Ricardo Teixeira saiu da toca onde se enfiou depois de renunciar à presidência da Fifa e ser condenado pela Justiça suíça por corrupção. Entrou em contato com o Terra para explicar as acusações da revista britânica World Soccer de que teria recebido mais de R$ 100 milhões para votar no Catar como sede da Copa do Mundo de 2022. Na ânsia de negar corrupção, deixou claro que a sua escolha não teve nada a ver com as questões técnicas e o tal caderno de encargos. Foi guiada por acordos políticos, troca de favores e afinidade.

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Teixeira conta como foi realizada a articulação política que o levou a votar nos catarianos, na eleição que ainda era exclusiva entre membros do comitê executivo da Fifa. Disse que seria natural que federações como Argentina (Júlio Grondona) e Paraguai (Nicolás Leoz), as outras duas sul-americanas do grupo na época, apoiassem Ángel María Villar, chefe do futebol espanhol, que armou uma candidatura ao lado de Portugal para a Copa do Mundo de 2018. Com a ex-metrópole na jogada, também seria normal, portanto, que o Brasil desse o seu voto para a dupla. Afinidade. “Argentina e Paraguai estavam fechados com a Espanha. Quem estava coligado na candidatura da Espanha? Não era Portugal? Sim, eles pleiteavam uma Copa compartilhada. Então, com Portugal na disputa, lógico que o voto do Brasil  seria para eles”, afirmou ao Terra.

O problema é que Portugal e Espanha não tinham muito apoio. Em uma reunião entre Teixeira, Villar e Júlio Grondona, decidiram buscar votos na Ásia, e o cabo eleitoral foi o Catar. O acordo foi que os catarianos votariam junto com os sul-americanos para a sede de 2018 e receberiam esses mesmos votos na eleição para 2022. Troca de favores. Foi isso que aconteceu. Espanha e Portugal passaram para o último turno e perderam da Rússia. Mas o Catar venceu. “Qual foi o acordo? O Catar votaria conosco para 2018 e em troca receberia nosso apoio em 2022. A história não difere um milímetro disso aí”, completou.

Adotando a postura da inocência, pode ser que, de fato, Teixeira não tenha recebido um centavo para votar pelo Catar. Pode ser que o amistoso entre Brasil e Argentina nesse país, o pretexto da propina, tenha sido mesmo apenas uma decisão da empresa que negocia os amistosos da Seleção, como ele afirmou. Mesmo que tudo isso seja verdade, os votos de Teixeira não foram baseados em questões técnicas. Não avaliaram os estádios, o legado que a competição poderia deixar nos países, o clima do Catar, as denúncias de trabalho escravo e mais nada. Isso, por si, já é um grande problema. Pelo que declarou, Teixeira no máximo folheou a proposta de candidatura que o Catar enviou. O fundamental, desde o início, era votar junto com as federações amigas e retribuir favores. Como é de costume entre a cartolagem, não deu a mínima bola para o futebol.

Veja a entrevista completa no site do Terra.