Na era da “pós-verdade”, o futebol atravessa meses de “pós-aposentadorias”. Alguns craques já haviam pendurado as chuteiras e todo mundo percebia isso, só acabavam esquecendo de manifestar publicamente a sua decisão – talvez adiando o fato doloroso, talvez fugindo do final em baixa, talvez ainda aguardando alguma última oferta vantajosa. Esta onda de anúncios sem despedidas em campo, porém, não deve diminuir a exaltação a alguns personagens históricos do esporte. E, nesta sexta, o apagar das luzes a Samuel Eto’o é também a chance de aplaudir um dos maiores atacantes deste século. Um símbolo da África e um exemplo de entrega aos seus companheiros de posição.

A história de Eto’o como jogador de futebol é daquelas que já começam com superação e talento puro. Nascido em um subúrbio da capital Iaundé, o garoto se mudou ao lado da família para Douala durante a infância. Por lá, seu pai, um contador, esperava dar condições de vida melhores aos seis filhos. E a bola significou precocemente um caminho para Samuel. Quando tinha 13 anos, não só integrava um time da cidade, como também passou a disputar a segunda divisão. Enquanto anotava seus gols, o prodígio se inspirava em Roger Milla, que na mesma época encerrava sua carreira na Copa de 1994.

Aos 15 anos, como outros tantos garotos africanos, Eto’o arrumou suas malas e tentou a sorte na Europa. Primeiro viveu na França. E, com o visto expirado, passou meses recluso, buscando apenas testes que pudessem abrir as portas ao seu talento. A aprovação pelo Paris Saint-Germain até aconteceu, mas o clube não pôde aceitá-lo pela falta de documentação. Samuel precisou voltar a Camarões e se reintegrar ao futebol local. Resignou-se, mas não desistiu. O sucesso na Kadji Sport Academies chamou a atenção dos europeus. Convidado a um teste no Le Havre, parceiro da academia, viajou à França e permaneceu uma semana sendo testado. Foi o único dos cinco jogadores convidados aos treinos que não foi contratado. Também faria peneiras por Saint-Étienne e Cannes, igualmente rechaçado.

A oportunidade que se concretizou a Eto’o, de início, foi a maior possível. O atacante chegou às seleções de base de Camarões já neste período. Anotou dois gols numa vitória sobre a Costa do Marfim e, nas arquibancadas, era observado por Pirri, antigo ídolo do Real Madrid. Os merengues não deixaram passar a chance e, enfim aprovado, Samuel poderia seguir o seu sonho na Europa. Mas não sem contratempos. Contratado aos 15 anos, passou a maior parte desse período no Real Madrid Castilla. Também ficou uma temporada emprestado ao Leganés, na segunda divisão, e em seis meses no Espanyol, sequer jogou.

Os tempos galácticos não concederam os minutos que o garoto esperava no primeiro time do Real Madrid. Até realizou sua estreia na temporada 1999/00, com parcas aparições. Ao mesmo tempo, o atacante ganhava toda a confiança na seleção de Camarões e até participou de sua primeira Copa do Mundo em 1998, aos 17 anos, entrando na partida contra a Itália. Já o momento decisivo de sua carreira ocorreu em 2000. Presente no Mundial de Clubes, Eto’o logo depois se juntou aos Leões Indomáveis na Copa Africana de Nações de 2000. Os camaroneses conquistaram o torneio e o camisa 9 terminou entre os melhores do torneio, autor de quatro gols, inclusive um na decisão. De volta à Espanha, desembarcaria em empréstimo ao Mallorca.

Não foi apenas a carreira de Eto’o que atingiu um novo patamar em Mallorca. O clube também ganharia novas perspectivas com o prodígio. Os primeiros meses já foram impactantes, com seis gols em 13 jogos pelo Campeonato Espanhol, incluindo dois contra o Barcelona dentro do Camp Nou. O jovem se mostraria ávido por grandes jogos e os bermellones preferiram acertar sua permanência em definitivo, comprando 50% de seus direitos. Samuel não pôde iniciar a temporada seguinte, ao se juntar a seleção nos Jogos Olímpicos. Voltou com o ouro no peito, após atuações decisivas. Depois, permitiria ao clube alcançar a terceira colocação no Espanhol, contribuindo com 11 gols. Já não existia dúvidas sobre o tamanho da pérola ali.

