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Antes de Kaká, Brasil está na história do Orlando desde a Seleção de Masters de Rivellino

O Orlando City começa neste domingo a sua história na MLS, a principal liga de futebol nos Estados Unidos. Mas a história que o time começa muito antes, há mais de três décadas. Muito antes da MLS, criada em 1996, o time teve uma história de futebol amador nos anos 1980 que foi marcada por jogos contra times estrangeiros, especialmente um: a Seleção Brasileira de Masters, que tinha em Rivellino a sua principal estrela. Aquele jogo ajudou a mudar a história do então Orlando Lions, que se tornaria profissional no ano seguinte.

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O Brasil teria uma participação marcante na história do Orlando, que passaria a ter Flavio Augusto da Silva como dono em 2013, quando ainda era Orlando SC, e tornou-se um time da MLS, a principal liga dos Estados Unidos, em 2014. Neste ano de 2015, a história do agora Orlando City tem o brasileiro Kaká como o seu protagonista e espera que o Brasil continua levando sucesso ao time. Conheça a história do time na cidade que mais recebe turistas brasileiros nos Estados Unidos.

O início
Time do Orlando Lions em 1986
Time do Orlando Lions em 1986

Em 1983, quem iniciava a história era Mark Dillon. Ele se mudou para Orlando para treinar o time do Rollins College Tars e ali viu que a cidade tinha potencial para maias do que o esporte na universidade. A grande Orlando estava crescendo em população e o futebol ganhava cada vez mais adeptos. Já naquela época, 8,5 milhões de americanos jogavam futebol e a prática do esporte entre crianças já tinha ultrapassado o beisebol.

O problema é que o futebol, mesmo crescendo na prática das pessoas no dia a dia, vivia um momento de crise no futebol profissional. A North American Soccer League (NASL) estava mal das pernas e acabaria fechando suas atividades em 1985. Com sonho de grandeza, a liga criada em 1968 fracassou depois de ter entre seus jogadores grandes estrelas do futebol internacional em fim de carreira, sendo o maior deles Pelé, no New York Cosmos, entre 1975 e 1977.

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Com todos estes problemas, Dillon ainda acreditava que era possível ter um time de futebol em Orlando. E ele sonhava alto: queria um estádio específico para futebol – muitos dos times da NASL jogavam em estádios adaptados – e com público de 15 mil pessoas. Queria também ter uma estrutura de treino de alto nível, que atraísse grandes times europeus a treinarem no local na sua pré-temporada. Olhar para isso com o olhar de 2015 parece óbvio, mas estava longe disso nos meados dos anos 1980.

Entre os empreendedores, há quem diga que a crise é um momento de oportunidade. Dillon fundou o Football Club Orlando em 1985, exatamente o ano que a NASL fechou as portas. Foi uma parceria de Mark Dillon com o técnico Steve Nash, que treinava a Lake Howell High School, uma escola de ensino médio. O clube nasceu para ter diversos níveis de times e o Orlando Lions era o principal deles, mas ainda era amador.

Começou aos treinamentos em janeiro de 1986, quando juntou ex-jogadores amadores de faculdade. Em 22 de fevereiro, fizeram o seu primeiro jogo, seis semanas depois de começarem a treinar, contra o Tamba Bay Rowdies, um time que era profissional. Mesmo estando um nível abaixo, perderam só por 1 a 0. Ainda tiveram 4.200 torcedores acompanhando o time. Um bom sinal para um time recém-formado.

O time fez amistosos contra times importantes naquele ano de 1986. Entrou em campo contra o Hamburgo, Glentoran, da Irlanda do Norte, Dunduee United, da Escócia, a seleção do Canadá e o time All-Star da NASL. O time acabou perdendo quatro desses jogos e empatou um, com o Hamburgo. O time ainda enfrentaria naquele ano o Oxford, National Westminster, ambos da Inglaterra, Wehen Weisbaden, da Alemanha, e Universidad Católica, da Argentina.

A ficha técnico de jogo do Orlando Lions em 1986
A ficha técnico de jogo do Orlando Lions em 1986

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Em 1987, ainda amador, Mark Dillon queria criar a Southern League, uma liga semiprofissional, que permitisse que o Orlando Lions mantivesse o status de amador. O time não tinha estrutura e dinheiro para pagar salários aos jogadores. A ideia não vingou, mas havia uma vontade de dirigentes como Clive Toye, ex-secretário-geral do Noew York Cosmos, e Chuck Blazer, secretário-geral da Concacaf, que se criasse uma nova liga com os times da costa leste. Essa ideia levou à criação da American Soccer League (ASL), que começaria só em 1988. Em 1987, o Lions permaneceria amador. Precisaria se preparar para a temporada seguinte como profissional, o que significava procurar investidores.

