O sexismo está presente na nossa sociedade diariamente, embora existam movimentos contrários para acabar com o abuso verbal que muitas mulheres sofrem diariamente. Quando se trata de jornalismo esportivo, as repórteres de campo costumam ser assediadas e ofendidas simplesmente por serem mulheres fazendo o seu trabalho. Na semana passada, uma repórter canadense resolveu não ignorar as ofensas e confrontou os agressores, que gritaram “Fuck her right in the pussy”, um meme que tem sido repetido contra repórteres mulheres em transmissões ao vivo.

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A expressão está sendo chamada pela sigla na América do Norte, FHRITP, e surgiu em janeiro de 2014, por um vídeo divulgado via Reddit. O vídeo “Repórter é demitido por comentários sobre mulher desaparecida em TV ao vivo” tornou-se imensamente popular no Youtube. Sem saber que já estava no ar, o repórter da Fox faz comentários inapropriados e sexistas sobre o que faria quando encontrassem a mulher desaparecida, incluindo a expressão FHRITP. Ele acabou demitido, mas o vídeo não foi colocado no ar por acaso. Quem colocou o vídeo foi John Cain, que criou um site exatamente com esse nome, FHRITP.

O vídeo acabou viralizando por ser citado no programa de TV “Things That Kill” e, a partir daí, John Cain passou a fazer uma ação orquestrada para faturar em cima do site que criou exatamente com esse nome, FFHRITP. Ele subiu outro vídeo no Youtube com um homem interrompendo uma repórter ao vivo, tomando o microfone para dizer “Fuck her right in the pussy”. O vídeo teve mais de 2 milhões de visualização e tornou-se um meme, que passou a ser repetido por pessoas que viam transmissões ao vivo de repórteres mulheres. Na verdade, os vídeos são farsas – não são repórteres de verdade, e sim vídeos produzidos por John Cain para viralizar a atitude. Ele passou a vender a camiseta com os dizeres FHRITP.

Chegamos então ao último domingo, dia 10 de maio, quando a repórter Shauna Hent fazia uma entrada ao vivo pelo canal que ela trabalha, CityNews, no pós-jogo do Toronto contra o Houston Dynamo, pela MLS. Um grupo de torcedores interrompe a entrevista da repórter com torcedores para dizer FHRITP. Ela resolveu confrontar estes torcedores e conseguiu colocar o assunto na pauta, expondo como esse tipo de atitude, e de pensamento, não cabe mais.

Hunt vai até o grupo, que parecia estar à espreita para dizer a expressão enquanto ela estivesse entrevistando os torcedores. Ela questiona se eles estavam esperando para dizer a expressão ao vivo. Um homem de óculos escuros responde que sim. A repórter, então, diz que é algo nojento de se dizer, que é ofensivo às mulheres. O torcedor, então, mostra um pouco do pensamento que torna os estádios de futebol um ambiente sexista, machista e agressivo às mulheres: “Onde mais você vai fazer isso?”. Depois, pergunta se a conversa está mesmo sendo gravada. O tempo todo, a repórter mantém o microfone.

“Quer saber? Eu estou cansada disso. Eu ouço isso todo santo dia. Dez vezes por dia por caras rudes como você. Quando você fala no meu microfone e diz isso para a minha câmera para telespectadores na emissora que eu trabalho, é desrespeitoso e degradante para mim”, diz Hunt. O torcedor responde de forma grosseira, rindo, dizendo: “Eu não me importo!”.

Entra em ação então um outro torcedor, identificado como Shawn Simoes, engenheiro, que vestia uma camisa do Arsenal e, segundo informações do Washington Post, recebia um salário de cerca de US$ 8,8 mil por mês. A repórter questiona: “Você não sabe que isso é velho? Não tem graça”. Simoes, então, responde: “Faz um ano! Você tem sorte que não tem um vibrador na sua orelha como na Inglaterra, porque acontece o tempo todo. É incrível e eu respeito isso”, diz Simoes, ao vivo, sem mostrar qualquer vergonha. Quando questionado pela repórter o que a mãe dele acharia disso, ele responde: “Minha mãe acharia hilário”.

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A atitude da repórter levantou a questão sobre o sexismo e como isso tem que parar, porque é uma agressão às mulheres. Mais do que isso, é uma agressão a mulheres que estão trabalhando, como se pessoas darem risada fosse mais importante do respeitar as mulheres. E se você já está preparando para dizer que isso é o politicamente correto tomando conta do futebol, é bom repensar, porque esses dois que aparecem no vídeo perceberam, da pior maneira possível, que isso não é só uma brincadeira inocente, que não faz mal a ninguém.

