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A ascensão e queda da última Hungria a se classificar para um grande torneio internacional

Após 30 anos longe dos holofotes, a Hungria disputará a Eurocopa do ano que vem, na França. O jornalista Emmanuel do Valle, dono do blog Flamengo Alternativo, contou como foi a última vez que o país de Puskás participou de um grande torneio continental, na Copa do Mundo do México.

Eliminada na primeira fase nas Copas do Mundo de 1978 e 1982, a Hungria vivia um dilema: como adaptar seu tradicional estilo refinado de jogo a um tempo em que apenas a técnica, sem o senso de competitividade, não levava nenhum time adiante? Exibindo um futebol vistoso, até ingênuo, mas pouco prático e sem determinação, os magiares eram frequentemente engolidos pelos adversários e penavam para retomar as grandes campanhas de décadas anteriores que a tornaram sinônimo de bola bem jogada. No Mundial espanhol, chegaram a aplicar a maior goleada da história das Copas com um 10 a 1 sobre um fraco e turbulento time de El Salvador, mas logo depois foram atropelados pela Argentina (4 a 1) na melhor exibição de Maradona naquele torneio.

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Foi com a intenção de levar o estilo de jogo do país a um novo estágio, e após uma série de resultados medíocres que solaparam as chances do time nas Eliminatórias para a Eurocopa de 1984, que em junho de 1983 a federação húngara demitiu Kálmán Mészöly e apontou seu auxiliar György Mezey para o comando da seleção nacional. Ex-jogador e treinador do MTK, Mezey incutiu dinamismo e vibração ao time e obteve resultados animadores em seus primeiros jogos: uma vitória de 1 a 0 sobre a futura “Dinamáquina”, pelas Eliminatórias da Euro 84 e, em amistosos, um empate em 1 a 1 com a vice-campeã mundial Alemanha Ocidental, uma vitória de 1 a 0 sobre a Espanha, em Cádiz, e uma goleada de 6×0 sobre a Turquia, em Istambul.

Aos poucos o novo treinador foi descartando quase toda a equipe que fracassara na Copa da Espanha, inclusive algumas unanimidades, e substituindo-a por um time quase todo renovado, baseado no Honved. As diferenças apareciam até no aspecto físico: o elenco ganhara ao mesmo tempo em estatura e em velocidade. Quando começaram as Eliminatórias para a Copa do México, apenas quatro remanescentes do Mundial anterior seguiam no time: o lateral-direito Sándor Sallai, o zagueiro central e líder da equipe Imre Garaba, o lateral-esquerdo József Varga e o experiente meia-armador Tibor Nyilasi, há quase dez anos na seleção e um dos raros a atuarem no exterior (defendia o Austria Viena). Juntava-se a eles uma nova fornada de talentos, cujo principal expoente era o meia Lajos Détári.

Preciso nos passes e exímio nos lançamentos, Détári, armador do Honved de apenas 21 anos, era uma das grandes revelações do futebol europeu. Apelidado “Platini húngaro” pelo estilo de jogo, estreou na seleção em agosto de 1984, em uma vitória de 3 a 0 sobre a Suíça em amistoso. Só não era cobiçado por clubes da Europa Ocidental por um motivo: apenas jogadores acima de 28 anos recebiam autorização do governo comunista do país para se transferir para o exterior. No time de Mezey, tinha a função de municiar o ataque formado pelo rápido ponta-direita József Kiprich e o centroavante Márton Esterházy, que não jogava fixo e se movimentava por todo o setor.

O grupo nas Eliminatórias era difícil e bastante nivelado, exceto pelo Chipre, que fazia figuração: havia a eterna rival Áustria, tentando se renovar após a despedida de muitos veteranos ao fim da Copa de 1982, e a Holanda, ávida por voltar a um Mundial depois de ficar de fora na Espanha e apresentando uma geração de grande talento, ponteada por Gullit, Van Basten, Rijkaard e Ronald Koeman. Apenas o primeiro colocado garantia vaga direta. Ao segundo, restava disputar a repescagem. Mas surpreendentemente, o equilíbrio esperado inicialmente não se constatou: os húngaros simplesmente passearam na chave.

