O que têm em comum Kobenhavn, Slavia Praga e Dinamo Zagreb? Além de serem times expressivos apenas em seus campeonatos nacionais de porte médio, sem grandes feitos internacionais, todos eles eliminaram o Ajax de competições européias nos últimos 14 meses. E todos venceram, sem cerimônia, em plena Amsterdam Arena.

A queda na primeira fase da Copa Uefa retrata a dura realidade do Ajax de hoje. A invejável história do clube não é capaz de impor respeito por si só. Vencer jogos com tanta facilidade na Eredivisie (como os 8 a 1 sobre o De Graafschap, na primeira rodada, e 6 a 1 no VVV, no fim de semana passado) só mostra o quanto é desnivelado o campeonato nacional.

Apesar de a vida na Europa ser mais complicada, talvez não houvesse grandes razões para duvidar da classificação do Ajax contra o Dinamo Zagreb. Afinal de contas, a situação era confortável, depois de vencer por 1 a 0 o jogo de ida. Com uma linha ofensiva formada por Rommedahl, Huntelaar e o jovem Suárez, o técnico Henk ten Cate poderia esperar uma classificação sem sustos pelo caminho.

O clima para o jogo começou a ficar estranho quando surgiram as notícias de que Ten Cate estaria de saída. Ele recebeu um convite do Chelsea para fazer parte da nova comissão técnica sob o comando de Avram Grant. O chamado partiu de Frank Arnesen, diretor esportivo do clube londrino. O ex-jogador dinamarquês conquistou três títulos nacionais nas seis temporadas que defendeu o Ajax, entre 1975 e 1980.

Os rumores ganharam eco, e de repente estava claro que aquela seria a despedida de Ten Cate, que chegou no ano passado, credenciado por um bom trabalho como auxiliar de Frank Rijkaard no Barcelona campeão europeu. Tudo certo entre o Chelsea e Ten Cate, só faltaria o acordo para o Ajax liberar o treinador. Um acordo que não era tão difícil de se alcançar.

Diante de quase 45 mil torcedores, o Ajax assistiu enquanto o Dinamo Zagreb, do ótimo meia Modric, jogava. O placar de 1 a 0 para os croatas – cortesia de um pênalti infantil cometido por Van der Wiel – levou o jogo para a prorrogação, e não seria surpresa se o time visitante tivesse sentenciado o confronto ainda no tempo normal. Bastaram seis minutos de tempo extra, no entanto, para que isso ocorresse com os dois gols de Mandzukic. Só aí o Ajax mostrou algum brio, mas os gols de Huntelaar só serviram para deixar um sabor ainda mais amargo. Por ter marcado três fora de casa, o Dinamo passou à fase de grupos.

Se alguém dissesse, antes da temporada, que o Ajax estaria fora da Europa já em outubro, seria difícil acreditar. O golpe é forte demais para um clube que, em seu planejamento de longo prazo divulgado em junho do ano passado, falava em “pertencer ao grupo dos 16 melhores clubes da Europa”. (Clique aqui e veja)

Sem a Europa, o Ajax deixa de gerar uma importante receita, e logo será obrigado a vender Huntelaar, assim como fez com Sneijder este ano. A eles se seguirão Heitinga, Maduro, Emanuelson, Stekelenburg. Pouco a pouco, o time vai deixando de ser o sonho de qualquer garoto holandês que começa a jogar futebol, e passa a ser visto apenas como um trampolim para as maiores ligas.

A saída de Ten Cate, caso se confirme, deixa um ponto de interrogação sobre quem assumirá o time – mas certamente não será José Mourinho. A transição não parece ser tão simples, e não será de se espantar caso o Ajax perca a liderança nas próximas rodadas. Fechado nas fronteiras holandesas, o time se vê na obrigação de vencer a Eredivisie e cumprir pelo menos uma parte do plano de metas – conquistar o campeonato uma vez a cada dois anos.

É provável que este planejamento precise ser revisto. A primeira meta, a partir de agora, tem de ser reconquistar o respeito da Europa.

Queda livre

O Ajax não foi o único a fazer feio na Copa Uefa. O Heerenveen foi eliminado com uma goleada de 5 a 1 na casa do Helsingborg, da Suécia, depois de fazer 5 a 3 no jogo de ida. Afonso Alves voltou ao time titular – e há que se questionar que influência negativa isso pode ter tido, depois do racha público entre o jogador e o clube.

Twente e Groningen também caíram, mas de cabeça erguida. O Twente mostrou muita disposição contra o Getafe, e pode lamentar a noite infeliz de seu principal atacante, Blaise N’Kufo. O time vencia por 1 a 0, devolvendo o resultado da ida, e poderia definir já no tempo normal, mas N’Kufo perdeu um pênalti e ainda foi expulso. Com um jogador a menos, o Twente levou dois gols dos espanhóis na prorrogação, e apesar de heroicamente marcar duas vezes e vencer por 3 a 2, acabou eliminado. O Groningen foi à Itália e encarou uma Fiorentina com força máxima. Chegou a estar em vantagem, repetiu o placar de 1 a 1 do primeiro jogo e só caiu nas penalidades.

As despedidas honrosas pouco fazem, no entanto, para aliviar a situação complicada em que a Holanda se coloca no ranking de ligas da Uefa. Dos seis times que entraram na Europa, apenas dois permanecem: PSV, na Liga dos Campeões, e AZ, na Copa Uefa. Como o coeficiente se calcula pela média (total de pontos dividido pelo total de times participantes), a oitava posição passa a correr sério risco, especialmente porque os dois países logo abaixo ainda estão bem representados – Portugal tem 4 dos 7, e a Ucrânia 2 dos 4 times que iniciaram a temporada nas competições continentais.

Anderlecht, único belga

O Anderlecht carrega a bandeira da Bélgica no restante da temporada, graças ao gol de Serhat Akin que valeu a vitória por 1 a 0 sobre o Rapid Viena, na Áustria.

O Club Brugge, que parecia ter uma situação tranqüila depois de vencer o Brann por 1 a 0 na Noruega, conseguiu dar uma de Ajax e perder a vaga em casa. Dois gols dos noruegueses no primeiro tempo pegaram o Brugge de surpresa. Philippe Clement descontou na segunda parte e deu alguma esperança, mas a expulsão de Jeroen Simaeys colocou tudo por água abaixo.

O Standard Liège, líder da Jupiler League, já sabia que não teria vida fácil contra o Zenit, já que havia perdido por 3 a 0 em São Petersburgo. O lado positivo da eliminação, com empate por 1 a 1, é a maior folga para defender uma vantagem que já é de cinco pontos, com apenas oito rodadas disputadas, no campeonato nacional. O Standard tem 20 pontos, contra 15 de Anderlecht, Brugge e Racing Genk.

Só dá Dudelange

Oito jogos, oito vitórias. É irrepreensível a campanha do Dudelange no campeonato de Luxemburgo. O vice-líder Racing FC Union Luxembourg já está sete pontos atrás, e o Jeunesse d'Esch, terceiro colocado, dez. O saldo de gols do Dudelange também impressiona: 25 marcados e apenas dois sofridos. Assim, tudo aponta para o quarto título consecutivo.