O calendário de jogos daquele ano tinha um jogo bastante especial: um amistoso com a Seleção Brasileira de Masters, de Luciano do Valle. Contra Rivellino, Edu, Serginho Chulapa e companhia, os Lions tiveram que se esforçar muito para se igualar aos veteranos. O Brasil saiu na frente com um gol de pênalti marcado por Lola, ex-Atlético Mineiro. O empate veio com Keith Buckley, de cabeça, vencendo o goleiro Ado, ainda no primeiro tempo.

“Nós sentimos a situação”, disse Mark Dillon sobre o jogo ao jornal Orlando Sentinel. “Eles vieram e nos intimidaram. Quando os Lions relaxaram e perceberam que eles poderiam acelerar e controlar o tempo de bola, ficaram bem”, analisou ainda o técnico e idealizador do Orlando Lions. “Foi uma questão de um tocando uma valsa e o outro tocando rock”. A empolgação fazia sentido porque o time voltou melhor no segundo tempo e acabou criando chances para vencer. O empate por 1 a 1 deixou o pessoal de Orlando bem animado.

“Isso realmente no coloca no mapa”, disse Dillon. “É um aumento real para a nossa credibilidade, sem mencionar o grande aumento de confiança para o nosso jovem time”, disse ainda. O jogo foi no Citrus Bowl, o mesmo estádio que o Orlando City estreia neste domingo na MLS, e teve um público de 3.375 pessoas. Quase 28 anos depois, o jogo inaugural do Orlando City terá mais de 60 mil pessoas e um brasileiro, Kaká, melhor do mundo em 2007 e consagrado no futebol mundial, como a sua grande estrela.

A lista de jogos do Orlando Lions em 1987, incluindo jogo com a Seleção Brasileira de Masters
A lista de jogos do Orlando Lions em 1987, incluindo jogo com a Seleção Brasileira de Masters

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O profissionalismo, o fim e a volta

Mark Dillon teve que vendeu o time para investidores no final de 1987 para tornar o seu sonho de ver o time virar profissional realizado. Conseguiu. Na temporada 1988, o time jogou a ASL, terminando em quarto na divisão sul. Jogaria até 1990, quando se fundiram com o Fort Lauderdale Strikes – time que atualmente tem como um dos seus sócios o ex-jogador Ronaldo.

O Orlando Lions ainda voltaria a existir em 1992, desta vez para jogar a United States Interregional Soccer League (USISL), liga que se tornaria a PDL, que atua como uma liga de desenvolvimento. Jogou até 1996, quando encerrou novamente as atividades. Mas a volta seria triunfal.

Em 2010, o time foi novamente formado pelo grupo identificado como Orlando Pro Soccer. Em outubro de 2010, Phil Rawlins, presidente do time até hoje, comprou os direitos para entrar na USL Pro, a terceira liga mais importante do futebol nos Estados Unidos. Começou a jogar o torneio em 2011 e não poderia começar melhor: foi campeão na sua primeira temporada, com média de público de 5.265 pessoas na fase regular e de 9.043 nos playoffs. Foi semifinalista da temporada 2012 e novamente campeão em 2013. Em 2014, caiu nas quartas de final.

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Novamente, o Brasil
Kaká é apresentado no Orlando City (Foto: divulgação)
Kaká é apresentado no Orlando City (Foto: divulgação)

O ano de 2013, porém, foi especial para o Orlando SC. Foi quando o brasileiro Flavio Augusto da Silva, empresário reconhecido no Brasil por ter fundado e tornado a Wise Up uma das maiores escolas de inglês do Brasil e pelo projeto Geração de Valor, uma preparação para empreendedores como ele. Reconhecido por seu empreendedorismo, Flavio tornou o Orlando seu projeto e viu ali a cultura e o potencial necessário para tornar o time a próxima franquia da MLS. No dia 17 de fevereiro de 2013, ele se tornou o dono do clube. Phil Rawlins, o presidente, e Flavio levaram Orlando e a Flórida de volta à MLS.

Foi com uma grande atuação de um brasileiro fora de campo que o Orlando SC tornou-se Orlando City e uma franquia da MLS. O sonho de Mike Dillan, de um estádio específico para futebol para 15 mil pessoas, será realizado em 2016, quando o Orlando City se mudará para o seu estádio próprio. Neste domingo, Kaká vestirá a camisa 10, consagrada por Pelé no mundo todo e marcante nos Estados Unidos. Será o capitão de um time que terá o apoio de mais de 60 mil pessoas.

O sonho de Mike Dillan está realizado. O jogo contra o New York City, neste final de domingo, será a consolidação de um projeto que começou há 32 anos. Um sonho americano, mas com um brasileiro sendo o seu realizador fora de campo e espera que em campo, outro brasileiro possa levar o time longe na MLS a partir deste ano de 2015.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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