Estrangeiro mais querido do futebol alemão, Pizarro encerra a carreira como uma instituição da Bundesliga

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A permanência do Werder Bremen na Bundesliga valeu mais do que o alívio de sua torcida na primeira divisão. O empate contra o Heidenheim também ofereceu um final digno (ou pelo menos não tão melancólico) a um dos maiores atacantes da Bundesliga nas duas últimas décadas: Claudio Pizarro pôde se despedir do futebol profissional em paz. O peruano de 41 anos quase sempre entrou nos minutos finais das partidas e sequer marcou gols na atual edição do Campeonato Alemão. Ainda assim, coloca o ponto final em uma grande história, repleta de recordes e de carinho àquele que talvez seja o jogador estrangeiro mais querido do futebol alemão.

Revelado pelo pequeno Deportivo Pesquero e destaque no Alianza Lima durante o final dos anos 1990, Pizarro pode se considerar um cidadão honorário da Alemanha. O centroavante acumulou 21 anos em atividade na Bundesliga, em período praticamente contínuo, interrompido apenas por uma breve passagem pelo Chelsea. Pizarro conquistou todos os títulos possíveis com o Bayern de Munique e também vestiu a camisa do Colônia. Todavia, suas melhores fases foram vividas no Werder Bremen, onde construiu uma relação bastante íntima ao longo de quatro passagens. Por isso mesmo, a permanência na elite era tão importante ao veterano.

Foi o Werder Bremen que abriu as portas do futebol alemão a Pizarro, em 1999, quando o garoto de 20 anos havia acabado de se sagrar campeão com o Alianza e começava a despontar na seleção peruana. De tão interessados, os dirigentes do Bremen chegaram a assisti-lo através da fresta de uma cerca num treino fechado em Lima. A primeira temporada do novato no Weserstadion já causou impacto. O sul-americano balançou as redes pela primeira vez na segunda rodada da Bundesliga, numa goleada por 5 a 0 sobre o Kaiserslautern, e uma semana depois já anotava uma tripleta nos 7 a 2 em cima do Wolfsburg. O efeito positivo na equipe de Thomas Schaaf não se manteria por todo o tempo, mas os dez gols em sua primeira campanha na liga não deixavam de ser significativos.

Passado o primeiro ano, de adaptação, Pizarro destruiu em sua segunda temporada no Werder Bremen. O atacante somou 19 gols na Bundesliga 2000/01, a três de alcançar a artilharia do torneio. O segundo turno seria especialmente marcante, com 15 gols e cinco assistências em 17 aparições. Balançaria as redes duas vezes na vitória sobre o rival Hamburgo e também garantiu a vitória por 3 a 2 sobre o Bayern no Estádio Olímpico de Munique. A sétima posição dos Verdes não correspondia muito ao sucesso do centroavante. Por isso mesmo, vários clubes cresceram os olhos em seus serviços, incluindo até Barcelona e Real Madrid. Acabou mesmo assinando com o Bayern, fazendo as malas a Munique em 2001.

Neste momento, Pizarro deixava claro o tipo de atacante que era. A potência física e a boa estatura o tornavam mortal dentro da área. No entanto, seria um erro classificar o peruano como um mero centroavante que se valia de sua força. A qualidade técnica sempre esteve expressa, pela maneira como o artilheiro pegava na bola. Tinha um toque de classe e inventividade, capaz de anotar todo tipo de golaço. Fez de letra, de voleio, de bicicleta. A pancada de fora da área era uma especialidade, mas também sabia driblar se preciso e algumas pinturas nasceram deixando os adversários desnorteados. Além disso, nunca foi fominha, oferecendo um número expressivo de assistências aos companheiros.

Pizarro nem sempre foi titular absoluto do Bayern em sua primeira passagem. O que não significa que o peruano fosse uma mera opção no elenco de Ottmar Hitzfeld. Pelo contrário, mesmo com os bávaros tendo conquistado a Champions meses antes de sua chegada, o jovem se impôs como uma alternativa recorrente à linha de frente que também contava com Élber, Roque Santa Cruz e Carsten Jancker. Como homem de referência ou segundo atacante, Pizarro logo anotou 15 gols em sua primeira Bundesliga com o Bayern. Repetiria o número na campanha seguinte, quando foi vice-artilheiro do time e pela primeira vez campeão. Um dos tentos seria assinalado na essencial vitória sobre o Borussia Dortmund, vencedor do título anterior.

