Eu sou você ontem

Toda vez que o Vasco estava perdendo em São Januário era a mesma coisa. Eurico Miranda invadia o gramado, “conversava” com o árbitro e criava confusão. Às vezes, os cruzmaltinos tinham um pênalti a favor não muito depois. Às vezes, a confusão continuava e o jogo ficava comprometido. E, se a decisão fosse para a CBF ou o STJD, os vascaínos se davam bem. E conquistaram muitos títulos nessa política. Era sempre assim. Sempre.

Sempre mesmo? Óbvio que não. Eurico Miranda é uma das figuras menos edificantes do futebol brasileiro, sabotou a Copa União de 1987, colocou Lazaroni na Seleção e protagonizou diversas cenas lamentáveis, mas não era onipotente. Ainda bem. O Vasco também teve bons times na época e, claro, deixou de ganhar vários títulos. Mas a imagem que ficava na cabeça do torcedor não-vascaíno da época era a de que o Vasco era o time da CBF, que o Vasco era sempre beneficiado nos bastidores e que o Vasco teria tudo o que quisesse. E, como o brasileiro tem a cultura de quase sempre rejeitar quem se alie ao poder estabelecido (ainda mais um poder percebido como ilegítimo como o de Ricardo Teixeira), o Vasco assumiu o título informal de clube mais odiado do Brasil por alguns anos.

Os vascaínos deixaram esse posto antes mesmo de Eurico Miranda sair. Pelos erros administrativos de seu presidente, o Vasco perdeu força em campo e fora. Para solidificar mais esse novo processo, Eurico deixou o poder e os vascaínos viram um time que se notabiliza pela entrega em campo e que o torcedor de qualquer time vê como montado de modo legítimo e honesto. E, depois do que ocorreu com Ricardo Gomes, o Vasco até se tornou uma das equipes mais simpáticas do país.

Enquanto isso, Andrés Sanchez adorou a ideia de ocupar o cargo de aliado preferencial de Teixeira. Somando isso à parceria com o dinheiro suspeito da MSI e a ter incentivos governamentais para construir seu estádio, fica fácil imaginar quem se tornou o novo clube mais odiado do Brasil. Uma questão se reforça com a presença algo exagerada do Corinthians na mídia (e não me refiro à reta final do Brasileirão, pois o candidato a título naturalmente tem mais espaço na reta final. Refiro-me ao dia-a-dia, aos meses de meio de temporada, que fizeram o Alvinegro paulista parecer – “parecer” porque é uma questão polêmica – o time preferido do “poder da imprensa”).

Eu não falo nem em argumentos infantis como “têm inveja de nós”, “eles não nos esquecem”, “contra tudo e contra todos” ou “torcida arco-íris”. O que acontece é simplesmente uma reação natural do brasileiro a quem escolheu se aliar ao poder. Andrés Sanchez fez isso por que quis e sabe que o clube que comanda é obrigado a arcar com isso. O corintiano pode chiar, mas faz parte do processo de ser amigo da CBF.

Isso não significa que o Corinthians será eternamente odiado. Um dia, o clube pode se desvincular do que o torcedor brasileiro vê como “poder estabelecido” e mostrar arrependimento por ter feito parceira com a MSI. Um dia, o clube pode montar um time que cative o torcedor comum pelas suas características. Um dia, outro time pode aparecer como melhor amigo da CBF. Enquanto esse dia não chega, os alvinegros que gostam da gestão de Andrés Sanchez têm de aprender a lidar com o “efeito colateral” e não achar que é “inveja” ou coisa do tipo.

Por isso, quase todos os não-corintianos do Brasil querem ver o Vasco campeão. Porque o Corinthians é o que o Vasco foi há 15 anos: o time que todos odiavam e vê-lo perder é ver os poderosos perderem.

Ubiratanice do dia
Poucas coisas são tão estúpidas quanto ver e rever, discutir e rediscutir 300 vezes uma decisão polêmica de arbitragem. Basta ver os replays nos ângulos disponíveis e cada um dizer o que acha pelo que foi possível ver. Mais que isso é incentivar teorias conspiratórias tirar o foco do que vale no futebol: jogar bola.