Shauna Hunt resolveu fazer barulho com isso, assim como o canal que ela trabalha. Colocaram o vídeo no ar e ela postou no Twitter:

Hunt foi convidada a participar do Breakfast Television, programa de Toronto, para falar sobre o episódio. A questão ganhava corpo e a grande maioria das pessoas ofereceu apoio à repórter, que ouviu essas ofensas. Esse tipo de atitude em relação às repórteres é comum, não só por essa expressão, que se viralizou, e Hunt conta como isso afeta até mesmo a vida cotidiana. “Homens abrem o vidro do carro para nos falar isso na rua”, ela conta no programa, que você pode assistir abaixo:

As ações geram reações e elas vieram. O grupo que é dono do Toronto FC, MLSE, divulgou um comunicado que baniu esses torcedores de entrarem no estádio novamente. “Estamos horrorizados que essa onda de comportamento desrespeitoso tenha chegado à nossa cidade, ainda mais em algum lugar perto do estádio”, diz nota do grupo, divulgada no Twitter. “Nós estamos trabalhando para identificar os indivíduos, e quando o fizermos, eles serão banidos das nossas instalações”. Segundo o jornal Toronto Star, a punição seria por pelo menos um ano.

Não foi só o grupo que é dono do Toronto que não gostou do que viu. A empresa Hydro One identificou Shawn Simoes como um de seus funcionários, tomou uma atitude imediatamente. Em comunicado divulgado no Twitter, a empresa diz: “A Hydro One está tomando passos para encerrar o contrato do funcionário por violar o Código de Conduta. O respeito por todas as pessoas está enraizada no nosso código e nos nossos valores. Estamos comprometidos com um ambiente de trabalho onde a discriminação ou assédio de qualquer tipo é recebido com tolerância zero”.

O torcedor de óculos escuros também foi identificado. Chama-se Ryan Hart e trabalha em uma empresa chamada Cognex, uma empresa que faz sistemas de sensores. Hart não perdeu o emprego, ao menos por enquanto, mas a empresa declarou que estava tratando do caso.

“Apesar do indivíduo estar participando de um evento no seu tempo livre e não estava em uma atividade da Cognex, as visões expressadas são totalmente inconsistentes com os valores da Cognex, e nós achamos esses comentários repreensíveis”, disse a empresa, em comunicado. “Nós não podemos comentar sobre a questão do empregado publicamente, mas nós levamos essa questão de forma muito séria e nós iremos tratar disso”.

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Depois de perceber o quão sérias as suas atitudes foram, e provavelmente temendo uma repercussão ainda pior, Shawn Simoes enviou um pedido de desculpas por escrito à CityNews, endereçado à repórter Shauna Hunt. Segundo a emissora, Hunt sentiu que foi um “pedido de desculpas sincero” e que estava “feliz em aceitar”.

Segundo reportagem do CBCNews, do Canadá, não é nem preciso criar uma lei para atribuir esse tipo de comportamento como passível de punição. Esse tipo de caso, segundo o advogado Boris Bytensky, da empresa de advocacia canadense Adler Bytensky Prutschi Shikman, esse tipo de comportamento pode ser enquadrado como “injúria” ou “causar perturbação”. Ou seja: sim, é um comportamento agressivo e passível de punição criminal.

Para o advogado, entrevistado pela emissora, esse tipo de comportamento dificilmente levará alguém para a cadeia, mas a simples ameaça de processo e de ser fichado como criminoso já teria um efeito de diminuir esse tipo de caso. “Neste momento, as pessoas veem isso como uma grande brincadeira, e agora finalmente estão começando a ver que não é inofensivo”, diz o advogado. “Se isso for além e houver divulgação pública de um indivíduo que está sendo processado, esperamos que esse comportamento comece a mudar”, argumentou ainda Bytensky. “Ninguém vai para a cadeia por isso, eu não acho. Não é a ameaça de ir para a cadeia que os assusta, é ser identificado como criminoso”, conclui.

Esses torcedores descobriram que um meme de internet pode ser um problema muito sério. Que sexismo, machismo e esse tipo de comportamento preconceituoso não é uma brincadeira inocente, ofende as pessoas e, sim, pode custar muito caro.