O Campeonato Brasileiro tem chamado cada vez mais atenção no exterior. Com a contratação de jogadores que brilharam no futebol europeu, como Deco, Ronaldinho, Luís Fabiano e mais recentemente Seedorf, Guerrero e Pato, a imprensa internacional presta mais atenção ao que acontece por aqui. Além dos jogadores que brilharam na Europa, há ainda o fenômeno Neymar, que chama a atenção e torna-se sempre um sucesso de vídeos na internet e é quem mais causa ansiedade em jogos da seleção. Talvez tudo isso explique o fato de uma emissora de um grande país do futebol europeu ter anunciado com pompas a compra dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro.

A italiana RAI anunciou que irá transmitir jogos do futebol brasileiro no seu canal de esportes por assinatura, a Rai Sport 1. Serão transmitidos dois jogos por semana, do Campeonato Paulista, Carioca e do Brasileiro. A partir de abril, serão três jogos transmitidos por semana. É uma ótima notícia para o futebol brasileiro, que passará a ser visto em um dos países mais tradicionais do futebol mundial, tetracampeão do mundo. Só que também deixa a pergunta: estamos prontos para a internacionalização do Campeonato Brasileiro ou é apenas um efeito secundário dos clubes estarem com dinheiro para trazer estrelas?

O Campeonato Brasileiro está em um nível próximo ao Italiano, talvez até um pouco à frente. E curiosamente, vivemos problemas semelhantes. A organização ainda é o maior pecado do futebol italiano, assim como por aqui. Os estádios são, em sua maioria, públicos e, em muitos casos, deficitários. A média de público é baixa – perto dos padrões europeus –, assim como no Brasil.

Temos alguns problemas próprios, como calendário para lá de inchado – mal dá para ter um mês de férias para os jogadores -, não respeitamos as datas Fifa e temos uma organização de divisões inferiores pior que a Itália. A Itália tem o grave problema da manipulação de resultados, algo que tem criado grandes problemas ao futebol italiano e europeu, por tabela. Esse é um problema que constantemente atormenta o futebol do país. Apesar dos problemas, isso não impede a internacionalização do Campeonato Italiano, mas fez com que a liga perdesse prestígio frente a Premier League, Bundesliga e La Liga.

Os problemas do futebol brasileiro não irão impedir que a internacionalização do Campeonato Brasileiro aconteça. Mas será difícil explicar porque clubes jogam até 23 vezes pelos campeonatos estaduais, ou por que a liga não paras quando a seleção joga. Será preciso também organizar para que os jogos sejam espalhados de maneira racional, não apenas porque a transmissora acha que o jogo tem que ser na quarta à noite, e não no sábado, como inicialmente programado.

Os dois primeiros jogos transmitidos para a TV italiana serão Linense e Ponte Preta, no sábado, às 22h30 no horário italiano, e Santos e Corinthians no domingo, às 20h no horário italiano. O primeiro jogo não é exatamente um bom cartão de visitas para mostrar o futebol brasileiro ao exterior. No domingo, a coisa muda de figura, ainda mais com o time de Neymar e o campeão mundial em campo. Montar a tabela com jogos bem distribuídos é importante. Os campeonatos no mundo todo fazem isso. Alguns times ingleses chegam a ganhar mais dinheiro com os direitos de transmissão internacionais do que nacionais.

O dinheiro dos clubes aumentou, especialmente por causa do aumento do valor dos direitos de TV. E são justamente esses direitos que podem aumentar com a internacionalização. Para isso, será preciso se organizar. Até porque vender os direitos individualmente, como é feito internamente, será complicado.

Cada vez mais se faz necessário que se crie uma liga, que trate o Campeonato Brasileiro e o futebol brasileiro como um todo melhor que a CBF tem feito. Mas aí seria preciso que os clubes se unissem, lidassem com os seus interesses de forma coletiva. Fica difícil imaginar isso em um universo de clubes que seguem a premissa: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.