A passagem de Eto’o pelo Mallorca não foi composta apenas por momentos retumbantes e o rendimento baixo em 2001/02 talvez tenha prejudicado a participação na sua segunda Copa do Mundo. Eliminado com Camarões na fase de grupos em 2002, ainda assim anotou o gol da vitória sobre a Arábia Saudita. E a afirmação como um dos melhores atacantes do futebol espanhol veio nas duas temporadas seguintes, com 33 gols no total. Samuel indicava um apreço especial ao se reencontrar com o Real Madrid. Em maio de 2003, comandou a goleada por 5 a 1 sobre os merengues dentro do Bernabéu. Quase um ano depois, fez mais dois gols no triunfo por 3 a 2 no mesmo estádio, que marcaria a derrocada dos madridistas na corrida pelo título contra o Valencia. Foi eleito o melhor jogador africano pela primeira vez em 2003, ano em que também foi vice-campeão da Copa das Confederações, outra vez causando calafrios ao Brasil, e também ergueu a Copa do Rei com os bermellones.

Se Eto’o parecia o antídoto perfeito ao Real Madrid, o Barcelona tratou de buscar sua contratação, em tempos de entressafra na Catalunha. Foi uma negociação difícil, na qual Florentino Pérez ainda precisou se sentar à mesa por ter 50% dos direitos do atacante. Os merengues possuíam a preferência para ficar com o jogador, caso igualassem a oferta dos blaugranas. Pesou também a vontade do atacante, que se mostrava mais disposto a se mudar para o Camp Nou e o acerto de €24 milhões terminou por se concretizar. Olhando para trás, o valor parece uma pechincha a tudo o que o craque garantiu aos culés.

Eto’o também ajudou a mudar a história do Barcelona. Ao lado de Ronaldinho, foi um dos protagonistas do time de Frank Rijkaard e não demorou a render seu máximo pelo clube. Anotou 25 gols no Campeonato Espanhol 2004/05, que valeram bastante à reconquista do título nacional. Na comemoração, aliás, deixou expressa sua mágoa pela falta de chances no Real Madrid, ao espezinhar os rivais. A temporada 2005/06 seria ainda mais marcante ao centroavante. Foi bicampeão espanhol e pela primeira vez artilheiro, com 26 gols. Nada comparável ao sentimento de faturar também a Champions pela primeira vez, com direito a gol na final contra o Arsenal. Samuel estava no topo.

Nesta época, Eto’o apresentava o seu melhor futebol. Era um atacante tão letal quanto participativo, com uma postura muito agressiva dentro de campo. Complementava perfeitamente o estilo de jogo dos blaugranas, mais diretos naquela época. E ele também se confirmava como um dos maiores jogadores africanos da história, pela imagem que oferecia ao continente. Enfileirou três troféus consecutivos de melhor jogador africano, mesmo quando Didier Drogba arrebentava no Chelsea. Chegou a ser terceiro colocado no prêmio de melhor do mundo da Fifa. Estampava campanhas publicitárias e encabeçava iniciativas sociais, criando naquele período a Fundação Samuel Eto’o. Era um emblema do orgulho.

Infelizmente, Eto’o também seria vítima de racismo em seu auge. E enfrentou o preconceito, como em outros tantos momentos da vida. Insultado durante um jogo contra o Zaragoza em fevereiro de 2005, o atacante se recusou a continuar em campo, mas terminou convencido pelos companheiros a seguir jogando. Sua resposta? Com gol, ajudando a alargar a goleada por 4 a 1. Também provocou os ignorantes em sua comemoração. “Eu dancei como macaco porque eles me trataram que nem macaco”, disse na época. “É algo que me afetou pessoalmente. Acho que os jogadores, os líderes e a imprensa precisam unir forças para que ninguém seja inferiorizado por causa da cor de sua pele”.

Atrapalhado pelas lesões em outro processo de transição do Barcelona, o número de gols de Eto’o caiu um pouco nas duas temporadas seguintes, mas não a média. Ele formaria outras parcerias prolíficas no Camp Nou, especialmente após a ascensão de Lionel Messi e a chegada de Thierry Henry. E o primeiro ano sob as ordens de Pep Guardiola seria justamente o mais goleador de sua passagem pelo clube. A reconquista de La Liga contou com 30 tentos do centroavante. Também fez mais quatro na Champions, incluindo outro na decisão, desta vez contra o Manchester United. Parecia o momento perfeito para recuperar o seu melhor, mas não Guardiola não pensava assim. O gênio difícil do artilheiro e a ascensão de Messi como falso 9 aceleraram sua saída. Despediu-se com a incrível marca de 152 gols em 200 jogos.

