Copa do MundoEstados Unidos

Como Lalas e os heróis de 94 fizeram o futebol sair do nada para se tornar orgulho nacional

Quando aceitaram receber a Copa do Mundo, em 1987, os Estados Unidos sabiam que não teriam grandes problemas estruturais para realizar o torneio. Os enormes estádios do futebol americano seriam adaptados para o novo esporte. O maior desafio se colocava mesmo na parte esportiva. Naquela época, a estrutura para o futebol no país era parca. A NASL havia falido e deixado um rombo competitivo. No máximo, existiam clubes amadores, as equipes universitárias e os jogadores que atuavam na Europa. Era preciso montar um projeto firme. Era preciso montar uma seleção do zero.

Assim, os americanos criaram uma academia de futebol para trabalhar os seus atletas. Eles ganhavam um salário relativamente baixo, lidavam com problemas estruturais e passavam a maior parte do ano na estrada. Mas, assim, conseguiram criar um senso coletivo imenso. Assim, passaram a alimentar as expectativas de todo o país em torno de uma grande campanha. Conseguiram. Avançaram de fase e caíram em pé diante do Brasil. Tornaram o futebol uma febre nacional e ofereceram as bases para a criação da MLS.

Abaixo, resgatamos a história da seleção americana rumo à Copa de 1994, a partir de depoimentos dados a Roger Bennett, em matéria do ESPN FC de março de 2014. O especial, dividido em quatro partes, é bem mais extenso. Destacamos a visão de Alexi Lalas, um dos líderes daquele time e também um dos mais articulados, além de trechos de outros protagonistas. Confira:

Alexi Lalas

O início dos treinos

Em sua essência, Mission Viejo era um reality show sem regras e, ainda bem, sem câmeras. Chegamos durante a temporada do El Niño. O local estava completamente inundado. Tudo o que podíamos fazer durante semanas era correr na praia. Quando finalmente pudemos, não tínhamos um vestiário. A gente precisava se trocar em um shopping e atravessar uma estrada para chegar ao campo de treinos. Um caminhão fora de controle poderia ter dizimado toda uma geração de talentos. Eles nos deram um apartamento e um contrato de US$ 2,5 mil renovado mês a mês. Isso pode não parecer muito dinheiro, mas era tudo o que eu tinha.

As cobranças

Nós falávamos o tempo todo sobre o medo de nos envergonhar. A pressão era imensa. Estávamos jogando não apenas pelo nosso time ou por nossa nação. Estávamos lutando pelo futuro do nosso esporte. Se fizéssemos uma cagada, o futebol nos Estados Unidos poderia nunca se recuperar. Nós tínhamos que passar da fase de grupos.

O técnico

Bora Milutinovic era uma incrível combinação do Mestre Yoda com o Zé Colmeia. Algumas vezes as suas palavras não faziam sentido para ninguém. Eu não sei mesmo se elas faziam sentido a ele. Para Bora, tudo era importante. Ele podia colocar o dedo no nariz e nos mandar “cheirar o que estava acontecendo”. Era sempre hilário. Eu percebi, como alguém inexperiente, que a aproximação de Bora era tudo o que eu precisava. Isso me fez entender cada decisão em campo e o melhor defensor é aquele que pode computar incontáveis opções para escolher a melhor. Bora conhecia quais botões apertar.

A disputa pela convocação

Novos jogadores estavam se misturando o tempo todo. A luta por um lugar foi uma competição brutal travada por homens brutalmente competitivos. Cle Kooiman chegou do Cruz Azul e imediatamente cuspiu em um adversário. Todo mundo ficou se perguntando que diabos era aquilo. O cara mais doce do mundo fora de campo se transformava em um psicopata. Também não tínhamos ressentimentos sobre os “europeus”. Sabíamos que eram parte importante da equipe. Mas às vezes parecia que estávamos passando por algo infernal e eles caiam de paraquedas quando chegavam de seus clubes. Eles deviam fazer o que tínhamos feito por um ano e meio. Treinamos juntos, bebemos juntos, viajamos juntos. Fomos guerreiros.

