O final de semana foi de expectativas sobre o desfecho de algumas grandes ligas, mas também de campeões se consagrando ao redor da Europa. Os dois últimos dias serviram para coroar clubes tradicionais em diversos campeonatos do segundo escalão no continente. O Celtic manteve sua hegemonia com o octacampeonato na Escócia, enquanto o Zenit fez valer o seu investimento e ergueu a taça na Rússia após quatro anos. Já o domingo terminou em festa para três forças da Europa Central: Red Bull Salzburg, Copenhague e Estrela Vermelha. Abaixo, um pouco das trajetórias do trio rumo ao topo.

Red Bull Salzburg e a sina que deve chegar ao fim

Se o Campeonato Austríaco recobrou a sua relevância além das fronteiras, o Red Bull Salzburg possui grandes méritos nisso. Apesar de sua sina de nunca chegar à etapa principal da Liga dos Campeões, o time acumula campanhas notáveis na Liga Europa. As semifinais alcançadas em 2017/18 permanecem como maior feito e, fatalmente, impulsionaram o coeficiente da liga austríaca no Ranking da Uefa. Algo que tende a beneficiar os próprios Touros Vermelhos num futuro próximo: com o 11° lugar no ranking, a Áustria teoricamente ganha uma vaga automática na fase de grupos da Champions. Seria o fim dos traumas na Red Bull Arena.

“Teoricamente” porque ainda há um risco claro ao Salzburg. Caso o vencedor da Champions não possua vaga automática na fase de grupos, o campeão nacional do 11° colocado no ranking perde seu lugar e acaba relegado à última etapa dos playoffs. Desta maneira, caso o Ajax conquiste o título continental ou o Tottenham faça o mesmo, em conjunto a uma reviravolta improvável do Arsenal rumo ao Top Four da Premier League, o time da Red Bull precisará entrar nas preliminares da Champions 2019/20. Um cenário hipotético, que depende do desfecho das próximas semanas. Por ora, enquanto aguardam, os Touros Vermelhos cumpriram sua missão e conquistaram o hexacampeonato nacional.

O título do Salzburg era uma barbada. Nas últimas 13 edições do Campeonato Austríaco, o clube não ergueu a taça em apenas três oportunidades. O investimento é maior e mais sólido que o realizado pelos concorrentes, o que se reflete na tabela. Na atual campanha, o Rapid Viena sequer avançou ao hexagonal final e o Austria Viena também fez uma campanha medíocre. Assim, o principal concorrente foi o LASK Linz, longe de competir com os Touros Vermelhos. Os favoritos terminaram a fase de classificação com nove pontos de diferença e apenas uma derrota sofrida. Já no hexagonal, confirmaram o feito com três rodadas de antecedência. Neste domingo, o Salzburg perdia do Austria Viena fora de casa até os 37 do segundo tempo, arrancando uma heroica virada por 2 a 1. Grande vitória para valorizar a comemoração.

Vale ressaltar, porém, a maneira como o Red Bull Salzburg tem se reconstruído nos últimos anos. Desde que o RB Leipzig chegou à segunda divisão da Bundesliga, se tornou comum a “venda” de jogadores ao coirmão alemão. A relação íntima facilitou o trânsito de talentos como Naby Keïta, Dayot Upamecano, Bernardo, Stefan Ilsanker, Péter Gulácsi e Konrad Laimer. Lesionado, Amadou Haidara já saiu no meio da temporada para encerrar sua recuperação em Leipzig, enquanto Hannes Wolf também fará suas malas. Ainda assim, a equipe austríaca tem feito novas apostas no mercado e também apresenta um bom trabalho nas categorias de base. Não à toa, a remontagem permite o impacto continental, além da hegemonia no Campeonato Austríaco.

Desta vez, o Salzburg também precisou superar as muitas contusões sofridas ao longo da campanha. Principal reforço para esta temporada, Zlatko Junuzovic deu mais tarimba ao meio-campo. Além disso, os Touros Vermelhos possuem uma consistente espinha dorsal composta por jogadores experimentados no clube – como Stefan Lainer, André Ramalho, Andreas Ulmer e Munas Dabbur. Juntam-se a eles promessas como Xaver Schlager, Hannes Wolf e Smail Prevljak, dando opções a uma campanha tão sólida. Todos muito bem aproveitados por Marco Rose, treinador de mentalidade ofensiva e trabalho excepcional em dois anos à frente do time, promovido após faturar a Uefa Youth League com os juniores em 2017.

