A gente pode questionar os motivos que levam a Conmebol a realizar a final da Libertadores em jogo único, assim como lamentar pelo muito que se perde em atmosfera e cultura local com a mudança no regulamento. No entanto, será preciso lidar com a ideia nos próximos anos. E a primeira edição do novo formato ao menos acontecerá em um estádio com notável história na competição. A decisão de 2019 está marcada para o Estádio Nacional de Santiago, em escolha ratificada pela confederação sul-americana nesta terça-feira.

VEJA TAMBÉM: Presidente da Conmebol quer “Libertadores como Super Bowl” e, assim, renega própria Libertadores

A realização da Copa América no Chile em 2015 certamente facilitou o caminho para o Estádio Nacional, que passou por reformas para receber a competição. Além disso, é um palco de riquíssima história, e não apenas pelo emblemático fato de que serviu como prisão durante o início da ditadura de Augusto Pinochet. Vários esquadrões da Libertadores se consagraram em Santiago. Durante o período no qual havia a possibilidade de um terceiro jogo de desempate nas finais, a cancha chilena era escolhida com frequência. Foram seis partidas neutras no campo, além de outras cinco envolvendo clubes locais.

As três primeiras finais no Estádio Nacional aconteceram na década de 1960, envolvendo uruguaios e argentinos. O primeiro a se consagrar por lá foi o Independiente, em 1965, faturando o bicampeonato em cima do Peñarol. No ano seguinte, os aurinegros dariam a volta por cima. O clube de Montevidéu derrotou o River Plate, em famosa virada por 4 a 2 que rendeu o apelido de “galinhas” aos argentinos. Já em 1967, seria a vez da consagração do Racing, que superou o Nacional no terceiro encontro.

Em 1973, às vésperas do golpe militar no país, o Colo-Colo levou uma multidão de 80 mil para o segundo jogo contra o Independiente. O empate por 1 a 1 na Argentina abria o caminho ao Cacique, mas nova igualdade forçaria o terceiro encontro em Montevidéu, vencido pelo Rojo. No ano seguinte, o clube de Avellaneda derrotaria o São Paulo, por lá, na terceira partida. E abriria o caminho ao seu sétimo título continental no mesmo local, em 1975, no primeiro duelo contra a Unión Española. Apesar da vitória dos chilenos por 1 a 0, os argentinos virariam a situação nos próximos dois encontros.

VEJA TAMBÉM: Final em jogo único tem a ver com a arenização. E é isso que a Conmebol quer

O primeiro clube brasileiro a ter boas lembranças em Santiago foi o Cruzeiro, em 1976. O primeiro título da Raposa na Libertadores foi conquistado lá, no terceiro jogo contra o River Plate. Depois da goleada no Mineirão e da derrota magra no Monumental, os cruzeirenses ratificaram a superioridade ao baterem os portenhos por 3 a 2, graças ao histórico gol de Joãozinho aos 43 do segundo tempo. O Flamengo não teve a mesma sorte em 1981. Em jogo muito pegado, o Cobreloa (do norte do país, mas que disputou a final na capital) venceu por 1 a 0 o segundo duelo, após derrota por 2 a 1 no Maracanã. Seria necessário que os rubro-negros vencessem o jogo de desempate em Montevidéu para conquistar a América. E em 1982, o empate por 0 a 0 no Estádio Nacional foi o primeiro passo no tetra do Peñarol contra o próprio Cobreloa.

A última vez que o jogo extra da Libertadores aconteceu foi em 1987. E teve novamente Santiago como palco. Um duelo apoteótico entre Peñarol e América de Cali, no qual a vantagem do empate era dos colombianos. Nos últimos segundos, Diego Aguirre balançou as redes e protagonizou um dos resultados mais surpreendentes da história do torneio, frustrando o clima de festa entre os oponentes. Deu a taça pela última vez aos carboneros, então treinados pelo jovem Óscar Tabárez. Por fim, enquanto o Colo-Colo mandou a decisão de 1991 na sua casa, o Estádio Monumental David Arellano, já se passam 25 anos desde a última vez que a final do certame aconteceu no Estádio Nacional. A Universidad Católica até bateu o São Paulo no segundo jogo de 1993, o que pouco adiantou, com a goleada no Morumbi valendo o bicampeonato tricolor.

VEJA TAMBÉM: Final única: Libertadores busca o dinheiro fácil sob o risco de perder a própria essência

Cabe ressaltar que, no passado, a escolha recorrente do Estádio Nacional tinha razões logísticas e estruturais. O palco da final da Copa do Mundo de 1962 ficava relativamente próximo dos outros países da porção sul do continente, o que barateava os custos e facilitava sua utilização. Com as presenças constantes de uruguaios, argentinos e brasileiros, a motivação se tornava natural. Entretanto, nem sempre os públicos eram tão altos. Se Independiente x São Paulo levou 60 mil às arquibancadas em 1974, apenas 25 mil viram o título do Peñarol em 1987. A realidade, de qualquer forma, é outra tantas décadas depois. E a Conmebol certamente também aposta no potencial turístico de Santiago para fazer seu novo projeto vingar, apesar das desconfianças.

Além disso, a Conmebol também confirmou a realização da final da Copa Sul-Americana de 2019 em Lima. O estádio não foi anunciado, mas o mais provável é que a decisão aconteça no Nacional, casa da seleção peruana. Inaugurado em 1952, recebeu o terceiro jogo da final da Libertadores em 1971, quando o Nacional faturou o troféu pela primeira vez, ao evitar o tetra do Estudiantes. Depois disso, em 1972 e 1997, também abrigaria jogos locais de Universitario e Sporting Cristal em decisões nas quais ambos acabaram perdendo o título.


Os comentários estão desativados.