1994 World Cup

O estrelismo

Por causa da minha aparência e a do Cobi, tivemos muitas oportunidades. Eu era o cara do rock, ele era o cara da dança. Eu não planejei isso, mas desde que começou a acontecer, sabia o que era. Cresci na cena do metal nos anos 1980, era tudo sobre imagem e autopromoção. Sem ter jogado a Copa de 1990, logo me torneio um líder do elenco quando começamos a fazer dinheiro e ser reconhecidos. Mesmo sendo um esporte coletivo, eu fiz de tudo para ter a melhor aparência. Isso pode parecer egoísta e arrogante, mas eu posso dizer confortavelmente que nunca fiz algo que ofendesse o time.

O uniforme

Durante a apresentação do uniforme, muitos nós pensamos que aquilo era uma piada ou uma pegadinha. Quando ficou claro que não era, pensamos na merda que ficou. Já estávamos sob uma pressão incrível para não ser motivo de chacota e alguém pensou que aquela era uma boa ideia para entrarmos em campo.

As vésperas da estreia

Estávamos sentindo muita pressão. Sentíamos que representávamos o futuro do futebol no país. Então, Bora tentou incutir em nós a lição de um de seus lemas: “Carpe Diem”. Ele quis que a gente percebesse a oportunidade que estava diante de nós, então ele corria pelo vestiário gritando em seu desajeitado inglês: “Aproveite o dia! Aproveite o dia! Aproveite o dia!”. Antes da estreia, Bora passou o clipe de “I Want it All”, do Queen, o que para mim diminuiu a emoção do momento.

A primeira fase

Mais do que êxtase, após o primeiro gol, eu senti alívio. O gol foi o primeiro momento em que a confiança em nós se justificava. Já o apito final contra a Colômbia foi o melhor momento em toda a minha experiência na Copa. Eu olhei ao redor, para o estádio lotado cheio de bandeiras e o grito de “USA!”. Quando eu era pequeno, a minha referência era o Miracle on Ice. Quando eu olhei em volta, senti como se estivesse vivendo aquilo em um campo de futebol.

A repercussão

Antes da Copa do Mundo, eu tocava regularmente em um bar de Laguna Beach. Ninguém ali tinha a menor ideia de quem eu era. Depois, sempre que eu ia a um restaurante, todo mundo se levantava para aplaudir. Esse tipo de adulação aconteceu em toda parte até 2000, quando eu tirei o meu cavanhaque. Para uma geração de americanos, foi a primeira vez que tinham visto de perto uma seleção com a qual poderiam se relacionar, que teve sucesso e da qual puderam se orgulhar.

A vida após a Copa

Tive a chance de me transferir para o Padova na Serie A. Quando jogamos com a Inter, fui escolhido aleatoriamente para o exame antidoping ao lado do Bergkamp. Tivemos que esperar em uma sala até que conseguíssemos urinar e ficamos conversando. Você podia simplesmente olhar na cara dele e perceber a pressão que sofria no dia-a-dia do futebol, a maneira como aquilo o destruía – exatamente o sacrifício que ele passou para chegar lá. Naquele momento, percebi como eu tinha sido alheio a essa luta. Até hoje, há momentos na vida, quando vou fazer algo pela primeira vez que me deixa com receio, em que ouço a voz de Bora na minha cabeça dizendo: “Tudo bem, no futebol, o importante é a próxima jogada”. Essa frase funciona para toda a vida, assim como funcionou na Copa de 1994.