O maior desafio ao Red Bull Salzburg, no entanto, não será apenas honrar a oportunidade na Champions – mesmo se entrar na última fase preliminar. As mudanças serão ainda mais drásticas para 2019/20. Grande referência ofensiva nas últimas temporadas, Dabbur seguirá ao Sevilla. Já o técnico Marco Rose assinou com o Borussia Mönchengladbach. O substituto é Jesse Marsch, que fez boas campanhas com o New York Red Bulls e trabalhou como assistente de Ralf Rangnick no Leipzig durante os últimos meses. Um “homem da casa”, que lidará com a pressão dentro de um clube no qual empilhar taças na liga nacional já virou trivial.

Copenhague e o reerguimento após a decepção

Desde que surgiu em 1992, fruto de uma fusão entre dois clubes tradicionais da capital, o Copenhague se colocou como uma potência na Dinamarca. Tinha o moderno Estádio Parken a seu favor e também um investimento maciço para se manter no topo. Não à toa, desde 2001, são 12 títulos em 19 possíveis e o FCK nunca ficou mais do que duas temporadas sem faturar o Campeonato Dinamarquês. O último ano havia sido atípico, com a quarta colocação, sua pior classificação neste século. Ao menos, os Leões tiveram o gosto de botar água no chope do rival Brondby e empurrar a inimaginável derrocada dos auriazuis. De qualquer forma, esta edição da liga exigia uma resposta e a potência reconquistou o topo.

Para se reconstruir, o Copenhague decidiu não realizar mudanças profundas. O técnico Staale Solbakken comanda o clube desde 2013 e continua à frente do projeto, independentemente da campanha ruim em 2017/18. O elenco também não passou por grandes modificações, com a adição de jogadores com experiência internacional, a exemplo do zagueiro Andreas Bjelland e do atacante Dame N’Doye. Contudo, o FCK também se valeu do crescimento de alguns jogadores para recobrar o título.

Com ótimos números ofensivos, o Copenhague apostou bastante na incisividade de seus pontas, mesmo jogando no 4-4-2. Pelo lado esquerdo, o dono da posição é Viktor Fischer, nome frequente nas convocações da seleção. O jovem de 24 anos surgiu sob muitas expectativas no Ajax, mas não vingou depois de passar por Middlesbrough e Mainz 05. Levado ao Copenhague em janeiro de 2018, o camisa 7 teve enorme participação na conquista. Apesar das leões, acumulou nove gols e 11 assistências em 22 partidas. Ótimos números? Sim, mas que acabam eclipsados por aquilo que Robert Skov produziu pelo flanco direito.

O jovem de 22 anos foi revelado pelo Silkeborg. Despontava no clube até ser contratado pelo Copenhague também em janeiro de 2018. Após uma temporada inicial sem muito impacto, a promessa se transformou nesta edição do Campeonato Dinamarquês. Foram 28 gols e nove assistências em 31 partidas, um número altíssimo, ainda mais considerando sua posição. O ponta une um bom porte físico e com qualidade técnica, quase sempre mortal em suas investidas pela diagonal. Além disso, a precisão nos arremates rendeu muitos tentos de fora da área. Graças a esses predicados, virou o melhor jogador da equipe e também fez olheiros de toda Europa se interessarem por seu futebol.

O Copenhague não embalou imediatamente no Campeonato Dinamarquês. Algumas derrotas no início da campanha impediram que se alçasse à liderança logo de cara. Todavia, o time terminou a temporada regular com uma série de 15 jogos invictos, incluindo 12 vitórias. E, durante o hexagonal decisivo, os Leões simplesmente bateram todos os seus adversários. São sete triunfos em sete partidas, garantindo a taça com três rodadas de antecipação. Por fim, a confirmação teve um sabor especial ao acontecer dentro do Estádio Parken, justo no clássico diante do Bröndby. De virada, os anfitriões contaram com um gol e uma assistência de Skov. O veterano Dame N’Doye (outro em grande fase) e Rasmus Falk Jensen também balançaram as redes. O português Zeca, de longa passagem pelo Panathinaikos, é o capitão e se encarregou de erguer a taça. Enquanto isso, o título ainda marca positivamente a despedida de William Kvist, ídolo do clube e da seleção que se aposentará ao final da temporada.

