A Globo não deu muita atenção ao Mundial de Clubes que a Fifa organizou no Brasil, no mês de janeiro de 2000. Não o mencionava em entrevistas a jogadores de Corinthians e Vasco para outras pautas e deu pouco espaço no noticiário. Naturalmente, também não adquiriu os direitos de transmissão. A Band aproveitou o vácuo e se deu bem. Foi um sucesso de audiência, superando os 50 pontos na grande decisão, e a voz do título corintiano foi de Luciano do Valle, cujo momento mais marcante aconteceu ainda na fase de grupos, no confronto dos paulistas contra o Real Madrid, há exatos 20 anos, quando o saudoso narrador apresentou Edílson Capetinha aos espanhóis.

Reza a lenda que Edílson havia prometido dar uma caneta no volante Karembeu, o que ele nunca confirmou ou foi corroborado por companheiros de time daquela época. O que o ex-atacante conta é que havia dito a Vampeta que o francês era “ruim para caramba”, o que chegou aos ouvidos da imprensa. No aquecimento para o confronto, a declaração foi repercutida com o Real Madrid. O então vice-presidente merengue Juan Onieva rebateu que o Capetinha era desconhecido internacionalmente e que “precisaria de três vidas para chegar ao mesmo nível de Karembeu”.

O clima do jogo ficou mais quente depois de um encontro no hotel em que os dois times estavam. Edílson relata que estava com Vampeta (sempre o Vampeta) e trombou com meia dúzia de jogadores do Real Madrid, incluindo Roberto Carlos, no elevador. Olhou nos olhos do lateral esquerdo com o qual havia jogado no Palmeiras, tirou uma nota de dinheiro, amassou e colocou no bolso, encenando dramaticamente o que faria com ele durante a partida no Morumbi.

O duelo era uma espécie de decisão porque os dois favoritos do grupo haviam vencido a primeira rodada por dois gols de diferença, mas o Real Madrid marcara um a mais. Pelo menos o empate era essencial para manter o Corinthians vivo na disputa. Em caso de derrota, teria que torcer para que os espanhóis fossem derrotados pelo Raja Casablanca no jogo derradeiro. E os donos da casa levaram um tremendo susto quando Anelka abriu o placar, aos 19 minutos, desviando cobrança de falta de Roberto Carlos.

Luizão fez bem o trabalho de pivô e rolou para Edílson empatar, aos 28, e, no segundo tempo, o Corinthians virou. Edílson dominou pela ponta direita. Em vez de dar o bote, Roberto Carlos recompôs a linha defensiva e deu alguns passos para trás. Cedeu ao atacante corintiano a escolha. Edílson, então, cortou para o meio e avançou para cima de Karembeu, adiantando a bola. Aproveitou o embalo para colocá-la entre as pernas do francês com um toque sutil e se reencontrou com ela já dentro da área. Emendou o forte chute de perna direita para virar o jogo a favor do Corinthians.

“Edílson, jogo eletrizante aqui no Morumbi. Lá vai Edílson. Passou pelo Karembeu, bateu, gooooooooooolaaaaaaaaaaço do Edílson”, narrou Luciano do Valle. “Meteu entre as canetas, botou entre as pernas do Karembeu. E aí ele disse: eu sou Edílson, o Capeta! Dois para o Corinthians, um para o Real Madrid. Muito prazer, muito prazer, vai buscar lá dentro”.

No entanto, pouco depois, Vampeta errou um passe no meio-campo e permitiu o contra-ataque que terminou com Anelka driblando Dida e tocando ao gol vazio para empatar. O francês ficou muito próximo da sua tripleta e de complicar bastante a vida do Corinthians, mas teve um pênalti defendido pelo especialista brasileiro e a definição da vaga ficou para a última rodada.

Quem ganhasse por mais gols de diferença passaria à decisão, e Vicente Del Bosque não gostou de descobrir que o Real Madrid atuaria antes, o que permitiria ao Corinthians saber exatamente quantas bolas na rede precisaria colocar. Hierro, Morientes e Geremi arrancaram uma vitória suada por 3 a 2 sobre o Raja Casablanca. O Corinthians precisava ganhar por dois gols do Al Nassr, da Arábia Saudita. E estava 1 a 0 até os 36 minutos do segundo tempo, quando Luizão, improvisado na lateral direita no lugar de Daniel, expulso, cruzou para Rincón marcar.

A final contra o Vasco é história para semana que vem, mas ela também foi narrada por Luciano do Valle:

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