United States team captain Tony Meola, right, comforts crying teammate Marcello Balboa after the United States was eliminated by Brazil in the second round World Cup soccer championship match, Monday, July 4, 1994 in Stanford Stadium, Stanford, Calif. Brazil beat the United States 1-0 and will play Holland in the quarterfinals of the World Cup on Saturday July 9 at the Cotton Bowl in Dallas. (AP Photo/Lois Berbstein)

Tony Meola

Estávamos na estrada constantemente. Em 1992, eu contei 250 dias viajando. Nós entregamos as nossas vidas pelo jogo. A missão de Bora era que nós enfrentássemos cada atleta que tínhamos chance de encontrar na Copa do Mundo. Estávamos na União Soviética antes de um golpe contra Gorbachev. Fomos o último time a jogar na Iugoslávia antes do início da guerra. Fomos o último time a jogar na Alemanha Oriental antes da queda do muro. Aquela Copa mudou a minha vida. O grupo era especial, pelo esforço que tivemos. Eu olho para os caras que jogam hoje (o dinheiro, os treinos, a rotina) e naquela época não tínhamos ideia do que aconteceria. Nós poderíamos ser mandados para a Arábia Saudita algumas vezes para treinar apenas poucos dias. Nós não construímos um futebol sólido nos Estados Unidos. A MLS foi adiada por um ano, o que nos deixou temerosos. Era uma época de escolhas estranhas. Nós tínhamos fama, mas nenhum lugar para jogar. Mas mantivemos a bola rolando para que Tim Howard, Michael Bradley e Landon Donovan continuem empurrando-a para frente.

Marcelo Balboa

Na primeira vez em que nos encontramos com Bora, ele se introduziu dizendo: “Meu nome é Bora. B-O-R-A”, dizendo devagar, como se a gente fosse criança. Todo o seu estilo era calculado com astúcia. Jogamos o equivalente a uma temporada completa da MLS contra seleções nacionais. Um dia nós enfrentávamos a Inglaterra ou a Alemanha em um grande estádio. No seguinte, pegávamos Ilhas Cayman em um campo escolar com poucas pessoas vendo. Eu amava os grandes jogos, mas temia os pequenos. Eram sempre disputados em estragados pequenos campo e eu morria de medo de me lesionar.

United States national team forward Eric Wynalda (11), right, is congratulated by teammates after scoring the first United States goal in their World cup soccer championship, Group A, first round match against Switzerland, on Saturday, June 18, 1994. Teammates from left are: Mike Sorber (16), Alexi Lalas (22) and Tab Ramos (9). (AP Photo/Lennox McLendon)

Cobi Jones

Eu tive que deixar a UCLA para me juntar à seleção. Meus pais eram torcedores, então a decisão de jogar futebol em tempo integral era angustiante. Durante os primeiros dias, ser parte do projeto fez com que eu me sentisse tanto empolgado quanto reticente. Nós sabíamos que todos nos Estados Unidos tinham grandes esperanças no experimento, mas não tínhamos ideia para onde estávamos indo. Depois, todo mundo passou a nos reconhecer de repente. Estranhos que não acompanhavam futebol começaram a se aproximar de mim em restaurantes e dizer o quão orgulhosos estavam pela maneira como eu representei o país. Eles todos sentiam que tiveram uma pequena participação no nosso sucesso. Pelo menos estávamos sendo notados. Finalmente o futebol ganhava respeito nos Estados Unidos. O Coventry City me contratou. Pela primeira vez, encontrei jogadores que viam o futebol mais como um trabalho do que como uma paixão.

Tab Ramos

Os jogadores do exterior se juntaram ao time três semanas antes da Copa e foi estranho voltar aos Estados Unidos. Dava para sentir algo diferente. Eu cresci durante uma época em que as pessoas não se importavam como o futebol. Eu voltei a um país no qual o futebol estava nas ruas, na TV, em todos os lugares. Era como se os Estados Unidos tivessem sido invadidos por outra superpotência que realmente fosse um país do futebol. O legado da Copa é que o futebol realmente passou a existir para os Estados Unidos. Eu rezei para que não retrocedêssemos. O Cosmos ofereceu uma falsa promessa. O futebol importou por um minuto, mas não no seguinte. Oramos para que tudo pudesse ser feito da maneira certa, investindo nos jogadores. O lançamento da MLS se tornou um passo à frente que todos sabíamos ser necessário. Eu tive a honra de ser o primeiro jogador a assinar um contrato com a liga. Eu me senti incrível. Finalmente estava em casa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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