Restando mais três compromissos, o Copenhague soma 82 gols em 33 partidas – que se pese a disparidade entre competições, é uma média superior a Barcelona e Liverpool em suas respectivas ligas nacionais. A mudança de ares vivida no Parken se concentra na atitude. É ver como serão os reflexos deste bom ano. No mercado de transferências, é difícil imaginar que Skov continue. Por outro lado, a Champions League volta a surgir no horizonte, a partir da antepenúltima fase preliminar. Figurinha carimbada na fase de grupos, o FCK tenta aproveitar o momento positivo.

Estrela Vermelha e o melhor final a uma temporada memorável

Independentemente do que acontecesse no Campeonato Sérvio, o Estrela Vermelha já vivia uma temporada para entrar na história. O clube fez uma campanha fantástica na Liga dos Campeões, dentro de suas limitações. Superou as preliminares, com direito a uma classificação emocionante contra o próprio Red Bull Salzburg. Depois, em um grupo no qual o time era visto como saco de pancadas, conseguiu derrotar o Liverpool e atrapalhar o Napoli com um empate. O Marakana se encheu e não faltaram referências ao título de 1991, no retorno à fase principal do torneio após quase três décadas. E o mais bacana é que o trabalho teve continuidade, com a reconquista da liga nacional.

Não faz muito tempo, o Estrela Vermelha encarou uma longa seca no Campeonato Sérvio. O clube passou seis anos assistindo à hegemonia do rival Partizan Belgrado, que igualou o total de títulos dos Crveni junto com o hexa. Em 2014, os alvirrubros finalmente retornaram ao topo. E, desde então, a taça vinha alternando de mãos entre os eternos rivais – anos pares ao Estrela, anos ímpares ao Partizan. Por isso mesmo, o título de 2018/19 representa tanto.

O Estrela Vermelha, além de interromper a alternância, abriu vantagem na lista de campeões históricos (com 29 troféus, contra 27 do Partizan) e conquistou seu primeiro bi desde 2007. Teve competência, embora a má fase do Partizan permita que o Radnicki Nis se torne o primeiro vice além da dupla de Belgrado nesta década. Os alvirrubros lideraram de ponta a ponta. Terminaram o primeiro turno invictos, com 27 vitórias em 30 rodadas. Além disso, anotaram 80 gols e sofreram apenas 16. A supremacia se reduziu no octogonal final, com direito à primeira derrota – na visita ao ascendente Cukaricki, por 3 a 2. De qualquer maneira, os oito pontos de vantagem sobre o Radnicki Nis anteciparam o feito em duas rodadas. O Partizan, mal das pernas, atualmente ocupa o quarto lugar e está fora até da zona de classificação à Liga Europa.

À frente do Estrela Vermelha desde 2017, Vladan Milojević é o mentor do bicampeonato. O comandante forma um time equilibrado e que permite fluir o seu talento ofensivo. O ataque possui numerosas opções, com o alto rendimento de El Fardou Ben Nabouhane, Richmod Boakye e Milan Pavlov. O mercado bem planejado trouxe jogadores com experiência internacional, com menção especial ao zagueiro Milos Degenek e ao meia Marko Marin. Se não é um grupo com tantas revelações da base, como é de costume nos Bálcãs, os alvirrubros souberam se valer desta rodagem para os sucessos recentes.

Por fim, é impossível falar do Estrela Vermelha sem citar a sua torcida. O apoio incessante pela epopeia na Liga dos Campeões se refletiu também no Campeonato Sérvio. Embora a média de 12 mil por jogo seja relativamente baixa, apesar do crescimento em relação aos dois últimos anos, o Marakana ferveu na reta decisiva do octogonal final. Já neste domingo, o espetáculo aconteceu durante a vitória por 1 a 0 sobre o Mladost, que confirmou o bicampeonato. Não há como imaginar os alvirrubros sem este fanatismo.

A caminhada para garantir outra temporada histórica na Champions será longa. O Estrela Vermelha começa na primeira fase preliminar, precisando superar quatro confrontos caso queira reaparecer na fase de grupos. O ritmo forte imprimido no Campeonato Sérvio e a competitividade contra os poderosos do continente, ao menos, pesam a favor dos Crveni. De qualquer maneira, o tricampeonato nacional deve ser mesmo o principal objetivo para 2019/20. Tamanha sequência não acontece justamente desde 1992, o último ano do esquadrão esfacelado pela guerra. Seria outra maneira de honrar a história.