Eto’o seria usado como moeda de troca na contratação de Zlatan Ibrahimovic. E, bem, sua trajetória já tinha mostrado como não era bom provocar a sede de vingança do craque. Na Internazionale, notaria-se um atacante bem mais abnegado, jogando no apoio a Diego Milito ou mesmo na ponta. Algo expresso naquele mágico reencontro com o Barcelona na semifinal da Champions. Poucas vezes se viu Samuel com tamanha vontade, entrando até de lateral para segurar a classificação quando sua equipe estava em desvantagem numérica. Deu sua resposta a Guardiola dentro de campo e, pouco depois, ergueria a Orelhuda pela terceira vez, após a vitória na decisão contra o Bayern de Munique.

A passagem de Eto’o pela Internazionale é menos espetacular, mas não menos efetiva. Após a saída de José Mourinho, ele voltou a se tornar uma arma importante na produção de gols, por mais que os nerazzurri não tenham vivido um bom ano. Conquistou o Mundial de Clubes em 2010, uma das poucas taças que ainda faltavam em seu currículo. E o sucesso repercutiu de outras formas. Pela quarta vez foi eleito o melhor jogador africano, feito até então inédito e só igualado por Yaya Touré. Também disputou sua terceira Copa do Mundo em 2010, apesar da campanha modesta em Camarões. Anotou gols contra Dinamarca e Holanda.

Desde que deixou a Internazionale, em 2011, Eto’o se transformou em andarilho da bola. Mas teve os seus brilhos. Recebendo uma fortuna no Anzhi, gastou a bola no Campeonato Russo e tornou seu clube relevante. Reencontrou-se com Mourinho no Chelsea e foi útil na Premier League, mesmo sem se tornar titular absoluto. Ainda defendeu Everton e Sampdoria, antes de admitir o declínio e carregar o Antalyaspor nas costas pelo Campeonato Turco. Nas últimas duas temporadas, ainda defendeu Konyaspor e Qatar Sports Club. Já não era o craque imparável de outros tempos, mas nunca deixou de balançar as redes ou produzir seus lampejos. De quebra, viajou à sua quarta Copa do Mundo em 2014, após alguns entreveros com a federação e a desistência de sua aposentadoria da equipe nacional para vir ao Brasil. Aquele Mundial foi seu último ato com os Leões Indomáveis.

Durante os últimos anos, Eto’o mereceu muito mais consideração pela imagem que representa. A personalidade forte também o coloca como uma voz ativa na luta pelo futebol africano e ele agiu em prol do desenvolvimento. O maior exemplo de seu sucesso está na academia que criou em Camarões, responsável por fornecer talentos a grandes clubes da Europa, que até já disputaram competições internacionais pela seleção. Os garotos inspirados por Samuel terminaram ajudados por Samuel para tentar seguir os passos de Samuel.

Concomitantemente, Eto’o segue tocando sua fundação, que oferece assistência social a jovens do oeste africano, através de ações voltadas a educação, saúde e integração em comunidades carentes. Encabeça outras belas atitudes, da criação de orfanatos até a doação de uma casa ao antigo capitão da seleção que havia se tornado morador de rua. E levantou sua voz em diferentes momentos contra o racismo, uma discussão ainda mais intensa em sua história durante os últimos anos. A importância do artilheiro é inestimável e supera seus feitos nos gramados.

O anúncio de despedida de Eto’o foi breve. “O fim. Rumo a um novo desafio. Obrigado a todos pelo grande amor e pela adrenalina”, escreveu o atacante de 38 anos, em suas redes sociais. Nos últimos meses, o camaronês já vinha desempenhando um papel como um embaixador da Confederação Africana de Futebol. Independentemente do que escolher ao futuro, este simbolismo prevalecerá. Eto’o sempre oferecerá uma lembrança imediata do melhor do futebol africano e também da mais pura ofensividade dentro de campo. Seus mais de 300 gols perdurarão muito além de sua carreira.