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A história da Liga Europa

*Texto originalmente publicado em maio de 2012

O conto de criação da Liga Europa possui seu charme particular. A inspiração veio do Campeonato Sudamericano de Campeones de 1948 e recebeu seu empurrão inicial cinco anos depois, quando o Wolverhampton derrotou o Honved e se declarou campeão do mundo. Motivo suficiente para que Gabriel Hanot, editor do jornal francês L’Equipe, convencesse a Uefa a organizar uma competição destinada aos melhores times do continente em 1955.

Não demorou muito para que a Europa ganhasse seu segundo torneio interclubes. Desta vez, sem a ajuda da Uefa, foi criada em dezembro de 1955 a Taça de Feiras. O torneio reunia apenas as cidades que realizavam feiras internacionais, com a intenção de promover os eventos. Tanto é que as primeiras edições, ao invés de contarem apenas com clubes, também tinham combinados – como o de Londres, vice-campeão em 1955/58 reunindo jogadores de 11 diferentes equipes, entre elas Arsenal, Chelsea e Tottenham.

Alternativa à Copa dos Campeões, a Taça de Feiras viveu um crescimento durante o período. Os combinados municipais perderam espaço a partir da temporada 1963/64, na mesma medida em que o torneio passou a reunir os clubes que não estavam na Champions ou na Recopa Europeia – criada em 1960/61, apenas para os vencedores das copas nacionais. Com estes critérios, a competição não demoraria a ganhar, mesmo que extraoficialmente, o nome de Copa dos Vice-campeões.

Além disso, o aumento no número de clubes foi notável durante o período, chegando ao ápice de 64 participantes ao final da década de 1960. Contudo, a popularidade do torneio era atrapalhada pela persistência da regra que determinava que apenas um clube pudesse ser inscrito por cidade. Em 1969/70, por exemplo, o Liverpool, vice-campeão inglês, impediu a participação do Everton, terceiro colocado.

A questão só seria solucionada a partir da temporada 1971/72, quando a Uefa tomou as rédeas da organização do campeonato, com a criação da Copa da Uefa. Oficialmente, a disputa era aberta aos vice-campeões das copas nacionais, bem como aos vices, terceiros e quartos das ligas.

Vale o esforço?

O Barcelona foi o primeiro campeão da competição
O Barcelona foi o primeiro campeão da competição

Durante os primeiros anos após sua criação, a Copa da Uefa manteve um bom nível de interesse dos clubes. Notadamente, a competição era a terceira em nível de prestígio dentro do continente, mas ainda assim era vista como prioridade pela maioria dos países participantes. Dentre as principais ligas europeias, apenas a Espanha não apareceu em primeiro plano durante a década de 1970.

O primeiro declínio no nível de competitividade foi durante os anos 1980, embora o período não tenha sido muito duradouro. Na virada da década, a abertura cada vez maior do mercado de transferências europeu, que culminou no fortalecimento dos elencos, transformou o torneio em uma oportunidade de valorizar os elencos. O período foi áureo para os italianos, que viviam o auge da Serie A.

A transformação da Copa dos Campeões para Liga e a consequente abertura para mais de um clube por país, a partir da temporada 1997/98, traduziu a decadência da Copa da Uefa. E o abismo foi ampliado dois anos depois, quando até mesmo terceiros e quartos colocados das principais ligas passaram a ingressar na LC. Nem mesmo a absorção dos vencedores das copas nacionais, com a extinção da Recopa Europeia, ou a integração dos eliminados na primeira fase da Champions diminuiu o problema.

Além disso, os pomposos prêmios oferecidos fizeram com que boa parte dos clubes preferisse priorizar os campeonatos nacionais e tentar uma vaga na LC, ao invés de concentrar forças na Copa da Uefa. Prova disso são as eliminações precoces de representantes italianos, ingleses e alemães ao longo dos anos 2000.

A criação da Liga Europa, na temporada 2009/10, provocou poucas mudanças práticas. O nome e o logo do torneio foram alterados e a Copa Intertoto foi integrada, mas nada muito além disso. De fato, o torneio segue sem atrair o interesse da maioria de clubes durante boa parte da primeira fase. Se vier a calhar, o empenho só acontece a partir dos mata-matas.

Os principais dominadores

Falcao teve atuação impressionante na última temporada
Falcao teve atuação impressionante na última temporada

Durante a era da Taça de Feiras, a competição viveu um predomínio dos clubes espanhóis, com chances de extravazar suas forças longe da Copa dos Campeões e do Campeonato Espanhol, ambos dominados pelo Real Madrid na transição das décadas de 1950 e 1960. Nas sete primeiras edições, somente a Roma conseguiu rivalizar com os ibéricos, que dividiram seis taças entre Barcelona, Valencia e Zaragoza.

A partir da segunda metade dos anos 1960, no entanto, os espanhóis perderam fôlego, abrindo espaço para o crescimento dos clubes do leste europeu e, sobretudo, dos ingleses. Depois que o Dinamo Zagreb levantou o troféu, os britânicos foram campeões das cinco últimas edições da Taça de Feiras, com a consagração de Leeds United, Newcastle e Arsenal.

Os reflexos desta fase seguiram no início da Copa da Uefa, com as duas primeiras taças seguindo para Inglaterra. Porém, durante a década de 1970, o papel central foi de alemães e holandeses, campeões cinco vezes em nove anos. O ápice veio na temporada 1979/80, quando os quatro representantes da Bundesliga chegaram até as semifinais, com o título acabando nas mãos do Eintracht Frankfurt.

Os campeões só passaram a variar um pouco mais na entrada dos anos 1980, quando o troféu chegou a parar na Bélgica, com o Anderlecht, e na Suécia, em duas conquistas do IFK Göteborg. O grande esquadrão da época, entretanto, foi o Real Madrid, primeiro bicampeão desde que o campeonato mudou de nome, em 1985 e 1986.

Depois de 1989, a Copa da Uefa foi verde, branca e vermelha, dominada totalmente pela Itália. Os representantes da Serie A começaram sua dinastia com o Napoli e, até 1999, levaram oito títulos e ficaram de fora apenas uma vez da final. Ainda neste período, três decisões contaram apenas com italianos: Juventus x Fiorentina, em 1990; Inter x Roma, em 1991; e Inter x Lazio, em 1998.

Com o aumento no número de participantes na Liga dos Campeões, um novo período de transição foi vivido na virada do século, quando as conquistas ficaram com Galatasaray, Liverpool e Feyenoord. Depois disso, uma tendência ficou clara: o destino da Copa é a Península Ibérica ou, esporadicamente, as antigas repúblicas soviéticas. Portugal, Rússia e Ucrânia tiveram campeões no período, embora a Espanha seja a grande vencedora – são cinco troféus levantados desde 2004, incluindo o entregue ao Atlético de Madrid na última temporada.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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