Carlos Bocanegra (emprestado ao Racing Santander), o também estadunidense Maurice Edu (hoje no Stoke City), além do australiano Bratt McKay (assinou com o Busan Park, da Coreia do Sul), todos estes expoentes importantes nas suas seleções.

Até jogadores menos famosos preferiram deixar de disputar a quarta divisão escocesa e ir para clubes de menor expressão, como o romeno Dorin Goian, emprestado ao Spezia (Itália), time que disputa a segunda divisão do Calcio, mas veio da terceira. O zagueiro escocês Kirk Broadfoot entrou em acordo, aceitando a rescisão amigável, e hoje ostenta as cores do modesto Blackpool, da segunda divisão inglesa.

No total, 11 atletas rejeitaram assinar contrato com o The Rangers e foram para novas equipes. Outros 13 jogadores, a maioria com menos de 20 anos, não tiveram seus contratos renovados, e hoje se contentam com clubes de divisões inferiores da própria Escócia e da Inglaterra. O próprio Andrew Little, o autor do gol de empate do Rangers contra o Peterhead do início do texto, só aceitou ficar no The Rangers depois de ter uma conversa com o técnico da seleção da Irlanda do Norte, Michael O’Neill, que prometeu a ele que o fato de estar na quarta divisão não o impedirá de ser convocado!

Os heróis

Por outro lado, o novo Rangers tratou de ir ao mercado, a fim de renovar o elenco. Nada de contratações protagonistas, logicamente, e todas de graça, sem custos. E o perfil dos novos contratados se encaixa no do jovem meia australiano Francesco Stella, 21 anos. Descendente de italianos, o atleta estava no Siena, mas não recebeu oportunidades no time principal – sequer entrou em campo pela Serie A do Calcio –, e estava eufórico em assinar com os escoceses: “Estou muito feliz de estar aqui, é uma grande mudança poder jogar em um clube tão grande. Mal posso esperar para entrar em campo”, disse Stella ao Daily Record.

Os demais novatos são oriundos de clubes sem importância internacional, casos do meia-atacante norte-irlandês Dean Shiels, ex-Kilmarnock (Escócia), e do atacante espanhol Francisco Sandaza, ex-Valencia B e St. Johstone (Escócia). Pode-se até falar que o jovem zagueiro francês Sébastien Faure veio do Lyon, mas fora dispensado pelo clube francês, e ainda tentou testes por Évian e Leeds United, antes de assinar com o The Rangers.

A situação do zagueiro brasileiro Emílson Cribari, 32 anos, é parecida. Com passagens por Lazio, Udinese, Siena e Napoli, o atleta revelado pelo Londrina chegou ao Cruzeiro em 2011, mas não agradou. Esquecido no clube mineiro, o Náutico demonstrou interesse em sua contratação, mas Cribari pensou melhor e desembarcou em Glasgow, com contrato até 2014 – também veio de graça.

Entre os que permaneceram, destaque para o meio-campista Lee McCulloch e o goleiro Neil Alexander, ambos escoceses e com 34 anos, que estão há pelo menos cinco anos no clube e talvez não tivessem outra opção… É por causa deles que a média de idade do atual elenco atinge 23,8 anos – a terceira mais baixa da competição. Aliás, McCulloch é o atual artilheiro do time na temporada com 14 gols, sete deles na liga nacional, seis a mais que Andrew Little no geral.

Os desafios

Portanto, o Rangers de 2011/12, cujo elenco era avaliado em € 65,5 milhões, agora custa apenas € 13,7 milhões, perda de valor de aproximadamente 79,1%. A título de curiosidade, o ex-atacante norueguês Tore André Flo, a contratação mais cara feita pelo Rangers, custou junto ao Chelsea £ 12 milhões, em 23 de novembro de 2000. Porém, em se tratando de quarta divisão, o montante é uma fortuna perto do orçamento dos outros nove adversários. E por enquanto a diferença financeira vem se corroborando dentro de campo.

Com nove rodadas disputadas, o The Rangers acumula 18 pontos (5v, 3e, 1d), impondo goleadas de 5 a 1 (sobre East Stirlingshire e Elgin City) e 4 a 1 (diante do Montrose), todas em casa. O único revés ocorreu em 6 de outubro de 2012, 1 a 0 para o Stirling Albion, com gol do zagueiro Brian Allison, que virou celebridade depois do gol marcado. É improvável que o The Rangers não seja o campeão da quarta divisão, mas será um longo caminho até o tradicional clássico escocês novamente fazer parte do calendário.

Curtas

– O tradicional Queen’s Park Football Club foi fundado em 1867 – é o mais antigo clube de futebol da Escócia – e carrega um lema curioso há 145 anos: “Para jogar, por causa de jogar”. Isso quer dizer que nenhum jogador recebe salários, o que torna o time de Glasgow o único amador a fazer parte da pirâmide escocesa.

– O East Stirlingshire, décimo colocado e lanterna da quarta divisão na última temporada, disputa a competição desde 1994-95, exatamente a primeira edição do último nível. O melhor resultado da equipe é um terceiro lugar, em duas oportunidades (2008/09 e 2009/10).

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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