Em sua terceira temporada com o Bayern, curiosamente, Pizarro veria o Werder Bremen ser campeão da Bundesliga em 2003/04. Contribuiu com 11 gols. Após a chegada de Roy Makaay e a despedida de Élber, o ataque dos bávaros passaria a ter novas configurações sob as ordens de Félix Magath. Muitas vezes o comandante preferia deixar apenas o holandês na frente e, com isso, o peruano precisou se acostumar um pouco mais com o banco. Mas seguia ampliando suas marcas, com mais 11 tentos em cada uma das campanhas que valeram a Salva de Prata ao Bayern em 2004/05 e em 2005/06.

Pizarro não seria tão efetivo em seu sexto ano pelo Bayern, com oito gols na Bundesliga, e a diretoria acabaria investindo alto depois de um decepcionante quarto lugar em 2006/07. De uma só vez, os bávaros buscaram Luca Toni e Miroslav Klose para o time novamente treinado por Ottmar Hitzfeld. O peruano, sem chegar a um acordo pela renovação de seu contrato, faria as malas. Não que fosse um destino ruim se mudar ao Chelsea, turbinado pelo dinheiro de Roman Abramovich. Mas, ante a concorrência de Didier Drogba e Andriy Shevchenko, os poucos minutos logo fariam Pizarro retornar à Alemanha. Levado por José Mourinho à Premier League, acabou perdendo mais espaço com a saída precoce do treinador na temporada.

O Werder Bremen abriria as portas para Pizarro pela segunda vez. E, em tempos fortes no Weserstadion, o ídolo viveria o momento de maior protagonismo na carreira. Liderou uma equipe que fazia boas campanhas na Bundesliga, aparecia até na Champions e brigava por títulos nas copas. Pizarro fez 17 gols em sua reestreia no Campeonato Alemão, em 2008/09, com direito a uma vitória por 5 a 2 sobre o Bayern. Já o melhor ficou para a Liga Europa, na qual os Verdes alcançaram a decisão.

Pizarro anotou cinco gols, participando com tentos em todas as classificações. Chegaria a balançar as redes do Milan duas vezes, embora sua principal partida tenha ocorrido no dérbi contra o Hamburgo nas semifinais. Pizarro foi o pesadelo dos rivais na volta, com um gol e uma assistência para Diego nos 3 a 2 do Volksparkstadion. Faltou apenas aparecer um pouco mais na final, perdida diante do Shakhtar Donetsk em Istambul. Servia de consolo, ao menos, o título da Copa da Alemanha dias depois. Pizarro tinha garantido as classificações diante de Dortmund e Wolfsburg, antes de mais uma imposição na semifinal contra o Hamburgo. Já na decisão, Mesut Özil assegurou o triunfo por 1 a 0 sobre o Bayer Leverkusen.

O Werder Bremen teria nova chance na Liga Europa seguinte e, apesar da incrível marca de nove gols em oito jogos, artilheiro da competição, Pizarro não evitaria a queda diante do Valencia nas oitavas. De novo se colocaria entre os goleadores da Bundesliga 2009/10, com 16 gols e a vaga dos Verdes na Champions seguinte. Mas, sofrendo com as lesões, Pizarro anotou apenas nove tentos na Bundesliga 2010/11. Ficaria com fome de gols e se recuperaria com um desempenho excelente em 2011/12, com 18 tentos e 10 assistências. O Bremen, depois de perder muitos destaques, voltava a estagnar no meio da tabela. Por isso, seria bem-vindo o convite para retornar ao Bayern.

Pizarro chegou num momento em que Mario Gómez acabara de se lesionar. Jupp Heynckes era o treinador e o peruano teria concorrência pesada na linha de frente, também com a contratação de Mario Mandzukic. O veterano seria apenas a terceira opção na linha de frente. O que não tiraria o gosto de integrar o esquadrão que faturou a tríplice coroa em 2012/13, com sua dose de importância ao centroavante. Pizarro marcou 13 gols em 28 partidas, somando todas as competições. Foram seis tentos na Bundesliga, quatro somente nos 9 a 2 sobre o Hamburgo, titular na reta final. Também ajudaria com três na Copa da Alemanha. E foram quatro na Champions, um deles para sacramentar a classificação sobre a Juventus nas quartas de final.