Na estreia, uma boa vitória por 3 a 1 de virada sobre a Áustria em Budapeste. Depois, o grande resultado da campanha: novo triunfo de virada, 2 a 1 sobre a Holanda em Roterdã, em um De Kuip lotado. Kieft abriu o placar para os Laranjas de cabeça após escanteio, mas cinco minutos depois, Detari empatou com um arremate da entrada da área. Na etapa final, Esterházy recebeu belo lançamento e bateu cruzado, rasteiro, para virar o jogo. No fim, o mesmo Esterházy ainda teve tempo de sofrer um pênalti, que acabou isolado por Varga. Mas a vitória, que já estava garantida, fez a Hungria disparar na liderança. Com dois triunfos sobre o Chipre – o primeiro novamente de virada por 2 a 1 em Limassol, com o gol da vitória de Nyilasi aos 44 minutos do segundo tempo, e o segundo por 2 a 0 em Budapeste -, a classificação ficou bem perto.

A vaga seria sacramentada em Viena, em abril de 1985, com um categórico 3 a 0 sobre a Áustria, placar definido ainda no começo do segundo tempo com gol de Detari, depois de Kiprich marcar duas vezes na etapa inicial. Com cinco vitórias nos cinco primeiros jogos, os magiares eram a primeira seleção europeia a carimbar o passaporte para o México via Eliminatórias. Na despedida, contra a Holanda em Budapeste, ainda puderam se dar ao luxo de eliminar indiretamente os rivais austríacos, dependentes de pelo menos um empate húngaro para jogarem a repescagem. A Laranja venceu por 1 a 0.

Paralelamente à grande campanha da seleção nas Eliminatórias, outro feito notável do futebol do país aparecia para a Europa. O pequeno Videoton, que nunca tinha sequer sido campeão nacional, brilhava na Copa da Uefa, eliminando esquadrões como o Paris Saint-Germain e o Manchester United, além de golear o Partizan Belgrado por 5×0, antes de chegar à decisão do torneio contra um Real Madrid no qual a Quinta del Buitre começava a despontar ao lado de veteranos como Santillana, Camacho, Stielike e Valdano. Os merengues venceram por 3 a 0 na ida, na Hungria, mas o Videoton se despediu honrosamente com o vice-campeonato e uma vitória por 1 a 0 em pleno Santiago Bernabéu no jogo da volta.

Naquele time do Videoton, surgia em grande forma o barbudo goleiro Péter Dizstl, que logo assumiria o posto de titular da seleção, aparecendo espetacularmente em três grandes vitórias em amistosos, pelos quais passou imbatível: 1 a 0 sobre a Alemanha Ocidental, em Hamburgo, em janeiro de 1985; 3 a 0 contra o País de Gales, em Cardiff, em outubro do mesmo ano; e os 3 a 0 sobre o Brasil de Telê Santana, em Budapeste, já em março de 1986. Nas demais posições, a Hungria contava com uma equipe bem definida e entrosada, montada em um 4-4-2 clássico: na defesa, o baixinho Sallai era o lateral-direito, Róth e Garaba formavam a dupla de zaga, enquanto Zoltán Péter ganhara a posição de Varga na lateral esquerda. No meio, Kardos e Nagy eram os volantes, e Détári armava o jogo ao lado de Nyilasi – que às vezes reeditava o camisa 9 recuado da velha escola magiar -, alimentando Kiprich e Esterházy na frente.

Por tudo isso, a Hungria chegou ao México fortemente cotada como surpresa da Copa. Não tanto quanto a Dinamarca – a quem jornalistas respeitáveis como o inglês Brian Glanville, do Sunday Times, chegavam a apontar como candidata ao título-, mas com potencial para chegar longe. No Grupo C, a favorita destacada era a França de Michel Platini, enquanto a URSS, considerada um time coeso, pela base do Dinamo Kiev, mas sem muito brilho individual, seria a principal adversária pela segunda vaga direta. O estreante Canadá seria o fiel da balança. Porém, quando os franceses penaram para derrotar os canadenses pelo placar mínimo no primeiro jogo da chave, húngaros e soviéticos viram que até mesmo o primeiro lugar poderia estar em aberto.

