Nos últimos dez anos, o número de jogadores emprestados cresceu nas cinco principais ligas do futebol europeu. O que parecia apenas uma impressão (a mim, pelo menos) foi confirmada por um estudo do Observatório do Futebol do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES): de 2,3 jogadores cedidos temporariamente por clube, em média, em 2019/10 para 3,12 em 2018/19.

Nos últimos cinco anos do período analisado em comparação aos cinco primeiros, o crescimento foi de 18%, de 2,62 para 3,09. Na última temporada, jogadores emprestados atuaram mais pelos seus clubes do que nas campanhas anteriores, um total de 11,5% dos minutos, contra 9,1% em 2009/10 e 8,7% em 2010/11.

As ligas que mais recorrem ao recurso são as da Itália, com média de 4,87 jogadores emprestados por clube, e da Espanha, com 3,85. A Ligue 1, da França, aparece na sequência (2,00), seguida pela Premier League (1,75) e pela Bundesliga (1,69). O Campeonato Inglês é o que recebe jogadores com idade mais alta (25,3 anos), e o Alemão, com idade mais baixa (23,1).

A estratégia, quando utilizada exageradamente, não costuma produzir bons resultados. Os cinco clubes que mais tomaram jogadores emprestados em uma única temporada – o recorde é do Granada, em 2016/17, com 19 – foram rebaixados. A melhor campanha no período foi do Genoa, com 12 jogadores emprestados em 2014/15, quando terminou em sexto lugar. Apenas ele e o Parma, em 2011/12, ficaram na parte de cima da tabela com um elenco recheado de atletas cedidos por colegas.

Quem empresta mais?

Duvido que você acertaria que é a Udinese. Acontece que os donos do clube italiano são os mesmos do Granada, que usou bastante desse expediente para montar seus elencos. Logo, a Udinese cedeu 62 jogadores nos últimos dez anos, 20 deles para o Granada. A relação entre os dois times da família Pozzo é a mais próxima da Europa nesse aspecto.

 

Em seguida, aparece o Chelsea, notório por emprestar muitos dos seus jogadores jovens, e o batalhão italiano com Internazionale, Juventus, Roma e Napoli. Em sexto lugar, empatado com o Napoli, está o Manchester City, que também tem a política de contratar promessas de outros países e emprestá-las bastante.

O que acontece com os jogadores depois do empréstimo?

A lógica do empréstimo, do ponto de vista do clube que cede o jogador, é permitir que ele ganhe experiência em outro ambiente antes de ser introduzido ao time titular. Isso poucas vezes ocorre. Para ser mais preciso, em apenas 29,6% dos casos no período e nas ligas analisadas. Em 27% das vezes, o jogador é emprestado novamente; em 43,4%, ele vai embora, sendo 15,7% para o clube em que estava emprestado.

Quais as causas?

O estudo não entra nas causas desse fenômeno, mas muito tem a ver com o Fair Play Financeiro, que começou a ser aplicado pela Uefa na temporada 2011/12. De acordo com a norma, os clubes não podem gastar muito mais do que arrecadam. Quando a conta está no limite, e ainda há buracos no elenco, a estratégia é contratar reforços por empréstimo, com valor opcional de compra ou mesmo fixo – que, na prática, apenas empurra o gasto para o ano fiscal seguinte

Isso dialoga com o que aconteceu no último mercado de transferências, quando um número curioso de jogadores de alto calibre esteve no mercado (Coutinho, Bale, James Rodríguez, Icardi), mas não houve interessados para contratá-los em definitivo. Ao fim da janela, um artigo da ESPN internacional, assinado por Gabriele Marcotti, analisou o que havia acontecido, consultando especialistas no assunto.

A conclusão foi que houve uma auto-regulamentação do mercado. O crescimento de receitas dos clubes mais ricos do mundo levou-os a dar contratos longos e polpudos a bons jogadores, mas, como eles continuaram contratando atletas que consideravam melhores, houve um excesso de estoque.

Ao mesmo tempo, o segundo patamar da pirâmide, que poderia melhorar seus times com esses jogadores, não conta espaço no orçamento para absorver todos eles e não pode fazer loucuras por causa do Fair Play Financeiro. Logo, a solução, em alguns casos, é o empréstimo.

Com esse instrumento, o clube vendedor tira parte ou a totalidade do salário de um jogador encostado de sua folha de pagamentos e o comprador pode ter um benefício temporário ou descobrir como o novo reforço se encaixa no seu time e se adapta a um futebol diferente antes de se comprometer financeiramente.

O estudo conclui explicando que a situação levou a Fifa a considerar possíveis medidas para limitar o excesso de empréstimo, desde um limite numérico à proibição de empréstimos sucessivos de um mesmo jogador ou a possibilidade de que ele rescinda seu contrato se for cedido muitas vezes.

Um assunto que interessa muito ao brasileiro Lucas Piazon, emprestado a Málaga, Vitesse, Eintracht Frankfurt, Reading, Fulham, Chievo e Rio Ave desde que chegou ao Chelsea, em 2011.