Pep Guardiola chegou a Baviera e Pizarro seguiu como um reserva muito útil na primeira temporada do treinador com o Bayern. Não à toa, mesmo disputando apenas seis jogos como titular, somou dez gols em seu novo título na Bundesliga. O veterano fez estrago principalmente na reta final, quando ampliou os excelentes números da equipe. Só não causou o mesmo barulho em 2014/15, quando balançou as redes uma vez em 17 aparições na liga, eclipsado pela chegada de Robert Lewandowski. O peruano guardaria seu melhor para a Copa América de 2015, a quarta e última de sua carreira. Seus números na seleção são relativamente modestos, com 20 tentos em 85 partidas. De qualquer maneira, o velho ídolo deixaria sua marca na campanha no Chile, que rendeu a medalha de bronze à Blanquirroja – e a contestável ausência do matador entre os titulares na semifinal contra os chilenos.

A carreira de Pizarro parecia se encaminhar ao final em 2015/16, quando assinou de novo com o Werder Bremen. Aos 37 anos, quem apostava em um declínio silencioso ao artilheiro se enganou. Pizarro somaria 14 gols na Bundesliga, fundamental especialmente no segundo turno, quando os Verdes escaparam do rebaixamento. Anotou inclusive um hat-trick contra o Bayer Leverkusen, tornando-se o mais velho na história da liga a balançar as redes três vezes em uma mesma partida.

Depois disso, sim, o final ficava mais claro a Pizarro. Jogou por mais um ano no Werder Bremen, antes de se transferir ao Colônia, no qual não evitou o rebaixamento. Em 2018/19, assinou com o Bremen pela quarta vez e até vestiu a camisa 4 em referência. Seria um coadjuvante útil no time que flertou com a classificação à Liga Europa, com mais cinco gols pela Bundesliga, inclusive o que garantiu a vitória sobre o RB Leipzig na última rodada. Também ajudaria a eliminar o Dortmund na Copa da Alemanha, em campanha até a semifinal. Já na atual temporada, a última de sua carreira, Pizarro não balançou as redes nas 18 aparições pela Bundesliga. Os dois últimos gols aconteceriam na Pokal, diante do pequeno Atlas Delmenhorst.

Pizarro esteve por alguns minutos em campo nos 6 a 1 sobre o Colônia na rodada final do Campeonato Alemão, que deram sobrevida ao Werder Bremen em sua luta contra o descenso. Diante do Heidenheim, nos playoffs de rebaixamento, existia a clara expectativa de que Pizarro entrasse. O final de jogo dramático, em que os oponentes não deixaram de lutar em momento algum pelo acesso, acabaram por prevenir a participação do veterano. Mas não foi isso que impediu os companheiros do Bremen de dedicarem sua permanência na elite à grande referência dentro dos vestiários. Pizarro seria jogado pelos ares por seus colegas e receberia um caloroso adeus, mesmo sem a vibração da torcida nas arquibancadas.

Apenas pela Bundesliga, Pizarro anotou 197 gols. É o sexto maior artilheiro da competição em sua história e o segundo entre os estrangeiros, atrás apenas de Lewandowski. Também lidera a lista de estrangeiros com mais partidas pelo Campeonato Alemão, 490 no total – 132 a mais que o segundo colocado, o zagueiro brasileiro Naldo. E é difícil imaginar que alguém supere tão cedo sua marca de mais velho a balançar as redes pela Bundesliga, com 40 anos e 227 dias. Mais honroso ainda, é o maior artilheiro do Bremen na história da liga, com 109 tentos, superando ídolos do porte de Rudi Völler, Aílton e Marco Bode.

Pizarro despede-se da Bundesliga como uma instituição. O atacante atravessou três décadas distintas e 21 anos seguidos balançando as redes na competição. Os recordes falam por si. Porém, não dá para restringir o peruano aos números que tanto o engrandecem. Havia uma dose considerável de magia em seus gols. E havia também uma fonte inesgotável de carisma, de quem pôde ser ídolo de mais de uma torcida e adorado ao redor da Alemanha independentemente das cores que defendia. É raro achar um estrangeiro tão alemão quanto Pizarro. Vai demorar a outro sul-americano criar uma identificação tão forte com a Bundesliga.