No dia 2 de junho, Hungria e URSS mediam forças em Irapuato. Pelo lado húngaro havia um desfalque bastante importante. Desligado da seleção em março para se submeter a uma cirurgia na coluna, o capitão Tibor Nyilasi não jogaria o Mundial. Mesmo assim, a confiança do time de Gyorgy Mezey era grande, já que a adaptação à altitude havia sido considerada satisfatória e havia a certeza de que os soviéticos também sofreriam com o forte calor mexicano. Mas deu tudo errado: com menos de cinco minutos de jogo a URSS já vencia por 2 a 0 e demonstrava excepcional organização tática, além de uma surpreendente resistência física. Ao fim do jogo, venceria por 6 a 0, tendo desperdiçado um pênalti e inúmeras outras oportunidades claras. Tivessem perdido de oito ou nove, os húngaros não poderiam reclamar de injustiça. Com falhas individuais gritantes, especialmente no setor defensivo – o zagueiro Róth foi substituído ainda aos 15 minutos da primeira etapa – os magiares despencaram de candidatos a surpresa para maior decepção da Copa, e essa era apenas a estreia.

Como se não bastasse a derrota tão arrasadora por um placar elástico, foi também para um adversário doloroso. Naquele ano, completavam-se três décadas da invasão soviética que sufocou o levante político húngaro de 1956, tendo inclusive consequências futebolísticas, com a evasão de um grande número de jogadores do histórico esquadrão magiar vice-campeão do mundo na Suíça. E o time de Mezey mergulhou em profunda depressão. Abalados emocionalmente, alguns jogadores (como o goleiro Disztl e o zagueiro Róth) ficaram de fora da partida seguinte contra o Canadá, no dia 6, novamente, na mesma Irapuato. Apesar de mostrar um futebol bem distante do que chamou a atenção antes da Copa e displicente em muitos momentos, a Hungria conseguiu vencer por 2 a 0, gols de Detari e Esterházy, e seguir com chances de avançar às oitavas. Mas o astral dos jogadores não melhorou muito.

Imre Garaba marca Platini
Imre Garaba marca Platini

No último jogo, dia 9 em León, precisando pelo menos de um empate contra a favorita França, a Hungria decepcionou mais uma vez ao jogar em ritmo de treino, repetindo o velho defeito da falta de entusiasmo e garra de outros tempos. Os franceses não tiveram dificuldades em vencer por 3 a 0. O terceiro gol nasceu de um chutão de reposição do goleiro Bats, que atravessou o campo antes de ser recolhido na entrada da área húngara por Platini, que serviu Rocheteau. Foi simbólico para escancarar as falhas infantis da defesa magiar. O time de Gyorgy Mezey terminava a primeira fase na terceira colocação do Grupo C, mas, prejudicado pelo saldo de gols muito negativo, não conseguiu uma das quatro vagas da repescagem. Desfecho melancólico para a campanha de uma equipe que chegara com cartel respeitável ao México.

A falta da experiência de Nyilasi, a péssima adaptação ao calor mexicano, que matou a estratégia de lançamentos longos da equipe, a carência de um elenco mais qualificado diante dos problemas físicos e o despreparo emocional para lidar com eventuais adversidades, tudo isso pesou no fiasco húngaro em sua última participação em um grande torneio internacional de seleções. Progressivamente o país foi se afastando das competições de destaque e perdendo a força e o respeito por sua história que tinha no continente e no mundo.

Esteve perto de voltar apenas nas Eliminatórias da Copa de 1998, na mesma França que agora sediará a Eurocopa, mas acabou pulverizada pela Iugoslávia na repescagem com duas goleadas históricas – 7 a 1 em plena Budapeste e 5 a 0 na volta em Belgrado. Agora em 2016, ironicamente com um time até limitado do ponto de vista técnico, mas que não hesita em chutar “para o mato” quando necessário – exatamente o oposto de suas tradições – a Hungria tem a chance de começar a reconstruir seu legado.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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